Inspeção de pulverizadores na Região das Missões e Planalto do Estado do Rio Grande do Sul: uma situação atual


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Publicado em: 08/11/2021

O aumento da produção é o maior desafio da agricultura atual, uma vez que, a demanda mundial deve crescer o suficiente para alimentar uma população de 8.5 bilhões de pessoas prevista no ano de 2030 com um consumo médio diário de 3.050 kcal/habitante (UN, 2019). No Brasil a produção de grãos tem previsão de crescimento anual de 2,4%, atingindo em 2030 a produção de 318,3 milhões de toneladas (MAPA, 2020).

Neste sentido, todos os processos envolvidos na agriculta devem se tornar mais eficientes (técnica e economicamente), pois, quando realizado de maneira incorreta, além de se tornar antieconômica provoca consequências adversas à saúde humana e ao meio ambiente (SCHOLOSSER et al., 2017). Por isso, os equipamentos, de pulverização que estão atuando no campo, devem estar em boas condições de uso, regulagens corretas, e manutenção em dia, tornando as aplicações de produtos mais eficientes (SIQUEIRA, & ANTUNIASSI, 2012) e gerando menores desequilíbrios ambientais (TERRA et al., 2020).

A pulverização tem como objetivo fazer a deposição dos produtos (princípio ativo) na quantidade e distribuição correta no alvo que se busca fazer o controle (MATTHEWS, 2002), para que isso ocorra, algumas regulagens devem ser observadas, tais como, a escolha no tipo de ponta, pressão de aplicação, o volume de calda.

Já a uniformidade de distribuição da calda aplicada é alterada pelas condições de montagem das pontas nas barras, altura da barra de aplicação em relação a cultura. Segundo Sartori (1985) são considerados aceitáveis, variações do volume total aplicado em cada ponta de ±15 % em relação ao volume recomendado pelos fabricantes de pontas de pulverização.

Neste aspecto, devemos conceituar alguns itens, sendo:

Vazão: Volume por unidade de tempo, pode ser regulada de várias formas, de acordo com o tipo de equipamento, a unidade é litros por minuto (L/min);

Volume de calda/ha ou taxa de aplicação: Volume por unidade de área, resultado da largura de pulverização, da velocidade e da vazão, com unidade apresentada em litros por hectare (L/ha);

Pressão de trabalho: Medida normalmente em bar, PSI ou kPa, em condições normais, ela é resultado da restrição oferecida pelas pontas de pulverização à passagem do fluxo.

Em sistemas convencionais de pulverização, quanto maior a pressão, menores as gotas, sendo as pontas mais utilizadas são: tipo cone (cone cheio e vazio) (Figura 1 A) e tipo leque (leque padrão e leque uniforme) (Figura 1 B). Para uma aplicação de qualidade, deve ser reunida a maior quantidade de dados sobre os quatro fatores envolvidos no processo de pulverização: máquina agrícola, alvo biológico, fatores climáticos e defensivos agrícolas (CONTIERO, BIFFE, & CATAPAN, 2018) e estas boas condições de uso dos pulverizadores estão intimamente relacionadas à sua constante manutenção e ao entendimento da sua funcionalidade. (LANGENAKENS & PIETERS, 1997).

Assim o objetivo deste trabalho foi fazer um panorama da qualidade geral dos equipamentos de pulverização que atuam nas lavouras da região das Missões avaliando as pontas de pulverização, vazão, volume de calda e velocidade de aplicação, faixa de aplicação e identificando quais são os principais problemas encontrados nos equipamentos de pulverização da região das missões.

Metodologia

As inspeções são realizadas por meio de avaliações qualitativas e quantitativas. Entre os levantamentos quantitativos foram levantas informações correspondentes ao volume de calda aplicada, vazão e condição das pontas, velocidade de aplicação, sistema de pressão e vazão da bomba de pulverização, espaçamento entre bicos e aferição do manômetro.

