O sistema de plantio direto se consolidou na região dos Campos Gerais (no Paraná) por ser um eficiente método de controle da erosão dos solos. Com o passar dos anos, os agricultores observaram outras vantagens de natureza prática, tão importantes quanto o controle da erosão:
— plantio em época certa, com umidade adequada, obtendo melhores produções;
— melhor emergência das sementes, evitando o replantio de áreas que formavam “crostas” em solo descoberto, devido a fortes chuvas;
— melhor sincronismo na prática da rotação de culturas, possibilitando manejo adequado da resteva nos intervalos de colheita e plantio (ex.: roçadeira na palha de milho, rolo-faca em cobertura verde de aveia preta ou ervilhaca, etc.);
— possibilitou a racionalização do uso de fertilizantes em função da rotação de culturas;
— melhor controle de ervas, em função do efeito de palha sobre o solo.
Atualmente, cerca de 80% da área plantada na região das cooperativas ABC utiliza o sistema de plantio direto. Quando esse sistema foi implantado, a principal preocupação foi o controle dos efeitos nocivos das enxurradas que causavam as perdas de solo. Na época, antes de iniciar o sistema de plantio direto, a prática da calagem era baseada no método do Alumínio Trocável (Al × 2), incorporando o corretivo na profundidade de 15 a 20 cm.
Várias áreas iniciaram o plantio direto sem a devida atenção na correção da acidez. O levantamento da situação da fertilidade dos solos na região ABC, em 88/89, mostrou que cerca de 30% necessitavam correção da acidez, 40% fazer a manutenção e 30% com boa situação. Observou-se em algumas dessas áreas com 12 a 14 anos de plantio direto níveis elevados de produtividade nas culturas de trigo, milho e soja, com médias superiores a 2.800, 7.000 e 3.200 kg/ha, respectivamente.
Diversos trabalhos mostraram a necessidade de proporcionar um ambiente quimicamente favorável ao sistema radicular da planta, para que possa expressar o seu potencial produtivo (Tabela 1).
Causas da acidez
Vários experimentos mostraram, após 4 a 5 anos de plantio direto, em três dos principais solos do Paraná (terra roxa, Latossolo Roxo e Latossolo Vermelho-Escuro), a manutenção do pH original e até a sua elevação. Entretanto, trabalhos na literatura americana mostraram efeitos de acidificação na camada arável.
Dois aspectos são importantes ressaltar:
1 — Observou-se que o não revolvimento do solo, mantendo a palha na superfície, além de conservar maior umidade no solo, evita a quebra da capilaridade. A infiltração da água será maior devido ao movimento mais intenso no perfil, com maior armazenamento. Constatou-se, também, que a taxa de mineralização do material orgânico acumulado na superfície é mais lenta, em consequência, menor liberação de ácidos orgânicos ao solo. Em virtude do maior teor de umidade no plantio direto, ocorreria a diluição da concentração dos ácidos, mantendo o pH do solo.
2 — Por outro lado, observou-se que a principal causa da acidificação seria a conhecida reação de nitrificação:
2 NH4+ → 2 NO3- + 2 H2O + 4 H+
o amônio (NH4+) ao passar para nitrato (NO3-) libera ao solo o elemento responsável pela acidificação (H+). Isto ocorre qualquer que seja a origem do amônio, do fertilizante mineral ou de matéria orgânica.
A importância desta reação foi observada em área de plantio direto nos EUA, com mais de 5 anos, de milho após milho e elevadas adubações nitrogenadas. Acredita-se que esse efeito deve ser o principal motivo da acidificação em latossolos vermelho-escuro na região dos Campos Gerais.
Rotação de culturas x adubação nitrogenada
Basicamente têm sido utilizados quatro tipos de rotação na região de atuação da Fundação ABC (Tabela 2).
Considerações sobre Tabela 2:
a) Na rotação 1, teremos no inverno a adição em média de 60 kg/ha de fertilizante nitrogenado no trigo em uma gleba; no verão em outra gleba, 120 kg/ha de fertilizante nitrogenado. Considerando que para cada 100 kg de uréia aplicada, resultaria a necessidade de 840 kg de calcário (100% PRNT) para neutralizar a acidez provocada. Nesta situação, a acidificação provocada será maior no verão do que no inverno.
b) Na rotação 2, teremos no verão a adição de 120 kg/ha e no inverno na mesma gleba 80 kg/ha, totalizando 200 kg N/ha. A acidificação provocada pelo fertilizante nitrogenado será maior que na rotação anterior.
c) Na rotação 3, teremos a redução da acidificação em 50% devido a menor utilização de fertilizante nitrogenado em função da presença de leguminosa antes do plantio do milho. Tecnicamente, é a rotação mais eficiente, porque mantém o equilíbrio entre a produção de nitrogênio via leguminosa e a adição via fertilizante.
d) Na rotação 4, a acidificação provocada pelo fertilizante nitrogenado será a mais intensa, devido à predominância de gramíneas e o plantio do trigo sempre após o milho. Para a manutenção do nível de produtividade nas áreas com essa rotação, os custos tenderão a ser maiores.
A estratégia de correção da acidez deverá ser em função de cada situação, analisando o conjunto de fatores.
Estratégia de calagem
1) Solos de textura arenosa: esses solos possuem baixa capacidade de retenção de nutrientes (Ca, Mg, K) e lixiviação mais intensa. O efeito da acidificação é mais direto na solução do solo. Porém, a sua correção é mais rápida e com menores quantidades de calcário. Em áreas com mais de quatro anos de plantio direto, 1,0 ton/ha de calcário a cada dois anos seria suficiente se o agricultor utiliza a rotação 1 e 3. No caso de utilizar a rotação 2 e 4, convém elevar a dose para 1,5 ton/ha.
2) Solos de textura média: esses solos possuem boa capacidade de retenção de nutrientes, a lixiviação é menor e têm maior resistência à variação de pH do que os arenosos. Porém, a necessidade de correção da acidez em áreas com mais de quatro anos será maior. A sugestão de 1,5 a 2,0 ton/ha de calcário a cada 2 anos seria adequada.
3) Solos de textura argilosa: esses solos possuem alta capacidade de retenção de nutrientes e armazenamento de água. A lixiviação de bases é mínima e a resistência à variação de pH é alta. Porém, o efeito acidificante do fertilizante nitrogenado será mais intenso, devido ao maior armazenamento de água no perfil. A utilização de 2,0 a 2,5 ton/ha de corretivo a cada dois anos seria adequada.
Época de aplicação de corretivo
Deverá ser aplicado, preferencialmente, na cultura de inverno, planejada como cobertura verde (aveia preta, ervilhaca, etc.). Pode ser tanto durante o desenvolvimento vegetativo, como após a operação do rolo-faca.
* Transcrito do Jornal da Fundação ABC para Assistência e Divulgação Técnica Agropecuária — Av. dos Pioneiros, 1540, Carambeí, Castro — Paraná — CEP 84.170
Eng. Agr. João Carlos de Moraes Sá — Fundação ABC