Produção de milho em rotação e plantio direto no Chile


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Publicado em: 30/06/1991

O Plantio Direto é uma nova prática agronômica de manejo de solos, que permite semear sem arar, rastrear ou remover o solo, efetuando-se a semeadura sobre a resteva precedente. Desenvolveu-se esta técnica considerando-se que é capaz de evitar a erosão hídrica, sem usar as sofisticadas práticas conservacionistas como terraços, cultivos em faixas, etc. A erosão hídrica é um problema grave na grande maioria dos solos da Cordilheira dos Andes, no Chile (alfisoles — Cordilheira da Costa) e dos inceptisoles da pré-cordilheira andina.

O Plantio Direto permitiu recuperar o nível produtivo dos solos além do esperado, elevar seus níveis de matéria orgânica e aumentar os de fósforo e potássio disponíveis para as plantas.

O manejo da resteva sobre a superfície do solo, próprios da rotação, tem sido uma prática permanente, não sendo o solo removido por implemento algum. Fruto deste manejo conservacionista foi possível observar o desenvolvimento de um novo solo orgânico, no qual se incrementa 1 mm por ano. Paralelo a este incremento, notou-se um notável aumento da atividade fosfatásica, fungos e bactérias solubilizadoras de fosfato, população de micorrizas vesículo-arbusculares e minhocas. Além disso, o aumento de matéria orgânica melhorou a densidade aparente do solo, retenção de humidade e capacidade de troca de bases do solo.

Introdução

O plantio direto iniciou-se em 1978 com a cultura do milho, no sítio Fundo Chequén, situado a 30 km de Chequén, a leste de Concepción, Chile. Ali, anteriormente, os solos estiveram ocupados com pastagens artificiais. No século passado e até 1960, essas áreas foram semeadas basicamente com trigo.

Esse sistema de manejo provocou sérios prejuízos por erosão hídrica, manifestada na área por uma perda aproximada de 1 m de solo, o que destruiu o horizonte A e comprometeu seriamente o horizonte B. As fortes precipitações do inverno, coincidindo com um solo praticamente desnudo e cultivado em fortes pendentes, geraram este agudo processo erosivo.

Antecedentes

A semeadura de milho em plantio direto começou sobre pastagem artificial, em solos degradados, com pendentes que excedem 30% em alguns casos. A semeadura efetuada em fins de outubro e a colheita realizada durante o mês de abril exigiu um período completo de irrigação por aspersão. O total de precipitação anual feito por irrigação flutuou entre 420 mm e 490 mm, dependendo da quantidade de chuva de antes da semeadura e da caída durante o desenrolar da cultura. A superfície semeada inicialmente foi de 2 ha, o que foi aumentado gradualmente até atingir 25 ha ao finalizar o período.

A semeadura foi feita com uma semeadora de plantio direto Allis-Chalmers de dois sulcos, equipada com um sistema pneumático eletrônico, que permitia semeadura a 70 cm entre linhas e 12 a 14 cm na linha, com 109.000 grãos/ha e uma população final de 88.000 plantas/ha, na média dos últimos 3 anos.

A adubação nitrogenada foi aplicada anualmente em diferentes quantidades, dependendo do tipo de nitrogênio usado. O uso de fosfato em milho diminuiu pela metade durante a segunda parte do período e na rotação com trigo não se aplicou desde 1983 a 1987.

A palha da cultura anterior foi picada. Para o controle de ervas pré e pós semeadura foram usados herbicidas sistêmicos, de contato e residuais, adequados para o controle de ervas de folhas largas e estreitas, aplicados com bomba de 3 pistões, tanque de 600 l e barra de 8 m, montados sobre trator.

