15 anos de plantio direto no Paraná


Autores:
Publicado em: 01/10/1990

O fato de perder-se 10 a 20 ton. de solo por cada ton. de grãos produzidos, iniciou na década de 70 um processo de conscientização entre os líderes dos produtores de soja de que a redução da erosão poderia aumentar a produtividade agrícola.

A adoção do Plantio Direto, um processo de longo prazo, aumentou a produção agrícola e reduziu as perdas de água e solo para níveis aceitáveis nos Campos Gerais do Paraná. Durante os últimos 15 anos, agricultores das Cooperativas Arapoti, Batavo e Castrolanda, gradualmente, trocaram a queima da palha e o manejo convencional para o sistema Plantio Direto em 75% de sua área produtiva de 150.000 ha. As principais culturas são soja, milho e trigo.

ROTAÇÃO

No sistema Plantio Direto de produção, a rotação de culturas é extremamente importante, da mesma forma como não deve ser substituído no sistema convencional de aração. Com a introdução do milho depois de uma rotação contínua trigo-soja, os níveis de produção de soja aumentaram 25% e o controle de ervas tornou-se mais fácil.

A rotação de culturas leguminosa de inverno/milho/aveia/soja/trigo/soja repõem mais de 6 ton. de resíduos ao solo anualmente, o que é consideravelmente maior do que a rotação tradicional trigo/soja pode produzir. A melhoria do solo e a conservação da água nos Campos Gerais está diretamente relacionada com o total de resíduos culturais repostos ao solo e, por isso, o mais importante passo a ser considerado antes de começar a introdução do sistema.

COBERTURA DO SOLO

A introdução de culturas de coberturas do solo como uma das necessidades básicas das práticas conservacionistas, demonstrou ser fortemente dependente das possibilidades para produzir sementes na região. Para ela, existem algumas opções para coberturas de inverno, como tremoço, ervilhaca, serradela, aveia, centeio e azevém.

Rapidamente, muitos agricultores iniciaram a introdução de aveia, graças às suas excelentes características no controle do mal do pé, na cultura do trigo.

Em comparação com leguminosas, a aveia permite uma opção barata, de baixo risco, enquanto sua capacidade de supressora de ervas permite, geralmente, um custo menor com herbicidas.

O manejo mecânico da cobertura com rolo-faca ou segadeira, substituindo parcialmente o uso de herbicidas, demonstrou ser uma técnica de fácil introdução, embora ainda necessite de mais estudos em relação à sua eficiência.

MECANIZAÇÃO

A opção de duas culturas anuais na agricultura brasileira, mais as extremas variações climáticas, a inexperiência, os baixos rendimentos e o trabalho desmotivado, necessitam um alto grau de mecanização em fazendas com pouca diversificação de culturas.

O sistema Plantio Direto poupa tempo e torna possível ao agricultor plantar no período recomendado, sob as melhores condições de umidade do solo.

Os equipamentos de plantio desenvolveram-se bastante e quase todas as indústrias estão com suas próprias versões no mercado. Para aproveitar máquinas de semeadura convencional, os agricultores fazem adaptações econômicas, com kits especiais para plantio direto.

Os pulverizadores precisaram ser equipados com marcadores mecânicos especiais, que orientam os agricultores na hora da colheita. O manejo mecânico da cultura de cobertura do solo precisa de muita atenção para melhor quantificar seus efeitos agronômicos.

A compactação do solo não tem sido observada como um fator limitante da produção sob plantio direto. Contudo, instrumentos apropriados precisam ser testados para correção da compactação do solo antes de iniciar o sistema plantio direto.

FERTILIDADE DO SOLO

O mais importante questionamento em plantio direto refere-se a calagem. Longos e insuficientes estudos têm sido realizados para orientar o agricultor. Provavelmente, a principal razão para alternar sistemas de plantio é devido à falta de confiança no uso da calagem não incorporada, bem como da incorporação incorreta antes de iniciar o sistema.

As práticas de adubação com fósforo e potássio não tem mudado com os anos em relação ao sistema convencional, embora um aumento na disponibilidade de fósforo possa ser observada nas áreas mais antigas de plantio direto.

O balanço de nitrogênio nos diferentes sistemas de produção precisa de atenção permanente, com especial referência à quantidade aplicada e ao método usado. A auto capacidade do solo para a produção de N, em diferentes rotações, precisa ser melhor quantificada, em estudos de longo prazo, quando a matéria orgânica do solo aumenta com o decorrer do tempo.

