Workshop Internacional reuniu pesquisadores do Brasil e Canadá em Passo Fundo


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Publicado em: 01/10/1990

Durante três dias, de 18 a 21 de novembro, cerca de 60 pesquisadores brasileiros e canadenses estiveram reunidos no Centro Nacional de Pesquisa de Trigo — CNPT, em Passo Fundo, para debater as perspectivas do Projeto Brasil-Canadá de Plantio Direto, já no seu quinto ano.

Durante a realização do evento, diversos trabalhos relacionados à conservação do solo através do manejo conservacionista foram apresentados e debatidos por engenheiros agrônomos e pesquisadores de várias entidades brasileiras (EMBRAPA, IAPAR, FUNDAÇÃO ABC, UFRGS), canadenses (Agriculture Canada, University of Guelph), dos Estados Unidos (University of Georgia) e da Austrália (Sydney New South Wales).

No primeiro dia foram apresentadas sínteses do desenvolvimento do projeto. A parte brasileira foi apresentada por Rainoldo Kochhann, da Embrapa de Passo Fundo, que no mesmo dia voltou a falar, dando um panorama do atual estágio do plantio direto no Brasil. A perspectiva canadense foi apresentada pelo pesquisador A. O’Sullivan (Agriculture Canada, Swift Current, Canadá). Também foi apresentada uma síntese do desenvolvimento e perspectivas atuais do plantio direto nos Campos Gerais do Paraná, região de Ponta Grossa, que é provavelmente a maior concentração dessa prática conservacionista em todo o mundo. O trabalho foi de Hans Peeten da Fundação ABC, de Castro-PR, que é o órgão de pesquisa e assistência técnica das Cooperativas holandesas Arará, Batavo e Castrolanda.

No decorrer do Workshop foram debatidos praticamente todos os temas relacionados com o plantio direto: rotação de culturas e manejo de ervas daninhas, influências do sistema na incidência de doenças e outros temas igualmente importantes.

F. Ben Dyck

“O Canadá está obtendo grandes aproveitamentos na área tecnológica do plantio direto, através do projeto Brasil-Canada Tillage Project.” A afirmação é do cientista e pesquisador canadense F. Ben Dyck, de Swift Current, Canadá, um dos coordenadores da parte canadense do projeto e que esteve em Passo Fundo para o Workshop.

“O problema da erosão em nosso país não é tão grave como aqui”, afirma ele, “pois, devido às condições climáticas, nós podemos plantar apenas uma safra por ano, enquanto que o regime pluviométrico é menor, com um baixo índice de erosão hídrica. Nosso problema maior é a erosão eólica, embora não atinja índices mais significativos como aqui.”

Segundo Ben Dyck, o principal objetivo do plantio direto no Canadá é a melhoria do solo, nas suas estruturas químicas e físicas. Tal como no Brasil, um dos entraves mais importantes para a adoção de um manejo conservacionista é o custo do controle de ervas. “Além disso”, afirma o pesquisador canadense, “em nosso país existem restrições severas ao uso de produtos químicos e isso é outro fator de inibição.”

Na sua opinião, o Brasil leva vantagens pois, apesar do problema da erosão ser mais dramático, é possível manter o solo sempre coberto, favorecendo o controle de ervas através do uso de culturas como a aveia e a ervilhaca. “Embora a curto prazo hajam dificuldades para um desenvolvimento da adoção do sistema plantio direto por um número maior de agricultores em todo o mundo, é inegável que existe cada vez mais uma conscientização a respeito da sua urgente necessidade.” Conclui Ben Dyck.

Hans Peeten

O fato de perder-se 10 a 20 toneladas de solo por cada tonelada de grão produzido deu início, na década de 70, a um processo de busca de sistemas alternativos nos Campos Gerais do Paraná.

Rotação de culturas

No sistema Plantio Direto de produção, a rotação de culturas é extremamente importante. A rotação de culturas leguminosa de inverno/milho/aveia/soja/trigo/soja repõe mais de 6 toneladas de resíduos ao solo anualmente, o que é consideravelmente maior do que a rotação tradicional trigo/soja pode produzir. A melhoria do solo e a conservação da água nos Campos Gerais está diretamente relacionada com o total de resíduos culturais repostos ao solo e, por isso, é o mais importante passo a ser considerado antes de começar a introdução do sistema.

Cobertura do solo

A introdução de culturas de coberturas do solo como uma das necessidades básicas das práticas conservacionistas demonstrou ser fortemente dependente das possibilidades para produzir sementes na região. Para ela, existem algumas opções para coberturas de inverno, como tremoço, ervilhaca, serradela, aveia, centeio e azevém. Rapidamente, muitos agricultores iniciaram a introdução de aveia, graças às suas excelentes características no controle do mal do pé na cultura do trigo. Em comparação com leguminosas, a aveia permite uma opção barata, de baixo risco, enquanto sua capacidade supressora de ervas permite, geralmente, um custo menor com herbicidas. O manejo mecânico da cobertura com rolo-faca ou segadeira, substituindo o uso de herbicidas, demonstrou ser uma técnica de fácil introdução, embora ainda necessite de mais estudos em relação à sua eficiência.

Mecanização

A opção de duas culturas anuais na agricultura brasileira, mais as extremas variações climáticas, a inexperiência, os baixos rendimentos e o trabalho desmotivado, necessitam um alto grau de mecanização em fazendas com pouca diversificação de culturas. O sistema Plantio Direto poupa tempo e torna possível ao agricultor plantar no período recomendado, sob as melhores condições. Os equipamentos de plantio desenvolveram-se bastante e quase todas as indústrias estão com suas próprias versões no mercado. Para aproveitar máquinas de semeadura convencional, os agricultores fazem adaptações econômicas, com kits especiais para plantio direto. Os pulverizadores precisaram ser equipados com marcadores mecânicos especiais. A compactação do solo não tem sido observada como um fator limitante da produção sob plantio direto; contudo, instrumentos apropriados precisam ser testados para correção da compactação antes de iniciar o sistema.

Fertilidade do solo

O mais importante questionamento em plantio direto refere-se à calagem. Longos e insuficientes estudos têm sido realizados para orientar o agricultor. Provavelmente a principal razão para alternar sistemas de plantio é devida à falta de confiança no uso da calagem não incorporada, bem como da incorporação incorreta antes de iniciar o sistema. As práticas de adubação com fósforo e potássio não têm mudado com os anos em relação ao sistema convencional, embora um aumento na disponibilidade de fósforo possa ser observado nas áreas mais antigas de plantio direto. O balanço de nitrogênio nos diferentes sistemas de produção precisa de atenção permanente, com especial referência à quantidade aplicada e ao método usado. A autocapacidade do solo para a produção de N, em diferentes rotações, precisa ser melhor quantificada em estudos de longo prazo, quando a matéria orgânica do solo aumenta com o decorrer do tempo.

F. Ben Dyck (Agriculture Canada) e Hans Peeten (Fundação ABC)