Milho sobre resteva de trigo

Depois do primeiro ano de semeadura de milho, incluiu-se trigo na rotação. O milho semeado sobre a palha de trigo mostrou boa adaptação inicial, melhorando através dos anos. Isto demonstrou que a humificação e mineralização da palha de trigo a partir do quarto ano foi benéfica para o milho e a palha não afetou a germinação nem a densidade de plantas. Também a palha do trigo ajudou a proteção do solo durante o inverno. As semeaduras de trigo foram feitas sobre a palha de milho, observando-se com o transcorrer dos anos rendimentos ascendentes de trigo mesmo com quantidades maiores de palha de milho. Um bom exemplo foi a última semeadura de trigo do período, que se efetuou sobre 14 t/ha de palha de milho. Esta palha foi picada, conseguindo uma boa distribuição e uniformidade de tamanho. Não se observou efeitos alelopáticos na resteva de milho semeada com trigo e vice-versa.

A partir do quarto ano a palha de trigo foi regada durante o mês de março, com objetivo de estimular o desenvolvimento das ervas daninhas de verão, para conseguir um melhor controle na semeadura de milho na primavera-verão. A resteva previamente irrigada foi semeada com a mistura aveia-ervilhaca, com a qual se conseguiu uma boa cobertura vegetal protetora no inverno e forragem fresca no final da estação.

O controle de ervas em pré semeadura foi efetuado com uma mistura de glifosate mais 2,4-D, este último para reforçar o efeito do herbicida sistêmico. A aplicação desta mistura foi efetuada 20 dias antes da semeadura. Em pré-emergência aplicou-se uma mistura de Paraquat e Atrazina, o que possibilitou controlar eficientemente algumas ervas resistentes à mistura pré-semeadura. A partir de 1989 conseguiu-se em milho um solo sem ervas daninhas.

Resultados e discussão

Rendimentos: No início do plantio direto os rendimentos, tanto em milho como em trigo, foram baixos devido fundamentalmente a um controle deficiente de ervas daninhas, baixos níveis de matéria orgânica e fertilidade do solo. Os rendimentos de milho nas três primeiras temporadas mostram uma média de 6,3 t/ha enquanto que nas três últimas temporadas elevou-se para 9,66 t/ha, um aumento de 53%. A maior densidade de plantas também foi importante no aumento de rendimentos, o que por sua vez gerou um aumento de palha equivalente a 3,8 vezes entre o peso da primeira resteva de milho e a última do período. Este último fato foi vital na formação do novo solo orgânico que sustenta Chequén.

Controle de ervas: O eficiente controle de ervas observado no final do período deve-se a: 1 — aumento de água de 200 l/ha para 350 l/ha, aplicada na solução dos herbicidas tanto em pré-semeadura como em pré-emergência. Um maior molhamento das ervas permitiu um contato mais eficiente e/ou translocação. 2 — Durante o mês de maio/89 foram aplicadas 1.500 kg/ha de carbonato de cálcio, o que subiu o pH de 5,84 a 6,91. Este notável aumento do pH significou uma melhor ação da Atrazina, a qual eliminou praticamente as ervas em germinação. Os herbicidas dos grupos das triazinas são mais efetivos quando o pH é próximo do neutro. Tudo isso indica que se as ervas não conseguem formar sementes, o inventário de ervas anuais teria que diminuir.

Fertilidade

A fertilização indica que os níveis de nitrogênio aplicado foram altos até que se trocou a uréia por salitre sódico. A uréia e outros fertilizantes, além de acidificar notavelmente o solo, deslocam o cálcio e o magnésio da zona de absorção radicular das plantas. A uréia pode sofrer fortes perdas de nitrogênio amoniacal se não é cem por cento incorporada. Devido a esses problemas, substitui-se a uréia por nitrato de sódio, o que resultou num aumento de pH de 5,77 para 5,84, além de diminuir em 45 unidades o nitrogênio total aplicado.

A este respeito, Romheld afirma que toda adubação com predomínio de amônia pode diminuir os níveis de cálcio e magnésio disponíveis para as plantas.

