Plantio Direto — opção biológica-econômica de uso e manejo de solo


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Publicado em: 01/09/1990

As interações entre os vários fatores do meio ambiente estão sempre acontecendo — plantas, animais, solo, água, topografia, clima, homem — muito embora nem sempre possamos percebê-las prontamente.

Quando as partes do ecossistema se encontram em um estado de equilíbrio autorregulado, o sistema está em uma condição estável e é relativamente resistente a um rompimento.

Os ecossistemas agrícolas geralmente têm menos espécies componentes do que os ecossistemas naturais de uma mesma área. Sendo menos complexos, são também menos estáveis diante de eventos climáticos severos e outros fatores.

“A erosão não é o único problema em recursos naturais.”

No Estado do Paraná, as mudanças nessas interações, especialmente nos ecossistemas agrícolas, estão sendo causadas principalmente pela erosão hídrica.

Na realidade, a erosão não é o único problema nos recursos naturais. No entanto, outros problemas, apesar de muito importantes, não atingem o mesmo nível de magnitude, pois, em grande parte, são efeitos decorrentes do processo erosivo.

Ao se analisar o diagrama que apresentamos, pode-se compreender como os problemas interagem e, muitas vezes, como um pode ser causa do outro.

Tomando-se a erosão como problema central, tem-se como consequência problemas ligados ao assoreamento e à poluição de mananciais.

As enchentes, que no Paraná só não são de maior magnitude porque a maioria dos centros urbanos não são ribeirinhos e os rios possuem vales encaixados, têm como uma de suas causas os baixos índices de infiltração de água, resultantes da baixa permeabilidade do solo, o que gera escorrimento superficial e intensifica a erosão.

No entanto, a erosão é o resultado de vários outros problemas existentes, todos eles ligados ao uso e manejo inadequado dos recursos naturais.

A baixa produtividade e a degradação do solo, da mesma forma que interferem sobre a erosão, à medida que afetam a produção vegetal, são também causados por ela, fechando um ciclo extremamente prejudicial à preservação ambiental e ao bem-estar social, uma vez que apenas gera empobrecimento a médio e longo prazos.

“O uso crescente de fertilizantes não traz o aumento de produção e produtividade.”

As implicações destas mudanças têm levado os agricultores à utilização crescente de fertilizantes por unidade de área, sem o correspondente aumento de produção e produtividade. A área plantada com as principais culturas nos últimos 15 anos (arroz, feijão, milho, soja, trigo, algodão, cana-de-açúcar e café) passou de 5,8 para 7,5 milhões de hectares, um aumento de 29%.

No mesmo período, a produtividade de algumas culturas como o trigo, soja e milho aumentou entre 25% e 27%, enquanto outras, como feijão e café, diminuíram 22% e 1,5%, respectivamente. Por outro lado, o consumo de fertilizantes (N, P, K) no mesmo período aumentou em 575%.

“Cai a renda do produtor e aumentam os custos de produção e dos alimentos.”

Como se observa, está ocorrendo uma redução de renda do produtor, aumento do custo de produção, aumento do custo dos alimentos para as populações urbanas, redução da demanda de mão-de-obra no meio rural e aumento dos custos indiretos (pesquisa, extensão rural, etc.).

Este sistema agrícola, parcialmente ou totalmente desmantelado, pode reconstituir-se ou dar origem a um ecossistema diferente, partindo sempre daquilo que ainda existe e atravessando uma série de fases intermediárias, até atingir um equilíbrio igual ou diferente do equilíbrio inicialmente perdido.

No entanto, há diferentes pontos de vista sobre o problema, suas consequências e possíveis soluções. O agricultor está cada vez mais consciente, não tanto da causa em si, mas dos efeitos sobre o potencial produtivo de suas terras e do aumento das despesas. O técnico, por sua vez, acredita que “conservar o solo” é sempre uma “boa opção”, subestimando os interesses econômicos dos agricultores ao planejar as soluções (as quais incluem, geralmente, apenas medidas de natureza técnico-física, como o terraceamento). Já a comunidade urbana está mais intensamente preocupada com os efeitos do problema, especialmente com o aumento nos custos atuais de manutenção das estruturas comunitárias (estradas, estações de captação de água, etc.), a diminuição das opções de uso da terra para o futuro, o aumento dos preços dos produtos agrícolas e a qualidade da água para consumo.

Como as percepções divergem, as recomendações de solução também divergem, tornando-se inaceitáveis para os agricultores, frustrantes para os técnicos e inadequadas para a comunidade.

Significativas mudanças ocorrem no entendimento sobre o que é “conservar o solo” quando encaramos essa conservação como uma consequência ecológica do uso ou manejo inadequado da terra.

A solução não é “conservação do solo” mas sim “um melhor manejo da terra”

Nesse sentido, a primeira solução defendida pelo Programa de Manejo e Conservação do Solo do Paraná Rural (SEAB-Paraná) para a “erosão do solo” não é a “conservação do solo” mas sim “um melhor manejo da terra”.

A adoção de uma aproximação biológica-econômica mais integrada, conforme a figura que apresentamos (ao contrário de uma confiança exagerada em medidas físicas para controlar a erosão), oferece a possibilidade de benefícios quase imediatos em termos de produção vegetal, retornos econômicos e conservação do solo.

A ênfase sobre o ponto de vista biológico-econômico como uma forma de uso e manejo do solo, na qual seriam inseridas medidas de conservação física complementares quando necessárias, representará avanços significativos sobre o ponto de vista atual. Isso porque, entre outros motivos, pode ser aplicável tanto para pequenos, médios e grandes agricultores nos diversos níveis de manejo, mecanização, tração animal e mão-de-obra braçal. Pela integração da produção e proteção em termos de bacia hidrográfica, também integra os interesses dos agricultores, técnicos e da comunidade.

Eng. Agr. Nestor Bragagnolo — Coordenador do PMISA, SEAB-Paraná