Cancro da Haste: avaliação de cultivares de soja na Castrolanda


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Publicado em: 01/10/1990

Anualmente novas cultivares de soja passam a ser recomendadas para plantio na região dos Campos Gerais do Paraná. Selecionadas por entidades de pesquisas oficiais e privadas, passam por grande número de avaliações antes de serem recomendadas. No entanto, os critérios para recomendação são baseados em médias obtidas em diversos locais, e sabe-se que a maioria das cultivares de soja é altamente sensível ao fotoperíodo, comportando-se diferentemente em função de época de plantio e latitude. Em função do exposto, torna-se importante identificar aquelas cultivares mais produtivas e adaptadas às nossas condições de local, solo, clima e tecnologia.

Dados gerais

Datas de plantio: 1ª em 17-10; 2ª em 07-11; 3ª em 24-11 e 4ª em 14-12. Cultura anterior: aveia preta comum. Sistema de plantio: direção. Manejo: sequencial segadeira/2,0 l/ha Gramocil + Agral 0,1%. Adubação: 300 kg/ha NPK 0-20-20 (lanço). Controle de ervas: F. E. — 1,25 l/ha Poast + 1,5 l/ha Assist — F. L. capinas. Controle de pragas: 1,5 l/ha Thiodan.

O ensaio instalado no Campo Demonstrativo e Experimental Castrolanda constava de vinte cultivares de soja plantados em 4 épocas e em 4 repetições cada. As cultivares, que constavam de materiais usualmente plantados na região e materiais novos para introdução, eram os seguintes: FT-Cometa, FT-9-Inaê, FT-Manacá, Pérola (precoces); Bragg, BR-13, BR-15, OCH, Iguaçu, OC-8, Davis (semi-precoces); Bossier, BR-14, BR-29, BR-30, FT-2, FT-10, FT-Abyara, OC-2-Iapó (médios); FT-4, FT-5 (semi-tardios).

A semeadura foi realizada manualmente no sulco de plantio direto pela plantadeira, colocando-se o dobro da quantidade de sementes necessárias para cada cultivar e época. A emergência em todas as épocas ocorreu satisfatoriamente. Uma a duas semanas após a emergência foi realizado o desbaste, deixando-se a quantidade de plantas considerada ideal para cada cultivar e época. O desenvolvimento inicial na fase vegetativa foi bom em todas as épocas de plantio.

Dezembro e janeiro ficaram caracterizados por uma precipitação muito elevada e durante período prolongado, o qual iniciou em 26 de dezembro prolongando-se ininterruptamente por um mês até 26 de janeiro. Nos dois meses a precipitação foi de 665,5 mm de chuva, quando a média histórica em Castrolanda é de 385 mm. Durante esse período chuvoso, algumas cultivares na primeira época de plantio já se encontravam em floração, enquanto que a última época de plantio encontrava-se ainda em fase inicial de desenvolvimento. O clima úmido e chuvoso certamente foi o fator que favoreceu o aparecimento de uma doença comumente chamada de Cancro da Haste (Diaporthe phaseolorum f. sp. meridionalis), a qual em anos anteriores já ocorria de forma esporádica em lavouras da região, porém sem causar perdas de produtividade significativas.

A partir de então, os sintomas da doença evoluíram cada vez mais, acentuando naquelas cultivares mais suscíveis e com o atraso do plantio, passando a ser o fator decisivo a determinar o rendimento das cultivares. A fim de quantificar o ataque do Cancro da Haste por cultivar, quando as plantas se encontravam em início de amarelecimento (R7.1), determinou-se a percentagem de plantas mortas prematuramente. Em alguns casos foi necessário colher as parcelas antecipadamente, visto que 100% das plantas estavam mortas prematuramente.

Resultados e discussão

Quanto à incidência de Cancro da Haste, a 1ª época de plantio (17-10) foi a menos afetada, com uma incidência média de 18% de plantas mortas prematuramente em R7.1. A produtividade média, embora ainda razoável, ficou prejudicada pela doença, ficando em 2.528 kg/ha, abaixo do esperado para a época. As cultivares mais afetadas foram FT-4, FT-Manacá, OC-8 e Bossier, com 41, 33, 31 e 29% de plantas mortas, respectivamente. Dentre as cultivares menos afetadas, destacaram-se em produtividade FT-Inaê, BR-16, BR-14, FT-10, FT-Cometa e Abyara.

