A primeira grande vantagem do plantio direto é o controle da erosão, que também é o principal motivo alegado pelos produtores para a sua adoção. Diversos estudos realizados no país mostram que é possível reduzir em pelo menos 90% as perdas de solo através do plantio direto. Uma vantagem implícita, neste caso, é a interrupção das perdas de nutrientes. Esse cálculo normalmente não é considerado na elaboração dos custos da lavoura em plantio direto. No entanto, alguns levantamentos indicam que é possível, dependendo do tipo de solo e do grau de erosão, evitar perdas de nutrientes equivalentes a US$ 145,5 por hectare/ano no estado do Paraná. Um documento divulgado pela Sociedade de Agronomia do RS informa que, em 1985, o Rio Grande do Sul perdeu, em média por hectare/ano, 84 kg de calcário, 114 kg de N, 16 kg de P2O5 e 8 kg de K2O, perdas que poderiam ter sido evitadas em 90% se houvesse cobertura do solo, como no sistema de plantio direto. Essas perdas de solo e nutrientes equivalem a aproximadamente 121.000 hectares de solo agrícola.
As consequências indiretas da redução da erosão incluem a diminuição das enchentes e do assoreamento dos rios, açudes e represas, bem como uma menor poluição das águas destinadas ao consumo.
Em algumas regiões do Brasil, onde o plantio direto teve maior aceitação, observou-se um melhor aproveitamento da área agricultável em relação ao total. Nos Campos Gerais, Paraná, a área útil aumentou de 65% para aproximadamente 75%. Isso se deve ao aproveitamento de áreas com maior declividade, à eliminação de parte dos terraços e à diminuição dos canais de escoamento.
A grande quantidade de restos culturais deixados pelas culturas na superfície do solo no plantio direto estabiliza a temperatura e, consequentemente, diminui a evaporação de água do solo. Dependendo da época do ano e do grau de cobertura, pode-se reduzir em até 20% a quantidade de água perdida. Essa maior umidade do solo garante a semeadura dentro dos períodos preferenciais, o que pode aumentar a produtividade em cerca de 6%. Os replantios, devido a condições inadequadas de umidade do solo, podem ser praticamente eliminados, o que representa uma diminuição de cerca de 10% na quantidade necessária de sementes. Sabe-se também que a estabilização da temperatura favorece a absorção de nutrientes pelas plantas, garantindo um crescimento inicial mais forte, rápido e uniforme.
Verifica-se também que o plantio direto desgasta em menor grau a maquinaria da propriedade (como tratores), devido ao menor tempo de uso e à execução do trabalho em condições menos adversas, ou seja, sem a poeira do plantio convencional. Este fato aumenta a vida útil das máquinas e implementos, o que pode ser considerado uma vantagem adicional. A diminuição do número de horas de trabalho, basicamente devido à eliminação da aração e das gradagens, e dependendo do tamanho da propriedade e da potência dos tratores, consegue reduzir entre 50% e 75% o gasto com combustíveis.
Seguindo-se um sistema melhor dimensionado de rotação de culturas e considerando que o trabalho a campo é realizado em condições menos adversas (praticamente sem poeira e sem trabalhos noturnos), a saúde dos funcionários das granjas também é melhor preservada, o que é uma grande vantagem do ponto de vista social.
Quanto ao aspecto de fertilidade, o plantio direto traz algumas vantagens indiscutíveis. Logicamente, a interrupção das perdas de solo deve aumentar a concentração de nutrientes de maneira geral. Em consequência, a médio e longo prazo, dependendo do potencial genético da cultura, é possível reduzir os níveis de adubação e, portanto, os custos de produção. Esse caso se aplica especificamente ao fósforo. No sistema convencional, o fósforo tem sua disponibilidade reduzida devido ao maior contato com partículas do solo durante as movimentações por aração e gradagens, principalmente em solos mais ácidos e com altos teores de argila, ferro e alumínio. No plantio direto, o revolvimento do solo praticamente não ocorre, tornando-o mais disponível logo abaixo da cobertura morta. Este fato, aliado ao maior teor de água, favorece a taxa de difusão de fósforo até as raízes.
