Controle de plantas daninhas no milho


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Publicado em: 30/06/1991

A eliminação das invasoras no milho é imprescindível para se alcançar altos rendimentos. O uso de espaçamentos de 0,8 m a 1,2 m entre fileiras, aliado à baixa competitividade da cultura com as invasoras, entre outros fatores, são responsáveis por decréscimo de até 90% na produção.

O milho requer um período relativamente longo sem competição de invasoras, que se estende do 15º até o 50º dia da emergência, principalmente no caso de gramíneas, para não sofrer prejuízos no rendimento.

No Brasil, o milho foi tradicionalmente cultivado em pequenas propriedades, nas quais o controle de invasoras é realizado quase que exclusivamente por capinas manuais ou capinadeiras tracionadas por animais. Com a expansão da cultura para médias e grandes propriedades, outros métodos de controle, entre os quais o químico mais especificamente, assumiram lugar de destaque.

A nível de campo, existe uma tendência generalizada de indicar os herbicidas como solução do problema de invasoras. Sabe-se que o controle químico é um dos métodos mais seguros e eficientes de que se dispõe. No entanto, os aumentos constantes e crescentes dos herbicidas tornaram percentualmente expressivo o uso do controle químico nos custos da implantação da lavoura de milho. Este fato, aliado às dificuldades de crédito e de que o uso continuado de herbicidas poderá provocar a seleção e a expansão de determinadas invasoras, estão provocando uma busca de alternativas de baixo custo, dentro de um sistema integrado de controle de invasoras.

Este sistema sub-entende o uso simultâneo de herbicidas, capinas, métodos culturais e mesmo métodos biológicos, com o objetivo único de melhorar a eficiência e o espectro de controle de invasoras, com custos mais baixos.

Controle Cultural

Consiste em utilizar as características eco-fisiológicas do milho de tal forma que a cultura leve vantagem na competição com as plantas daninhas. Pode-se citar os seguintes itens como formadores do controle cultural de invasoras em milho:

a) semear as cultivares ou híbridos mais adaptados para cada região. Lavouras uniformes com boa população de plantas vigorosas, livres de pragas e doenças, melhoram o controle de invasoras;
b) o uso de sementes de boa qualidade e procedência evitará uma má germinação e introdução de invasoras. Falhas na lavoura são focos para proliferação de plantas daninhas;
c) adequada época de semeadura e espaçamento, e quantidade suficiente de semente e adubação, são fatores que influem diretamente na população e vigor do cultivo e, portanto, determinam a quantidade de sombreamento e concorrência proporcionada. Semeaduras em épocas anteriores ao recomendado, que geralmente são períodos com temperaturas baixas, atrasam o desenvolvimento do milho, debilitando-o e diminuindo a sua capacidade competitiva com as invasoras;
d) a utilização da rotação de culturas, combinada com uma rotação de herbicidas, mostrou ser um dos melhores métodos para controlar invasoras no milho. Isto porque culturas diferentes exigem sistemas diferentes para o controle de invasoras, e este fato, aliado à rotação de herbicidas para o próprio milho, determina que uma invasora que escape a um determinado tratamento seja eliminada pelo outro.

Controle Mecânico

O controle mecânico é constituído essencialmente pelo uso de capinadeiras e da capina manual. Outros métodos que empregam a cobertura vegetal morta (abafamento) e o próprio preparo do solo para a semeadura, entre outros, podem também ser enquadrados como métodos mecânicos de controle de invasoras.

A capina manual é utilizada em pequenas áreas e/ou onde há disponibilidade de mão-de-obra. É ainda usada como complemento de outros métodos de controle, ou quando o controle químico e o equipamento mecânico tratorizado não possuem acesso.

No entanto, o uso de capinadeiras tracionadas por animal ou trator constituem tradicionalmente o chamado método mecânico de controle de invasoras. Experiências têm demonstrado que a principal função da cultivação é destruir os inços, ao invés de um efeito sobre as propriedades físicas e biológicas do solo, como muitas vezes é apregoado. No entanto, num solo argiloso, mesmo livre de invasoras, pode-se aumentar a produção do milho com uma cultivação nos primeiros estágios de desenvolvimento.