No levantamento relacionado com a qualidade dos equipamentos, foram observados aspectos como: presença de vazamentos, resíduos de defensivos, depósito de calda e água limpa, mangueiras rachadas e situação geral dos registros e manômetros. As avaliações foram realizadas em 15 cidades, que estão localizadas na região das Missões e Noroeste do estado do Rio Grande do Sul totalizando 20 pulverizadores e 1.025 pontas de pulverização avaliadas (Figura 2).

Em cada propriedade avaliada em um primeiro momento foi apresentado um amplo questionário para o produtor responder, neste artigo serão abordados apenas algumas perguntas (Tabela 1). Após foi realizada a inspeção física dos equipamentos, onde avaliamos: marcas e tipos de pontas (cores, modelos); qualidade de cada ponta (pontas trancadas, desgastadas).

Foi medido a vazão média/volume de calda aplicada e funcionalidade dos manômetros, através de um banco manométrico aferidor (bomba hidráulica) semelhante ao utilizado por Balsari e Vieri (1996) e o vazamento das mangueiras foi realizada de maneira visual. Em relação a avaliação das pontas, foi considerado como sendo pontas dentro das normas, todas as pontas que tiveram uma variação de ±10% do volume projeto pelos fabricantes (nesta condição as pontas classificam-se como excelentes).

Os principais resultados obtidos

Entre os pulverizadores avaliado durante o trabalho, foi verificada uma diversidade de marcas e modelos, sendo que 80% são autopropelidos e os restantes são os chamados de equipamentos montados, pois os mesmos são acoplados ao trator pelo sistema hidráulico (Tabela 1). Na maioria dos casos, as maiores barras de aplicação são encontradas nos equipamentos autropropelidos, com média de 26 m de largura, pois como são máquinas maiores, permitem uma maior largura de trabalho na pulverização.

Nestes equipamentos são encontrados os maiores reservatórios, 85% possuem tanque com capacidade maior que 2000 litros, apenas 3 equipamentos possuem capacidade de tanque menor que 1000 litros (15%) e são justamente os que apresentam o acoplamento no sistema hidráulico do trator. Nestes equipamentos a média de largura da barra de aplicação é de 20 m.

Foi observado que 30% dos equipamentos apresentavam um coeficiente de variação (CV) maior que o considerado no nosso trabalho como sendo aceitável (CV < 10%) e em caso extremo, a variação de 23,98% muito acima do limite proposto.

No lado oposto, os equipamentos com melhor regulagem no volume de calda aplicado, o CV observado foi extremamente baixo, com apenas 1,39% de variação para mais ou para menos do que é o recomendado pelas pontas de aplicação. No Brasil, ainda não existe um limite máximo de CV regulamentado pelos órgãos de qualidade, desta forma, adota-se neste trabalho valores entre 10 e 15% de CV para considerar um equipamento.

Em alguns países como a Itália, é necessário um coeficiente de variação menor que 7% para ser aprovado no sistema nacional de inspeção de pulverizadores (este sistema ainda não existe no Brasil).

Volume de calda /ha ou vazão média aplicada

Após a entrevista individual com os produtores, foi possível identificar que 60% deles aplicam seus produtos com uma vazão média entre 90 e 100 litros por ha, 30% das propriedades investigadas optam por aplicar volume acima de 100 L/ha.

Os volumes extremos observados foram de aplicações de 120 (quantidade máxima) e 75 L/ha (quantidade mínima de calda (Tabela 1). Com este resultado obtido é possível sugerir que os agricultores preferem maiores volumes de calda de aplicação, acreditando na maior qualidade de cobertura do alvo, corroborando com o observado por Teston et al., 2016 que o aumento de 1 litro de calda/ ha incrementa aproximadamente 3 kg de soja/ha. Já Madalosso (2018) (dados não publicados), encontrou variação de 2,3 até 3,1 kg de soja/ha, com aumento de 1 litro de calda, dependendo do cultivar de soja.