O investimento em fertilizantes em relação ao custo total da lavoura é muito alto e varia de 25 a 50%. A falta total de uma administração da fertilidade do solo a nível de agricultor faz das recomendações uma tremenda adivinhação e induz os agricultores a padronizar suas aplicações de fertilizantes com os anos, perdendo a flexibilidade para ajustar-se em relação à realidade dos custos de produção e riscos climáticos.

CONTROLE DE ERVAS

Dessecação incompleta na época de plantio é um dos erros mais comuns em áreas de plantio direto, basicamente devido a sub-dosagens e equívocos de aplicação bem como manejos muito próximos dos plantio.

Os graminicidas pós-emergentes para soja, no momento, dão ao agricultor a mais efetiva opção para o controle de ervas de folha estreita, o mesmo não acontecendo no controle das ervas de folhas largas. No momento, a mistura de herbicidas para folhas largas é a solução mais econômica, seguida da rotação de culturas e do monitoramento da propriedade mais a capina manual.

A pulverização direcionada nas entrelinhas de milho têm sido adotada rapidamente pelos agricultores como um sistema para complementar o funcionamento dos herbicidas para a cultura do milho, aplicados no plantio e altamente dependentes das condições climáticas.

O controle de ervas em plantio direto permite a redução de até 50% dos recursos gastos com herbicidas, se as culturas de cobertura forem usadas em rotação de culturas que produzam mais de 4 ton. de palha/ha.

MANEJO DE PRAGAS E DOENÇAS

Uma tremenda quantidade de desastres têm sido previstas por entomologistas e fitopatologistas desde que os agricultores iniciaram a adoção do plantio direto no mundo. Surpreendentemente, poucos desastres foram limitados exclusivamente às áreas de plantio direto. Risco é algo a ser considerado com frequência em agricultura e através do tempo nos somos forçados a um melhor balanço deles, porém, a erosão é um desastre e não um risco.

Manejo de pragas e doenças em sistemas de plantio conservacionista apresentam mais perguntas do que respostas; no momento, não precisamos considerá-los como obstáculos intransponíveis, o que também não elimina a preocupação que os agricultores devem ter com eles.

ECONOMICIDADE

É extremamente difícil comparar os benefícios do plantio direto baseando-se somente em resultados de um campo experimental, em função das limitações do seu resultado. Também não é fácil comparar agricultores com diferentes sistemas de plantio.

Da prática na região, podemos observar diversos comentários de agricultores referindo-se à economicidade como responsável pela adoção do sistema plantio direto. Sem ele, um grande número de agricultores teriam sido forçados pela erosão a parar suas atividades. Hoje, eles até podem plantar em solos considerados marginais.

A produção por hectare cresceu drasticamente para todas as culturas produzidas e é mais estável hoje do que antes. O investimento em maquinária por hectare reduziu, o que é um atrativo para jovens agricultores porque as operações podem ser realizadas em tempo hábil.

O custo total por hectare é menor, embora o custo do controle de ervas possa ser maior. É possível agilizar as operações com menor custo, desde que haja pessoal qualificado. Sobra mais tempo para um gerenciamento real e a maioria dos agricultores estão mais felizes agora, sem erosão.

TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA

Algumas considerações sobre o sucesso da transferência de tecnologia do plantio direto nos Campos Gerais:

1. Se existem agricultores líderes na região preocupados com o controle da erosão, o melhor a fazer é concentrar a introdução de tecnologia em suas fazendas. Os demais agricultores os seguirão tão logo o resultado apareça.
2. Avaliar a necessidade de informações e estabelecer contato para utilizá-las. Excursões para outras regiões e mesmo para outros países têm demonstrado ser um excelente começo.
3. Estabelecer objetivos, definir prioridades.
4. Fazer campos demonstrativos organizados com a participação dos agricultores.
5. Estabelecer uma fonte de dados e sistematizá-los em sítios.
6. Organizar encontros de agricultores para avaliações.
7. Organizar dias de campo para demonstração de máquinas, não esquecendo de demonstrar as adaptações domésticas.
8. Organizar treinamentos para extensionistas, agricultores e estudantes.
9. Estabelecer comparativos de custos entre os diferentes sistemas de plantio.
10. Publicar relatórios.

N.R. Síntese da apresentação feita em Passo Fundo por ocasião do Workshop Internacional sobre plantio direto e que reuniu especialistas do Brasil e do Canadá.

Hans Peeten — Pesquisador da Fundação ABC, Carambei, Paraná