A capina com enxadas rotativas de arrasto tem dado um controle de 80% das ervas daninhas anuais em seus primeiros estágios. A época adequada para obter sucesso no uso deste implemento é quando as invasoras estão emergindo do solo até no máximo com 2 a 3 folhas. Este implemento elimina as invasoras entre e dentro das fileiras de milho, permitindo o crescimento deste, e facilitando capinas posteriores com extirpadores de entrelinhas (capinadeiras com ponteiros “tipo asa de andorinha”). A combinação destes dois tipos de capinadeiras tem sido suficiente em áreas com baixas a médias infestações de invasoras.

O uso exclusivo de capinadeiras de entrelinhas não tem sido suficiente para a eliminação das plantas daninhas a um nível que permitisse a obtenção de altos rendimentos, principalmente se as invasoras forem gramíneas. A aplicação de herbicidas em faixa de 50 cm sobre as fileiras de milho, e a complementação com capinas nas entrelinhas, tem apresentado resultados iguais ou superiores ao uso de herbicida em área total.

As capinas de entrelinhas devem ser realizadas com enxadas do tipo asa de andorinha numa profundidade não superior de 3 a 5 cm, para evitar danos nas raízes, com redução no rendimento de grãos.

O preparo do solo para a semeadura pode ser considerado um importante fator de eliminação de invasoras, principalmente perenes. A semeadura deve ser realizada logo após o preparo do solo, para que o milho tenha oportunidade de emergir livre de invasoras.

Controle Biológico e Plantio Direto

Poucos são os estudos e também as evidências sobre a possibilidade de se utilizar, a curto prazo, fungos, bactérias ou insetos para controlar plantas daninhas na cultura do milho. No entanto, já está em uso, principalmente no sistema de plantio direto, o efeito alelopático proporcionado por algumas culturas sobre o desenvolvimento de plantas daninhas. Neste caso, a cultura de inverno que antecede ao milho é eliminada química e/ou mecanicamente e seus restos culturais são mantidos uniformemente distribuídos sobre a superfície do solo.

Na prática, porém, as culturas como o tremoço, a ervilhaca, a serradela, entre outras leguminosas, quando precedem o milho, e que teriam como vantagem adicional o fornecimento de nitrogênio para o mesmo, não se têm mostrado como culturas inibidoras do desenvolvimento de plantas daninhas. Em áreas de alta infestação de plantas daninhas gramíneas, normalmente faz-se necessário a complementação com herbicidas de pós-emergência e/ou de aplicação dirigida. Já culturas como nabo forrageiro, colza e principalmente aveia preta, embora com menores vantagens em termos de rotação de culturas, têm demonstrado um efeito supressor mais acentuado, dispensando, em algumas áreas, a utilização de herbicidas ou da complementação com capinas.

Manejo de Culturas de Cobertura

A eliminação das culturas de inverno visando formar a cobertura protetora para o milho pode ser realizada química ou mecanicamente. A utilização de roçadeiras, rolo-facas ou mesmo de grades niveladoras destravadas têm demonstrado boa eficiência, desde que as culturas se encontrem na fase reprodutiva. As gramíneas, como por exemplo a aveia preta, têm demonstrado maior resistência ao manejo mecânico do que as demais culturas. Por outro lado, quando essas culturas se apresentam muito desuniformes em termos de desenvolvimento, ou com baixa densidade populacional e, neste caso, normalmente com presença de plantas daninhas, é recomendável realizar o manejo ou a eliminação química.

Também se enquadram nesta situação áreas que num sistema de rotação estejam destinadas para a cultura do trigo como campo de multiplicação de semente no ano seguinte. Nestas áreas, o risco de reinfestação com aveia preta, por exemplo, através das plantas não eliminadas e que produziram sementes, é muito alto e praticamente inviabiliza a produção de trigo para semente.

