Plantio direto no Sul do Brasil — uma revisão histórica e técnica


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Publicado em: 01/09/1990

Um pouco da história

O modo como o agricultor cultiva a terra na região Sul do Brasil é basicamente uma herança de sua origem europeia. Naquelas condições, o preparo intensivo do solo, através de arados e grades, tinha a finalidade básica de eliminar as invasoras e aquecer o solo após os rígidos invernos, mais do que, propriamente, formar uma cama adequada para a semente.

Na situação do Sul do Brasil, em função das temperaturas mais elevadas, da maior intensidade das chuvas e da declividade acentuada da maioria das áreas agrícolas, o preparo intensivo do solo propiciou condições excelentes para uma rápida perda da estrutura do solo, principalmente pela aceleração da decomposição da matéria orgânica, colocando-o à mercê dos efeitos erosivos das chuvas.

Desta forma, após poucos anos de uso, os campos e os matos recém-desbravados começam a mostrar sinais de cansaço, em função da desagregação e posterior perda de sua parte mais nobre, a camada superficial do solo, originariamente considerada a parte mais rica, física e biologicamente. Em consequência, investimentos que procuram corrigir a qualidade química desses solos são constantemente perdidos, e a resposta desejada em termos de produtividade e retorno econômico estagnou já há muitos anos.

Na verdade, de uma maneira geral, existe uma conscientização de que o sistema agrícola adotado agride muito o solo, deixando-o excessivamente exposto às condições climáticas. Tanto é que, a cada chuva que se aproxima, em vez de vibrar com essa possibilidade, o agricultor apenas torce, na maioria das vezes, para que sua terra resista à erosão. Através dos anos, experiências e estudos introduziram as barreiras físicas, como os terraços, e, mais recentemente, um manejo mais adequado do solo através do uso alternado de escarificadores, arados e grades, e mesmo de culturas, como métodos para amenizar os possíveis efeitos erosivos das chuvas.

No entanto, mesmo com a adoção dessas tecnologias, principalmente de uma forma isolada, não se conseguiu conter o depauperamento gradativo dos solos, e a cada ano os vestígios da erosão se tornam mais evidentes. Desta forma, além de, aos poucos, a agricultura se tornar inviável técnica e economicamente, a maior riqueza do homem, o solo agrícola, está sendo perdido irremediavelmente.

Procurando contornar essa situação, alguns produtores, junto com certos segmentos da pesquisa e da assistência técnica, iniciaram um trabalho revolucionário e diferente de cultivar a terra. Inspirados na própria natureza e em como os nativos cultivavam o solo, e baseados em algumas experiências em andamento em países do hemisfério norte, adotaram o sistema chamado de plantio direto. Basicamente, o sistema consiste em semear com o mínimo de revolvimento do solo, mantendo-o todo o ano protegido por culturas ou restos vegetais. Esta cobertura constitui o segredo do sistema, pois é com ela que se obtém a proteção e a recuperação dos solos depauperados e compactados. Inicialmente, pouco se sabia das qualidades do sistema de plantio direto e de suas implicações; no entanto, tinha-se a certeza de que não era pior do que a agricultura de rapina ou de mineração que vinha sendo praticada. Esses pioneiros se congregaram em torno de uma única ideia: a da conservação do solo e da água; de fazer com que a água da chuva permaneça no local onde ela cai, e propicie, junto com a tecnologia disponível, rendimentos agrícolas capazes de novamente viabilizar a propriedade rural como um todo.

Este início ocorreu em 1971, acentuando-se as pesquisas e as lavouras a partir de 1979. No estado do Paraná, principalmente na região dos Campos Gerais, os produtores foram mais convictos e persistentes, sendo eles praticamente os responsáveis pela geração da tecnologia atualmente disponível sobre o sistema. Para eles, conforme o produtor Franke Dijkstra, “o plantio direto não é somente uma técnica diferente, mas uma questão de sobrevivência”. Nesta região, dependendo da cultura, o plantio direto ocupa entre 70% a 80% da área agrícola; já a nível de estado, atinge mais de 500 mil hectares.

No Rio Grande do Sul, as primeiras experiências iniciaram praticamente na mesma época. No entanto, acredita-se que, em função do nível não tão acentuado da erosão, aliado à maior profundidade dos solos do que na região dos Campos Gerais e principalmente por falta de convicção dos produtores e do apoio da pesquisa, o sistema ficou estagnado em termos de área até o início da década de 80. A partir dessa época, com um maior apoio da pesquisa da FUNDACEP-FECOTRIGO e do CNPTrigo, e com o surgimento de uma nova geração de produtores mais convictos das necessidades de mudanças, o sistema cresceu rapidamente, ocupando hoje em torno de 200 mil hectares, concentrados mais exatamente na região do Planalto Médio e Missões.