Espaçamento dentre pontas

Os espaçamentos encontrados na maioria dos pulverizadores analisados foram o de 50 e 35 cm entre pontas, sendo que 85% dos equipamentos (17) possuem espaçamento de 50 cm, já o restante 15% (3) pulverizadores o espaçamento era de 35 cm.

Alguns pulverizadores mais novos tem essa opção de regulagem no espaçamento, desta forma, permitindo redução na altura de pulverização, e com isso se obtém melhoria nas condições de aplicação, principalmente, relacionado com a redução da deriva dos produtos, dependendo das condições climáticas existente no momento da aplicação.

Qualidade das pontas de pulverização

Constatamos que das 1.025 pontas avaliadas 66 estavam em perfeitas condições, o que representa apenas 6% do total de pontas avaliadas. Aquelas que estão dentro dos padrões aceitáveis pelas normas de avalição representaram 62% do total, o que equivale a 631 pontas.

Já as pontas de pulverização com problemas que podem prejudicar a operação totalizaram 328 do total avaliado, o equivalente a 32%, ou seja, praticamente 3 em cada 10 pontas avaliadas apresentam problemas (Figura 4 A) e as condições das pontas que foram encontradas nos equipamentos avaliados (Figura 4 B).

Nesse sentido, as pontas desgastadas, são aquelas que geram maiores preocupações para a qualidade das operações, e ocorrem principalmente pela grande utilização das mesmas, uma vez que as pontas em função do seu material de fabricação apresentam diferentes tempo de vida útil. Entre as pontas fora de padrão (total de 328), os dois fatores predominantes foram identificados 189 com desgastes, ou seja, aquelas pontas que aumentam o volume da calda utilizada e 139 trancadas por algum resíduo, diminuindo assim a quantidade de produto que chega até o alvo (Figura 4).

Em relação as pontas desgastadas, elas representam 18,4% do total, gerando assim desperdício com uma super aplicação, no sentido oposto, pontas que podem causar um sub dosagem, devido ao volume menor aplicado correspondem a 13,5%, além disso este entupimento pode gerar problemas de elevação da pressão no sistema, que podem causar danos em filtros, mangueiras e conexão em geral.

Pontas nestas condições prejudicam a qualidade da operação por mais regulado que esteja o pulverizador (CESSA & JUNIOR, 2016), sendo que os principais causadores de pontas entupidas são as aplicações de produtos formados por grânulos dispersos, pó molhável ou ainda, pela presença de sólidos presentes na água de abastecimento dos equipamentos (DÜSTERHÖFT et al., 2020).

Situação dos manômetros e vazamentos

Entre os 20 pulverizadores analisados, apenas um estava com o manômetro estragado, o que é um resultado muito bom, considerando os resultados obtidos em estados como Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, que, em pesquisa realizada, encontraram 88,9% de manômetros com defeito (ALVARENGA, 2009).

No geral, os pulverizadores analisados, foram encontrados somente dois vazamentos de mangueiras, justamente nos conectores com as pontas de pulverização, o que não foi considerado um problema grave, com pequenos ajustes e manutenção foram solucionados. Estes dados mostram que vem aumentando a preocupação com a qualidade de aplicação pelos agricultores.

Considerações Finais

Constatamos que os principais problemas encontrados estão relacionados com as pontas de pulverização, sendo que 32% das pontas de pulverização estavam com desgastes e entupidas, enquanto que apenas 6,44% encontravamse em perfeitas condições de trabalho.

O volume médio de calda aplicado se encontra na faixa de 80 a 100 L/ha.

Ainda, foi observado que 10% dos pulverizadores estavam com manômetro estragado e 20% apresentaram problemas de vazamento em mangueiras.

1 Discente do curso de Agronomia – URI Santo Ângelo, RS
2 Professor e pesquisador do curso de Agronomia – URI Santiago e Santo Ângelo, RS
3 Professor e pesquisador do curso de Agronomia – URI – Santo Ângelo, RS