Algumas indicações de pesquisa, e mesmo de observações a campo, dão conta que a eliminação mecânica e/ou química destas culturas, antes da implantação do milho, mais especificamente no caso da aveia preta, deva ser realizada em torno de 20 dias antes da semeadura da cultura do milho, evitando-se, com isso, possíveis efeitos alelopáticos da cultura predecessora ou mesmo de resíduos dos herbicidas utilizados na dessecação. Por este último motivo, normalmente 5 a 8 dias de intervalo entre a aplicação e a semeadura seriam o suficiente, quando se tratar dos produtos 2,4-D e glifosate. A utilização de herbicidas à base de paraquat não necessitariam deste intervalo.

Controle Químico no Convencional

O controle químico tem sido o método que, isoladamente, proporciona os melhores resultados quanto a eficiência e duração. No entanto, deve-se ter o cuidado de não recomendar sempre os mesmos herbicidas para uma mesma área.

Ainda assim, na conjuntura econômica atual, sempre que se recomendar o controle de plantas daninhas, deve-se ter em mente a necessidade de buscar soluções com métodos integrados, pois, desta maneira, somam-se os efeitos e aumenta-se a eficiência e o espectro de controle e custos mais baixos.

A aplicação de produtos pós-emergentes deve ser realizada na época de crescimento intenso, evitando-se períodos com deficiência hídrica ou nas horas mais quentes do dia e com umidade do ar abaixo de 50% (11h às 16h), pois nestas condições a eficiência é, em geral, prejudicada.

Os herbicidas que necessitam ser incorporados são menos dependentes das condições de ambiente, desde que a incorporação seja realizada logo após a aplicação. Produtos com aplicação em pré-emergência dependem da umidade do solo que deve estar em quantidade que possibilite uma boa germinação da cultura.

Controle Químico no Plantio Direto

Um eficiente controle de plantas daninhas no sistema de plantio direto é fundamental para a sua viabilidade técnica e econômica. No entanto, na prática, é um dos aspectos que mais tem onerado o sistema, principalmente pela falta de conhecimento das alternativas de controle disponíveis. Para controlar este obstáculo, deve-se combater as invasoras com práticas conjugadas e integradas que vão desde a utilização das restevas das culturas e a rotação de culturas, visando interligar épocas diferenciadas, para finalmente usar herbicidas apenas sobre as plantas daninhas remanescentes.

Os herbicidas, no sistema de plantio direto de milho, podem ser utilizados em duas etapas: Pré-semeadura: quando são eliminadas quimicamente as plantas daninhas ainda presentes antes da implantação da cultura. Nesta fase, também chamada operação de manejo, geralmente são utilizados herbicidas de ação total. Pós-semeadura: quando se pretende eliminar as plantas daninhas que escaparam ou germinaram após a semeadura. Neste caso, utiliza-se os mesmos herbicidas recomendados para o sistema convencional, incluindo-se os pré-emergentes e os pós-emergentes e excluindo-se, naturalmente, os que necessitam de incorporação.

Aplicação dirigida ou de entrelinhas

Quando, no sistema de plantio direto, cessa o efeito da palha, ou ainda, independente do sistema de semeadura, ocorrem falhas de aplicação ou de funcionamento dos produtos de solo, pode-se ainda realizar a chamada aplicação dirigida de herbicidas. Para isso são usados produtos de ação de contato não seletivos, associados ou não com produtos seletivos.

A aplicação é realizada quando o milho está ao redor de 50 cm de altura, procurando-se atingir apenas a entrelinha da cultura. Adaptações como a colocação de pingentes para aproximar os bicos do solo e a pulverização atingir a metade da entre-linha, a troca para bicos que trabalham com pressões baixas (5 a 10 libras/pol²) e cones internos para evitar deriva sobre a vegetação, são necessárias. O pulverizador deveria realizar a aplicação em uma mesma área de uma passada só, evitando-se, com isso, possíveis falhas no milho nos focais onde o espaçamento entre as passadas foi menor e possível facilitar o controle em termos de aplicação.

José Ruedell — Engenheiro Agrônomo, M.Sc., Pesquisador da FUNDACEP-FECOTRIGO, Cruz Alta-RS