Diversos estudos comprovam que, quanto mais estáveis forem os agregados do solo, menores serão os problemas de selamento superficial e maiores serão os índices de infiltração de água no solo. Esses mesmos estudos verificaram que, no plantio direto, a estabilidade dos agregados é maior até uma profundidade de 15 cm. Aliando-se esse fator à cobertura de palha, garante-se uma maior infiltração da água no solo, eliminando definitivamente o problema da erosão. Os resultados indicam que a taxa de infiltração de água da chuva no plantio direto é o dobro da verificada no sistema convencional. No entanto, a palha é fundamental nesse processo. Se não houver uma adequada cobertura de restos culturais, o processo pode se inverter, devido a uma maior densidade do solo e menor volume de macroporos no plantio direto.
Necessidades de pesquisa
Tratando-se de um sistema de cultivo recente a nível mundial, apesar dos esforços realizados na pesquisa, muitas dúvidas e problemas ainda precisam ser resolvidos. Acredita-se que a expansão da área favoreça o aparecimento de novas situações, cuja elucidação e compreensão serão alcançadas se houver maior atenção por parte da pesquisa brasileira sobre o assunto.
É interessante observar que, desde o início do plantio direto no país, os produtores do sistema frequentemente se depararam com situações que pareciam intransponíveis. No entanto, verificou-se que, com a continuidade da utilização do sistema, mesmo sem soluções apontadas pela pesquisa, os problemas desapareceram, como se tivessem sido absorvidos pelo próprio sistema. Acredita-se que, por se tratar de uma técnica que imita a natureza mais que outras, tenha-se estabelecido um equilíbrio pelos próprios agentes naturais. Claro que, na maioria das vezes, o apoio da pesquisa foi fundamental para superar os obstáculos.
Dentro das necessidades de pesquisa, sem dúvida, faltam informações mais seguras e precisas quanto às providências e até mesmo às consequências da concentração acentuada de alguns nutrientes na camada superficial do solo e a carência de outros a partir da profundidade de 15 cm.
A determinação das necessidades nutricionais das culturas, levando-se em conta a liberação dos elementos a partir da decomposição da matéria orgânica e da alteração do habitat que favorece a proliferação de macro e micro-organismos, ainda é bastante desconhecida.
Dúvidas quanto à utilização de calcário em superfície, associado ou não ao gesso, continuam. Da mesma forma, não se sabe quantificar exatamente os benefícios e os prejuízos de uma escarificação ou lavração que interrompa a continuidade do sistema. Nesse caso, busca-se eliminar uma possível compactação ou pretende-se diminuir a população de plantas daninhas ou de insetos de solo, podendo-se perder grandes quantidades de água, aumentar o gasto de combustíveis e expor o solo às condições climáticas, sem que os objetivos propostos tenham sido alcançados.
Algumas espécies de insetos-pragas, como o tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus), têm encontrado condições mais favoráveis de proliferação no plantio direto do que no convencional. Quais seriam os métodos de controle viáveis para lidar com esses problemas dentro do sistema de plantio direto? A rotação de culturas é suficiente?
Praticamente não existem informações sobre a adaptação de cultivares de soja e trigo ou mesmo de híbridos de milho para o sistema de plantio direto.
Frequentemente questiona-se sobre práticas culturais corriqueiras, como espaçamento e densidade em plantio direto, em função de melhores níveis de germinação das sementes e observação da ocorrência de acamamento.
Um maior número de opções de herbicidas para o manejo de plantas daninhas, bem como de produtos seletivos com maior elasticidade na época de aplicação, são necessidades urgentes para o sistema, principalmente para a cultura do milho.
Semeadeiras ainda precisam ser melhoradas, especialmente aquelas destinadas às culturas de inverno.
A pequena propriedade, de maneira geral, merece mais atenção da pesquisa como um todo.
Poucas informações são encontradas sobre a interação entre lavoura e pecuária no plantio direto. Os efeitos do tipo de solo, lotação, compactação e rotação de culturas nessa integração precisam ser pesquisados.
Conheça as desvantagens
O controle de invasoras no plantio direto é um dos aspectos mais discutidos quanto a ser mais ou menos econômico do que no plantio convencional. Na prática de campo, levantamentos realizados indicam um aumento médio de cerca de 28% nos custos de controle em relação ao sistema convencional. No entanto, produtores que dominam a tecnologia, com uma propriedade totalmente planejada em rotação de culturas e que utilizam grandes coberturas de palha, assistidos por um técnico especialista em controle de invasoras, têm verificado uma situação inversa a partir do quarto ou quinto ano de implantação do sistema de plantio direto. Assim, considerando que a maioria dos produtores não se enquadra nessas características, pode-se concluir que o custo de controle de invasoras constitui uma desvantagem do sistema.
