Gestão agrícola: o passado e o presente


Autores:
Publicado em: 01/10/1990

O que e quando plantar é o cotidiano nas decisões dos agricultores no mundo capitalista. A teoria da firma foi utilizada durante as décadas de 1950 e 60, para auxiliar na compreensão desses tipos de questões. Nós lembramos que ela não foi formalizada para a tomada de decisão. Mas, para o entendimento sobre o equilíbrio entre oferta e demanda. Logo, ela é insuficiente para analisar o processo de gestão agrícola.

Ainda naquele período, foi introduzida a contabilidade rural. Ela teve algumas dificuldades para sua implementação: considerava os coeficientes econômicos sem os coeficientes técnicos, era desenvolvida em escritórios urbanos, normalmente longe das necessidades dos agricultores e, por último, não tinha a dinâmica imprescindível para acompanhar a realidade dos produtores. Dessa forma ela reduziu-se a auxiliar nos documentos fiscais ou de créditos. Isso ocorreu também em todos os países desenvolvidos.

Nos fins da década de 1960, na França e nos EE.UU., foi introduzida a programação linear. Seu objetivo era maximizar uma função matemática sujeita a uma série de restrições (mão-de-obra, terra, máquinas, etc.). Mas em função do elevado número de cálculos necessários à sua operacionalização, também não conseguiu ser um instrumento de ajuda à decisão. E, destaca-se, que ela foi desenvolvida durante a Segunda Guerra com objetivo de identificar os locais estratégicos para estocagem de armas e munições. Logo, não tinha como objetivo principal analisar o processo de decisão.

Na década de 1970 prevaleceu a corrente acro-econômica que efetuava fortes críticas à utilização de modelos simplificados para interpretar o desenvolvimento da agricultura. As críticas fundamentais situava-se em variáveis que os modelos redutores não consideravam ou que eram da difícil identificação. Dessa forma os técnicos “cartesianos” que decumpunham o todo para compreender as “partes” não “conseguiram” ter uma visão abrangente do todo. Um exemplo passivo são as análises dos custos de produção de uma cultura. Ele somente serve para os empréstimos bancários (VBC’s) ou preços mínimos (?) mas não para compreender a introdução tecnológica ao nível de produtor.

Em fins da década de 1970, Michel Petit, na França tenta conjugar a teoria da firma, com a “teoria do comportamento Adaptativo dos Agricultores”. Ela considerava como pressuposto fundamental a racionalidade limitada dos agricultores. E, que os agricultores tem seu projeto global sujeito às restrições da situação. Ela pode ser resumida como: “os agricultores tem razões de fazerem o que fazem”. A crítica fundamental a essa teoria é de não ser refutável (ao senso de Popper), logo não científica. Também nessa década a teoria de risco e incerteza é incorporada com instrumento de análise sobre a tomada de decisão pelos agricultores.

Na década de 1980, com a introdução do micro-computador, retornam os modelos microeconômicos, tanto nos EE.UU., como no Canadá e França. No Brasil, nós observamos a utilização do PRO-FAZENDA durante 1983 e 1986.

Na França os pesquisadores utilizam o enfoque sistêmico para a análise das propriedades. Como instrumento de trabalho na compreensão são utilizados: o fluxo de caixa, a margem bruta, a Programação Linear e o DIGREX (diagnóstico geral de exploração agrícola). Também são elaborados as tipologias dos agricultores que objetivam reunir em grupos os agricultores que são semelhantes e separar os diferentes. Com essa técnica eles conseguem compreender melhor a diversificação entre os agricultores.

Como exemplo prático dessa discussão histórica podemos pegar o debate entre plantio direto ou convencional. Não podemos concluir numa análise custo/receita sobre as vantagens de um sistema sobre outro. Essa análise simplista e redutora pode levar o agricultor a continuar no sistema convencional indefinidamente. Ora, numa análise de longo prazo. Tem-se que observar os efeitos indiretos do plantio direto como proteção do solo, redução do uso de mão-de-obra, de máquinas e de equipamentos, de consumo de combustível, ampliação dos períodos de plantio e aumento de produtividade.

Essa análise sistêmica, considerando todo o processo de produção entre um sistema e o outro, deve ser o fator de maior ponderação. Nesse sentido os modelos de margem bruta ou de programação linear são insuficientes para responder ao agricultor todas as variáveis que envolvem o processo de decisão.

Para concluir, nós observamos que o desenvolvimento de trabalhos na área de administração rural é retardatário em relação às áreas biológicas. E, da necessidade de desenvolvimento teórico que nos auxilie na compreensão do processo de decisão ao nível dos agricultores. Mas, que a utilização de métodos como a programação linear, os fluxos de caixa, de monografias ao nível de produtor dentro do enfoque sistêmico nos permitirá evoluir. A formalização de modelos (certamente restritivos) que considerem as questões técnicas e econômicas tornam-se fundamentais.

Derli Dossa — Pesquisador elaborando tese de doutoramento em economia rural na Universidade de Bourgogne, Dijon, França