Os desafios diante do banimento do paraquat


Autores: Anderson Nunes 1
Publicado em: 30/06/2021

Nas últimas semanas uma pergunta tem surgido de modo natural. “Quais são as alternativas para substituir o paraquat?” Em setembro de 2017 a ANVISA deu um prazo de três anos para o banimento do paraquat. De fato em 2020, o banimento ocorreu e antes mesmo do prazo final os agricultores já não encontravam mais o herbicida disponível para aquisição.

O paraquat era um herbicida utilizado principalmente em aplicações sequenciais durante a dessecação pré-semeadura das culturas. Além disso, também era utilizado na dessecação de culturas na pré-colheita afim de uniformizar e acelerar a colheita. Quando pensamos no controle de plantas daninhas de folha larga, o cenário é bastante favorável, pois herbicidas como diquat, glufosinate e saflufenacil são alternativas tecnicamente eficientes.

Entretanto, quando pensamos no controle das plantas daninhas de folha estreita a situação fica mais complexa. Pois, o saflufenacil naturalmente sai de cena, pois não tem eficiência para este tipo de planta. Ainda, os que sobraram, diquat e glufosinate, não apresentam a mesma eficiência quando comparados ao paraquat (Figura 1). Dessa forma, temos que conhecer melhor estes herbicidas para que possamos usa-los da forma mais eficiente nas plantas daninhas de folha estreita.

Com o banimento do paraquat o controle do azevém preocupa bastante. Normalmente a contenção desta planta durante a dessecação pré-semeadura era realizado com a aplicação de glyphosate + herbicida inibidor da ACCase (ex: clethodim ou haloxyfop) seguido de uma aplicação de paraquat. Mesmo que a primeira aplicação não fosse totalmente satisfatória, muitas vezes a aplicação sequencial do paraquat garantia o controle eficiente do azevém.

Agora com o diquat e o glufosinate isso não é mais possível, tornando a eficiência máxima do clethodim e do haloxyfop quase que obrigatória (Figura 2). Esse novo cenário traz muita preocupação com relação ao aumento da frequência de populações de azevém resistente aos herbicidas inibidores da enzima ACCase, também conhecida como graminicidas. Assim, temos que entender melhor os fatores que afetam a eficiência destes herbicidas.

O clethodim e o haloxyfop são herbicidas que tem o seu desempenho afetado pelo estresse hídrico da planta. Então devemos evitar aplicação em épocas de seca, pois a absorção do herbicida é extremamente afetada. Ainda, estes herbicidas são dependentes de adjuvantes, sempre utilize o adjuvante recomendado pelo fabricante. O uso do adjuvante correto aumenta a absorção do herbicida e consequentemente a translocação, tornando o herbicida mais efetivo.

Um problema comum com estes herbicidas são as misturas com herbicidas auxínicos e os inibidores da enzima ALS, como exemplos o 2,4-D e metsulfuron, respectivamente. Como o clethodim e haloxyfop só possuem efeito em plantas de folhas estreitas, normalmente é adicionada a calda de aplicação herbicidas como o 2,4-D para o controle de plantas daninhas de folhas largas.

Essa mistura afeta negativamente o desempenho dos herbicidas que controlam as folhas estreitas. Assim, com exceção do glyphosate, devemos evitar outras misturas ao clethodim e ao haloxyfop.

Com relação ao diquat, por ser um herbicida de contato, o ideal é que seja aplicado com elevado volume de calda e com o uso de espalhante adesivo. Volume de calda de 200 L/ha permite melhor controle porque o herbicida fica melhor distribuído na planta. Nossos trabalhos indicam que é mais eficiente e barato aumentar o volume de calda do que aumentar a dose do herbicida.

A absorção do diquat ocorre em torno de 30 minutos e rapidamente começa a matar as células atingidas pelo herbicida. Dessa forma, mistura com outros herbicidas pós-emergentes não é recomendada. Pois, o herbicida companheiro do diquat nem seria absorvido ou ficaria retido dentro da célula morta pelo diquat. Ainda, aplicações noturnas podem aumentar a eficiência desde que na manhã seguinte o dia seja ensolarado.

Com relação ao glufosinate, este herbicida também requer elevado volume de calda e o uso do adjuvante recomendado para melhor eficiência. Entretanto, aplicações noturnas não devem ser realizadas. Esse tipo de aplicação pode reduzir em até 80% a eficiência do herbicida. O tempo de absorção do glufosinate é de até seis horas e o seu efeito inicial é lento.

Assim, diferentemente do diquat, misturas de glufosinate com outros herbicidas pós-emergentes é possível. Isso abre uma possibilidade de novos cenários no controle de plantas daninhas. O glufosinate é dependente de luz para o seu funcionamento, então é muito importante que as aplicações que envolve este herbicida iniciem duas horas depois do nascer do sol e sejam suspensas duas horas antes do por do sol. Para o glufosinate, o aumento de dose aumenta a eficiência de controle.

Fica evidente que o banimento do paraquat traz novos desafios no controle de plantas daninhas, principalmente das folhas estreitas. Vários trabalhos estão em desenvolvimento e podem trazer novos entendimentos mais a frente.

É importante que o agricultor entenda que o controle caro de plantas daninhas é aquele que não funciona. Como o paraquat era barato, qualquer outra aplicação parece ser cara. É importante que o agricultor entenda os benefícios a longo prazo. Ainda é importante salientar que a estratégia química não é a única, e que sempre siga as recomendações de um Engenheiro Agrônomo.

1Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Rio Grande do Sul – IFRS