Em relação à 1ª, a 2ª época de plantio teve aumentada a incidência de Cancro da Haste, ficando na média com 29% de plantas mortas prematuramente em R7.1. A produtividade média também caiu bastante, ficando em 2.180 kg/ha. Especialmente afetadas ficaram as cultivares Bossier, OC-8, FT-4, BR-13, Bragg e FT-Manacá, sendo que a primeira produziu apenas 30% em relação à média. Um grupo de cultivares menos afetadas pelo Cancro da Haste, composto por FT-Abyara, FT-5, BR-16, FT-Cometa, FT-Inaê, FT-10 e BR-30, também se destacou em produtividade, especialmente FT-Abyara com média de 3.441 kg/ha.

A 3ª época de plantio, realizada em 24-11, foi a mais afetada pelo Cancro da Haste, com média de 69% de plantas prematuramente mortas em R7.1 e, em consequência, a produtividade média ficou em apenas 1.555 kg/ha. Um grupo bem maior de cultivares foi drasticamente afetado pela doença, sendo que em algumas até 100% das plantas estavam prematuramente mortas, exigindo que se fizesse uma colheita antecipada. Mesmo as cultivares que se mostraram menos afetadas nas duas primeiras épocas, nesta foram severamente afetadas, exceção feita à cultivar FT-Cometa, a qual, embora mostrasse sintomas da doença, não tinha plantas prematuramente mortas em R7.1.

Comparativamente à anterior, a 4ª época de plantio (14-12) foi menos afetada pelo Cancro da Haste, ficando em média com 47% de plantas prematuramente mortas em R7.1. A produtividade, ainda que superior à 3ª época, foi bastante baixa, ou seja, 1.754 kg/ha, prejudicada pelo alto ataque do Cancro da Haste e pela época de plantio muito tardia. A cultivar FT-Cometa foi mais uma vez a menos afetada pela doença, com produtividade até mesmo levemente superior às demais épocas, contrariando o esperado.

A produtividade média do ensaio foi de 2.005 kg/ha, cerca de 31% inferior à média dos ensaios realizados nos 2 anos anteriores, o que pode ser atribuído basicamente à doença Cancro da Haste.

Baseado nos dados de percentagem de ataques de Cancro da Haste, podemos subdividir as cultivares em quatro grupos distintos quanto à suscetibilidade à doença. No 1º grupo, em que praticamente não houve prejuízo em produtividade, ficaria apenas a cultivar FT-Cometa, que embora não sendo imune mostrou alta resistência ao Cancro. No 2º grupo estão aquelas cultivares que mesmo apresentando uma boa resistência à doença sofreram algum prejuízo em produtividade, principalmente quando a pressão da doença era maior: FT-Inaê, FT-10, FT-5, BR-30, FT-Abyara, BR-16, BR-14. O terceiro grupo é formado pelas cultivares Davis, Pérola, FT-2, Iapó e Iguaçu, que apresentaram resistência moderada. O quarto grupo é formado por aquelas cultivares altamente suscíveis, drasticamente afetadas em produtividade em todas as épocas: BR-13, BR-29, Bragg, FT-Manacá, OC-8, FT-4 e Bossier.

Conclusão

A doença Cancro da Haste, pela primeira vez ocorrendo de forma epidêmica na região, mostrou-se altamente prejudicial à cultura da soja, sendo o fator preponderante na definição da produtividade de cada cultivar. A intensidade de ataque da doença variou conforme a época de plantio, sendo que naquelas mais tardias a incidência foi maior, o que está diretamente ligado às condições climáticas ocorridas durante o ciclo. A quarta época de plantio confirma-se como marginal, uma vez que, em função de redução de ciclo por fotoperíodo e temperatura, provoca baixa estatura nas plantas e diminuição de potencial.

Sendo uma doença com grande capacidade de causar danos, considerando as condições de inóculo e clima que poderão favorecer o ataque da mesma, a escolha correta de cultivares é uma das medidas fundamentais. A nossa recomendação de cultivares já passa a ser baseada na suscetibilidade ao Cancro da Haste em conjunto com outras características e informações. FT-Cometa mostrou ser a mais resistente, comportando-se bem em todas as épocas de plantio. Esta cultivar necessita de um stand mínimo de 400 mil plantas por hectare a fim de mostrar o seu potencial. O plantio de cultivares do quarto grupo, mesmo quando todas as outras medidas de segurança são tomadas, implica em alto risco.

Peter Greidanus — Engenheiro Agrônomo, DAT Agrícola, Castrolanda