Em Santa Catarina, apesar das restrições de algumas regiões pela ocorrência de maiores declividades e pequenas propriedades, a assistência técnica e a pesquisa foram muito eficientes, criando-se uma tecnologia própria para essas condições. Em consequência, o crescimento em área do sistema foi gradativo, ocupando atualmente em torno de 150 mil hectares neste estado.

Nos outros estados do Brasil, as áreas são menores, mas em franca progressão.

Planejar é preciso para implantação da lavoura

O produtor deve, preliminarmente, planejar as atividades e o sistema de rotação a ser utilizado nas diferentes glebas. O planejamento da lavoura começa no inverno. Dependendo da região, estão sendo conduzidos com êxito diversos sistemas de rotação, procurando atender o interesse do produtor. Entre as opções, tem-se como exemplo, 1/3 da área com trigo e 2/3 com aveia no inverno, seguindo-se 2/3 da área com soja e 1/3 com milho no verão. A área que precede o milho poderá ser ocupada por ervilhaca ou tremoço no inverno, em detrimento da aveia. É fundamental que não se tenha áreas sem cobertura. Por outro lado, uma vez estabelecido o esquema, deve-se procurar segui-lo para que, de fato, se tenha todas as vantagens de rotação de culturas.

Os aspectos relacionados com o controle de invasoras e adaptação de semeadeiras são considerados pontos críticos a serem cuidadosamente estudados. Estes são os dois itens que normalmente são apontados como impedimentos mais sérios para a implantação do sistema de plantio direto.

Quanto às plantas daninhas, deve-se impedir, em primeiro lugar, o surgimento das mesmas, através da continuidade da cobertura e da alternância das espécies cultivadas, recorrendo-se aos efeitos alelopáticos e mesmo físicos, conferidos pelas restevas dessas diferentes culturas. Mesmo assim, entre a implantação de uma cultura e outra, as plantas daninhas remanescentes devem ser eliminadas, utilizando-se, normalmente, herbicidas dessecantes não seletivos. É a chamada operação de manejo. A supressão ou a impossibilitação do surgimento de invasoras durante o ciclo das culturas é obtida pela ação de “abafamento” das próprias culturas e pela utilização de herbicidas seletivos em pré-emergência ou pós-emergência das invasoras, nos mesmos moldes do plantio convencional. Dependendo do tamanho da propriedade e da disponibilidade de mão de obra, pode-se utilizar também a capina manual. As dificuldades em termos de controle químico estão relacionadas com a eleição dos produtos e de suas doses em função das espécies presentes e de seu estágio de desenvolvimento. O domínio ou não desses aspectos pode fazer com que os custos de produção do plantio direto sejam menores ou maiores do que no plantio convencional. Produtores que dominam esta prática reduzem de 20 a 30% o custo do controle de invasoras. No entanto, a maioria tem maiores gastos no controle de invasoras no plantio direto do que no convencional. Para que tenha êxito, mais uma vez o produtor precisa de uma assistência técnica qualificada.

Atualmente, respeitando-se a situação financeira do produtor e, nos casos em que se trata de um iniciante em plantio direto, é preferível que este produtor adapte sua semeadeira para as condições de sua propriedade, em vez de adquirir máquinas novas. Dependendo da semeadeira e da adaptação a ser realizada, o custo, neste caso, atinge apenas de 1/6 a 1/10 do valor de uma semeadeira nova. Os itens básicos de uma semeadeira para plantio direto de soja e de milho são: o disco de corte da palha, o “facão ou escarificador” para colocação do adubo, o duplo disco para colocação de semente, associado a componentes controladores de sua profundidade e de compactação. Estas semeadeiras semeiam perfeitamente em restevas em geral, como a da aveia ou a do trigo. Já em áreas com aveia rolada, normalmente se utilizam semeadeiras munidas de discos duplos defasados e/ou desencontrados para o adubo e também para a semente. Esses tipos de componentes evitam embuchamentos em áreas de grande palhada. Em função do pequeno espaçamento entre as linhas das culturas de inverno, a semeadura dessas culturas também é realizada com semeadeiras de duplos discos defasados e/ou desencontrados. Variações dessas situações básicas são perfeitamente possíveis, principalmente a partir do momento em que o produtor tiver um maior domínio da tecnologia.