Da mesma forma, a necessidade de mudanças nas semeadoras, seja através da adaptação ou da aquisição de novas máquinas, também pode ser considerada um item desvantajoso.
A maior estabilização da temperatura no plantio direto, com diminuição de sua média diária, normalmente pode ser vista como uma vantagem, ao favorecer a absorção de nutrientes e reduzir as perdas de água por evaporação. No entanto, em anos de geadas fora de época, têm-se verificado maiores prejuízos no trigo neste sistema, devido à menor temperatura e maior teor de umidade. Estes fatores também podem prejudicar o desenvolvimento inicial do milho em semeaduras realizadas em primaveras frias. Nesse último caso, o uso de semeadoras com “facões” para adubo, que movimentam e consequentemente aquecem mais o solo, tem em parte solucionado o problema.
Pesquisas também comprovaram que, no plantio direto, aumenta a densidade global e diminui a macroporosidade do solo. Teoricamente, esses fatores podem dificultar o desenvolvimento radicular e reduzir as taxas de infiltração de água das chuvas. Esses aspectos negativos podem ser exacerbados pelo trânsito de semeadoras, pulverizadores e colheitadeiras em condições de umidade excessiva. Evitar esse trânsito inoportuno ajudaria a solucionar parte do problema. Para que as taxas de infiltração e a conservação de água não sejam prejudicadas pela maior densidade e menor macroporosidade — e na prática isso tem sido observado, invertendo-se totalmente a situação — é essencial ter uma boa cobertura de palha. Por isso se diz: “a palha é o combustível que move o sistema de plantio direto”. A presença da palha e da maior umidade favorece o surgimento de micro e macro-organismos, como as minhocas, que indiscutivelmente interferem nos aspectos negativos mencionados, ajudando, por meio de suas galerias e reciclagem de nutrientes, a eliminar essas condições desfavoráveis iniciais.
O plantio direto pode, nos primeiros anos de implantação, aumentar a deficiência de nitrogênio no milho e no trigo, devido a uma menor taxa de mineralização da matéria orgânica e maior lixiviação do nitrogênio. Nesses casos, o produtor pode precisar aplicar maiores quantidades de adubo nitrogenado. Após alguns anos no sistema e com a utilização de leguminosas em rotação, como soja, tremoço ou ervilhaca, esses problemas com a falta de nitrogênio tendem a desaparecer. No entanto, se grandes quantidades de nitrogênio forem aplicadas na superfície anualmente, corre-se o risco de acidificar o solo. Diversas pesquisas realizadas no Brasil, no entanto, têm demonstrado que doses um pouco superiores às tradicionalmente recomendadas (em torno de 20 a 30%) não alteraram o pH no plantio direto. Isso ocorre devido à lenta mineralização da matéria orgânica, não permitindo a concentração de ácidos orgânicos, além de o maior teor de umidade diluir a concentração desses ácidos.
Outra desvantagem do sistema é a necessidade de um maior preparo e acompanhamento contínuo do produtor, da assistência técnica e dos funcionários de campo. No entanto, devido aos melhores resultados que essa dedicação proporciona a nível de propriedade, entende-se que esse aspecto é muito mais positivo do que negativo.
Finalmente, menciona-se que as condições do plantio direto favorecem o aparecimento de insetos-praga e doenças. No entanto, tem-se observado em campo que, nas regiões onde este sistema é utilizado há mais tempo com sucesso, essa afirmação não se confirma inteiramente. A principal diferença encontrada nessas regiões, em relação àquelas onde esses problemas ocorrem de fato, é a utilização em grande escala da rotação de culturas. Por outro lado, tanto a pesquisa, a assistência técnica quanto o produtor devem estar atentos para que o sistema continue viável, pois, com tantas vantagens decisivas em comparação com algumas desvantagens questionáveis, acredita-se que é preferível confiar no sistema de plantio direto. “Não se pode matar a vaca para matar o carrapato”.