O fósforo teve um comportamento excepcional, indicado que mesmo com altos rendimentos e doses baixas, os níveis de fósforo disponíveis se mantém altos. A maior parte dos pesquisadores assinalam que em plantio direto ocorre uma acumulação de fósforo no solo, o que é consequente com o notável aumento de fósforo disponível em PD, chegando a 51 ppm, enquanto que em pastagens é de 32 ppm e no solo tradicional é de 7 ppm. Por esta razão, as aplicações de fósforo na cultura do milho foram inferiores às necessidades dos cultivos nos últimos anos do período. Os altos níveis de fósforo em plantio direto direcionam para a maior atividade de micorrizas vesículo arbusculares, com o aumento da atividade fosfatásica, como também com os fungos e bactérias solubilizadoras de fosfato. É possível interpretar que o PD estaria fomentando a atividade biológica, que tem relação com a solubilização de fosfatos do solo.

A respeito do potássio disponível, ao comparar o manejo tradicional e o plantio direto, depois de 12 anos, este foi incrementado de 185 ppm para 325 ppm, o que significa um aumento de 75%, não tendo sido aplicado mais potássio do que contém o nitrato de sódio (0,1%). Entende-se que este aumento teria relação com: a) a reciclagem da palha rica em potássio; b) a maior solubilização deste elemento químico por meio dos ácidos orgânicos gerados pela maior atividade biológica; e c) uma movimentação de potássio localizado nos horizontes mais profundos, conseguido exclusivamente pelas raízes mais profundas do milho.

A capacidade de troca catiônica melhorou 63% devido exclusivamente ao aumento de matéria orgânica. Também foi possível observar um aumento no percentual de saturação de bases, passando de 68,27% para 86,56%, o que indica do íon Ca e a diminuição do íon H, no complexo de troca. Estes resultados confirmam o que informa Garavito ao indicar que existe uma relação entre os níveis de matéria orgânica e a capacidade de troca catiônica do solo.

O aumento de matéria orgânica também melhorou a densidade aparente do solo, diminuindo sua densidade em 36%. Este fato tem sido de grande significação em todos os parâmetros biológicos do solo, melhorando a população de minhocas em 36 vezes relativamente ao solo normal.

Umidade: Os resultados obtidos de acordo com a umidade aproveitável em plantio direto, comparado com um solo de cultivo convencional e pastagens, indicam claramente o efeito do PD sobre a capacidade de armazenamento de água disponível, o qual supera o sistema tradicional em mais de 50% e ao manejo em pastagem em 35%. Tudo isso devido ao melhoramento da densidade aparente, ao incremento da matéria orgânica, à maior população e atividade da mesofauna do solo. Este benefício afetou em forma progressiva os horizontes subsuperficiais da área radicular das plantas, o que indica que se mantém o solo sob plantio direto na palha, os benefícios assinalados serão incrementados com o tempo.

Conclusões

De acordo com os resultados obtidos, conclui-se que o plantio direto, depois de 12 anos de manejo do solo, sem a mínima remoção além da que faz a semeadura, oferece as seguintes vantagens:

1 — Detém os processos erosivos antrópicos e melhora, consequentemente, as qualidades físicas do solo como estrutura, densidade aparente e disponibilidade de água para as plantas.
2 — Permite o uso de solos com pendentes de até 40% sem riscos de erosão.
3 — Maior quantidade de nutrientes disponíveis para as plantas, especialmente fósforo e potássio.
4 — Aumento da população de micorrizas vesículo arbusculares, atividade fosfatásica, fungos e bactérias solubilizadores de fosfatos e minhocas.
5 — O aumento de matéria orgânica potencializa todos os níveis bióticos e ecológicos do solo, com o que se consegue um ordenamento natural biológico e a sanidade vegetal.
6 — Melhora a capacidade de trocas catiônicas e o percentual de saturação de base.

Carlos Crovetto — Produtor Rural de Chequén, Chile