Agricultor só deve começar depois de estar convencido

Em primeiro lugar, o iniciante do plantio direto deve estar convencido das vantagens que o sistema oferece e das mudanças necessárias a serem realizadas a nível de propriedade e de suas implicações. Para isso, ele deve, primeiramente, visitar uma série de produtores que há mais tempo executam o sistema; ter participado de dias de campo e ter consultado técnicos especializados. Em resumo, antes de realizar a mudança no modo de cultivar a terra, deve ter realizado a mudança em sua mente. Desta forma, iniciando em pequena área de sua propriedade, na qual sua improvisação, criatividade e senso de observação possam ser desenvolvidos sem comprometer o restante da propriedade, certamente estará garantindo a evolução gradativa e o sucesso do sistema de plantio direto.

O exagerado uso de grades, a movimentação do solo em condições inadequadas de umidade, o trânsito frequente e sem motivo de maquinaria, carros e caminhões sobre as áreas cultivadas são os fatores principais da formação de solos desestruturados e com a presença de camadas compactadas. Logicamente, antes de se iniciar no sistema de plantio direto, deve-se eliminar esses “pés-de-grade” com a utilização de escarificadores na operação de preparo do solo. Da mesma forma, as causas da formação dessas camadas adensadas devem ser evitadas.

A presença de alumínio e manganês tóxico pode comprometer o desenvolvimento radicular na busca de água e nutrientes, tanto no plantio direto como no convencional. No entanto, nos primeiros anos de cultivo em plantio direto, o solo normalmente torna-se mais adensado, o que compromete ainda mais a produtividade do cultivo. Esse motivo faz com que seja necessário neutralizar o efeito desses elementos através da calagem. Níveis muito baixos de outros elementos, principalmente o fósforo, também necessitam de uma correção.

Uma das causas fundamentais da erosão, sem dúvida, é o uso intensivo do solo nas monoculturas de soja e trigo. Este círculo vicioso, que se forma entre a exposição demasiada do solo e um retorno insuficiente de material orgânico que garanta sua proteção, é a causa primária da erosão dos solos. A reversão desse quadro somente é possível com a introdução de culturas que, além de interromperem a evolução de pragas e doenças, forneçam a quantidade de resíduos culturais capazes de proteger o solo, melhorar sua atividade biológica e, consequentemente, reformular sua estrutura. Além disso, essa palha protege o solo através da absorção do impacto da gota de chuva, aumenta a capacidade de infiltração da água, ameniza a temperatura do solo, diminui a quantidade de evaporação da água e inibe a germinação de plantas daninhas. Culturas como milho, aveia e ervilha, entre outras, são opções importantes para a efetiva ação desse processo. Normalmente se diz que são necessárias 6,0 toneladas de massa seca para se obter esses benefícios em sua plenitude.

Para que a palha esteja bem distribuída, realizando a proteção do solo e facilitando a semeadura, necessariamente as automotrizes precisam estar munidas de picadores e distribuidores de palha. Esses componentes devem estar adequadamente regulados para que espalhem a resteva uniformemente na mesma largura de corte da colheitadeira.

O produtor deve evitar áreas que estejam altamente infestadas de plantas daninhas. As mais limitantes são as de hábito perene que, se não controladas previamente, podem aumentar muito os custos de controle no sistema de plantio direto.

Para que não haja entraves a nível de lavoura, é importante também que a equipe de campo do produtor tenha conhecimentos sobre o sistema e participe, dentro do possível, de dias de campo e palestras sobre o tema.

No item semeadeira pode estar o passo definitivo para o sucesso no sistema. Por se tratar do maior investimento inicial, é muito importante que a escolha da semeadeira ou da adaptação a ser realizada seja bem estudada. As variações ocorrem basicamente em função do tipo de solo e do seu manejo anterior, da resteva presente e da cultura a ser semeada. Existem no mercado muitos modelos, assim como existem adaptações compatíveis com o nível das lavouras existentes. Finalmente, para que tudo o que foi relacionado tenha uma melhor base e uma maior probabilidade de sucesso, é indispensável que o produtor rural recorra a assistência técnica capacitada para tal fim. Sem um acompanhamento e aconselhamento técnico, é muito difícil prosperar dentro do sistema de plantio direto.

Eng. Agr. M.Sc. José Ruedell — FUNDACEP/FECOTRIGO, Cruz Alta-RS