Cerca de 150 pessoas, pesquisadores, engenheiros agrônomos e produtores participaram das “Primeiras Jornadas Binacionales de Cero Labranza”, que se realizou no local denominado Fundo Chequén, Município de Florida, VIII Región, Chile, de 29 a 31 de outubro de 1990. Estiveram presentes representantes de instituições de pesquisa de praticamente todo o continente, principalmente do Cone Sul.
Assim como os demais países da América Latina, o Chile já perdeu uma parcela considerável de seu solo agrícola e florestal, algo em torno de 2 milhões de hectares, o que significa uma perda de sua capacidade de produção equivalente a 180 milhões de dólares anuais. Além disso, o país segue perdendo terra fértil a razão de 6 a 7 mil hectares por ano, além de perder 8 milhões de dólares em nitrogênio e fósforo. O encontro de alto nível tecnológico acontecido em Chequén serviu para uma análise concreta dessa situação e dos demais países do Cone Sul, bem como as perspectivas que o Plantio Direto apresenta como principal solução disponível.
As conferências foram abertas pelos drs. Grant W. Thomas, da Universidade de Kentucky, e Patrick Wall, do CIMMYT, atualmente trabalhando no Paraguai. Na abertura oficial, falaram o Subsecretário de Agricultura do Chile, engenheiro agrônomo Maximiliano Cox, e o presidente da Sociedade de Conservação de Solos do Chile, sr. Carlos Crovetto.
Além de pesquisadores e produtores da Argentina, Paraguai, Uruguai, estiveram presentes representantes de vários órgãos e associações de produtores brasileiros, como a Embrapa de Passo Fundo e Londrina, Fundação ABC de Castro-Paraná, Clube Amigos da Terra de Passo Fundo e Cruz Alta, e da Fundacep-Fecotrigo, que trouxeram um intercâmbio altamente proveitoso sobre a tecnologia e perspectivas do plantio direto no Brasil e na América Latina.
No último dia do encontro, antes do encerramento efetuado pelo dr. Victor Hugo Trucco, presidente da Associação Argentina de Produtores de Siembra Directa, foi efetivada uma mesa redonda em que foram debatidas as conclusões das primeiras jornadas binacionais. Entre as principais, destaca-se a necessidade da criação de uma Associação Latino Americana de Plantio Direto.
Carta de Chequén
CHEQUÉN, FLORIDA, CHILE — 31 de outubro de 1990
Como resultado das “Primeiras Jornadas Binacionales de Cero Labranza”, que possibilitou o encontro de produtores e técnicos, não só dos dois países organizadores, mas também do Brasil, Uruguai, Paraguai, e vendo a conveniência de formalizar um intercâmbio permanente, as instituições e pessoas abaixo assinadas viram a necessidade de fundar a Associação Latino Americana de Produtores de Plantio Direto, que terá os seguintes objetivos:
1 — Institucionalizar o intercâmbio entre produtores, técnicos, pesquisadores e empresas.
2 — Difundir o uso do plantio direto (ou lavração zero) para obter altas produtividades, susténtaveis com o decorrer do tempo, ao mesmo tempo em que se conserva o solo.
3 — Promover a investigação científica em plantio direto.
4 — Capacitar produtores e técnicos num nível internacional adequado a estas circunstâncias.
5 — Difundir as possibilidades do sistema plantio direto entre funcionários governamentais, a fim de promover um marco legal adequado à conservação dos solos.
Assinam as seguintes pessoas e instituições: Carlos Crovetto Lamarca — Presidente da SOCOSCHI, Chile; Victor Hugo Trucco — Presidente da AAPRESID, Argentina; Luiz Graeff Teixeira — Presidente do CAT PF-RS, Brasil; Cláudio Macagnam — Presidente do CAT CA-RS, Brasil; Maury Sade — Coordenador Fundação ABC, Brasil; Rainoldo Kochhann — CNPT-EMBRAPA PF-RS, Brasil; José Ruedell — FUNDACEP-FECOTRIGO, Brasil; Dionísio Luiz Gazziero — CNPS-EMBRAPA LDA-PR, Brasil; Patrick Wall — Pesquisador do CIMMYT, Paraguai.
Perspectivas do Plantio Direto na Argentina
Indiscutivelmente a Argentina é um país agropecuário. Grãos e carnes cimentaram sua riqueza no passado, o que a levou a ocupar os primeiros lugares no concerto das nações. A produção aumentou incrementando a área cultivada até os anos 30. Logo chegou a etapa da produtividade e com ela as lavrações e os fracassos. Os rendimentos por hectare não aumentaram e os solos se deterioraram.
É mundialmente famosa a aptidão de nossas terras para a agricultura e a criação de gado. Sem dúvida, hoje vemos o produtor argentino lutar com dificuldades para melhorar sua produção sem êxito, deixando, isto sim, uma vítima, que é o solo. Na grande extensão da Pampa, a perda de estrutura dos solos é generalizada, com seus problemas de compactação, de infiltração da água, o que conduz a uma maior necessidade de chuvas frequentes e movimentos do solo para arejar, o que conduz a um círculo vicioso que leva à perda de produção, de solo e de dinheiro.
É nesse cenário de solos deteriorados, com perdas maiores ainda em zonas com erosão hídrica e eólica, e economias gastas por causas externas ao setor, que aparece a semeadura direta com uma esperança de resolver a equação perversa da deterioração do solo e da empresa. Um grupo de produtores compreendeu que para cultivar o solo não era preciso arar nem aplicar nenhum outro pacote de lavração; era necessário somente semear, controlando as ervas daninhas e a fertilidade por outros métodos.
Nessa busca dos caminhos apropriados para que esta técnica mostrasse seu potencial, conhecemos Carlos Crovetto, presidente da Sociedade de Conservação de Solos do Chile, quem com sua experiência, paixão e virtude para doar-se generosamente, deu um impulso final para que organizássemos a AAPRESID (Asociación Argentina de Productores en Siembra Directa). A partir daí, começamos a percorrer um caminho de experiência, difusão e intercâmbio, que conduziu a um processo de forte expansão na área plantada com semeadura direta na Argentina.
Dr. Victor Hugo Trucco — Presidente da AAPRESID, Argentina