O tamanduá-da-soja e o plantio direto


Autores:
Publicado em: 01/09/1990

De 4 a 5 anos para cá vem crescendo, de modo gradativo, a incidência do tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus). Na safra 89/90, em função dos danos elevados, com algumas perdas quase totais, como no Município de Selbach, no Planalto gaúcho, houve intensa discussão entre produtores, pesquisadores, extensionistas e autoridades, na busca de solução para o problema. A falta de informações seguras sobre o inseto gerou perplexidade e equívocos. Até porque, pela forma de algumas abordagens, ficou a impressão que, depois de altas infestações, somente a aração eliminaria a praga, o que colocaria em cheque o sistema de plantio direto, pois o controle químico tem se mostrado ineficiente.

O tamanduá-da-soja foi registrado, no Rio Grande do Sul, em 1974 e só dez anos mais tarde passou a se constituir em problema pelos prejuízos econômicos que começaram a ser contabilizados. Ele já preocupa também em Santa Catarina e Paraná e está presente nas demais regiões produtoras de soja sem causar danos, mas se acredita que no futuro a situação possa se agravar.

O entomologista Irineu Lorini, que coordena as pesquisas sobre o tamanduá-da-soja no Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, unidade da EMBRAPA sediada em Passo Fundo, diz que nenhuma afirmação mais definitiva ainda pode ser feita sobre como controlar essa praga.

“É prematuro, por exemplo, dizer que o plantio direto aceleraria o crescimento desse inseto na lavoura. Como é prematuro, também, afirmar que a aração erradicaria a praga”, ressalta o pesquisador, para quem a rotação de culturas ainda é a forma mais eficiente de ir reduzindo as infestações.

Relativamente à aração, diz Lorini, não se pode esquecer que o potencial de reprodução da praga é muito grande, pois uma fêmea coloca até 300 ovos. A população de inseto a permanecer no solo, após a aração, continuaria grande, favorecendo nova infestação, que seria maior ainda havendo novo plantio de soja.

Como o tamanduá-da-soja só se alimenta de leguminosa, uma rotação com milho ou sorgo, por exemplo, que não servem nem para hospedeiros, interrompe o ciclo por um ano, ajudando no controle.

Pesquisas

Irineu Lorini afirma que a pesquisa intensificou um trabalho em busca de respostas mais objetivas para controlar essa praga. Essas atividades abrangem várias linhas de pesquisas, destacando-se:

— verificação da época de semeadura — dentro do calendário recomendado — e sua influência na proliferação do inseto;

— estudo da biologia do inseto ao nível de campo: fase de postura, de larva, de larva hibernante, de pupa e fase adulta;

— determinação de plantas hospedeiras, para servirem de armadilha, e não-hospedeiras, para uso em rotação de culturas;

— avaliação mais precisa do efeito da aração do solo na população da praga;

— estudo sobre a evolução do inseto no Estado, pois ele cresceu em termos populacionais sem um acompanhamento mais detido, até porque ele sempre esteve presente sem causar danos econômicos;

— ferômonios sexuais, detalhando os hormônios produzidos pelos insetos para atração da fêmea e do macho para, a partir disso, determinar, se possível, alguma forma de combate;

— controle biológico com fungos (especialmente com a Beauveria, já identificada a campo);

— busca de variedades mais resistentes ao tamanduá-da-soja.

Sul Brasileira

A respeito do tamanduá-da-soja, transcrevemos o que foi deliberado pela XVIII Reunião de Pesquisa da Soja da Região Sul, realizada nos dias 7 e 8 de agosto deste ano, no Centro Nacional de Pesquisa de Trigo:

“O tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus) é uma praga que vem causando sérios prejuízos às lavouras de soja. Tanto adultos como larvas podem danificar as plantas, no entanto, são as larvas que provocam os maiores prejuízos. Altas infecções, no início do desenvolvimento da cultura, podem provocar perda total.

A fêmea, ao se alimentar, faz um anelamento na haste, onde também deposita os ovos, que são protegidos por fibras do tecido cortado. Ao eclodir, a larva penetra na haste, da qual se alimenta e onde se desenvolve durante, aproximadamente, um mês. Nesse ponto da haste, forma-se uma galha e, muitas vezes, a planta é estimulada a emitir raízes adventícias no local do dano.

Uma vez atingido seu tamanho máximo, a larva desce ao solo, constrói uma câmara de hibernação e não mais se alimenta. Em outubro/novembro, transforma-se em pupa e, cerca de três semanas após, passa à fase adulta, emergindo do solo. O ciclo biológico da espécie é anual, perfeitamente sincronizado à soja e adaptado aos sistemas de cultivo mínimo e plantio direto.

O nível de dano da praga depende das fases de desenvolvimento da cultura. Resultados de pesquisa demonstraram que a partir de um adulto/m de fileira, até a fase em que as plantas apresentam seis folíolos, e dois adultos/m de fileira, depois desta fase, ocorre redução no rendimento da soja.

Considerando-se a biologia e os hábitos do inseto, dispomos de vários fatores que podem contribuir para a redução dos seus níveis populacionais. Entre estes destacam-se:

— rotação de culturas com plantas não-hospedeiras (p. ex. milho, sorgo);

— o plantio antecipado da soja (durante o período recomendado), possibilitando que a planta, mais embulida nas fases de pico da praga (dezembro/janeiro), suporte melhor o ataque;

— a lavração do solo no período outubro/novembro, procurando atingir larvas hibernantes e pupas, deslocando-as e expondo-as a condições adversas (por exemplo, sol e inimigos naturais).

Os primeiros adultos do tamanduá-da-soja são detectados na primeira quinzena de novembro, detectando-se picos populacionais em dezembro e janeiro. As larvas alimentam-se das plantas nos meses de janeiro, fevereiro e março, descem ao solo nos meses de fevereiro e abril e entram em hibernação até o final de outubro e início de novembro, quando passam à fase de pupa.

Controle com inseticidas

Não se recomenda o controle químico do tamanduá-da-soja, pois o uso de inseticidas não tem se mostrado eficiente para controle das larvas, e ao mesmo tempo parece ser o verdadeiro inimigo natural da praga (especialmente os fungos do solo). Os adultos, embora possam ser atingidos por inseticidas, têm a eficiência dos produtos diminuída pelo hábito de permanecerem a maior parte do tempo protegidos pela folhagem nas plantas, e além disso, a emergência ocorre por um longo período (cerca de um mês).”

Irineu Lorini — CNPT-EMBRAPA, Passo Fundo