A rotação de culturas


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Publicado em: 30/06/1991

A grande vulnerabilidade do sistema ecológico nas regiões tropicais implica em danos irreversíveis, se manejado irracionalmente, os quais se fazem sentir especialmente quando o solo é utilizado intensiva e continuamente. Na transição de sistemas naturais para agroecossistemas, se faz necessária a utilização racional de todos os métodos de estabilização ecológica, dentre os quais se conta também a rotação de culturas.

A rotação de culturas não objetiva apenas uma mudança de espécies, mas sim a escolha de culturas respeitando as suas necessidades e características diferentes e de acordo com a sua influência diferenciada sobre o solo, o crescimento de ervas daninhas, assim como desenvolvimento de doenças e pragas, numa sequência apropriada e prática, que promova efeitos residuais benéficos.

O plantio contínuo da mesma cultura, no mesmo lugar, durante muitos anos, somente é possível em caso de culturas especiais, usando tecnologias adequadas, como é o caso do arroz irrigado, que vem sendo cultivado, em alguns casos, durante séculos em regiões altamente povoadas da Ásia. Em geral, a monocultura tem como consequência a queda da produtividade por área ou a manutenção de produtividades baixas e, em casos extremos, até a perda da produção, sendo em geral os seguintes os fatores responsáveis por essa situação: aumento de doenças e pragas específicas; aumento de plantas daninhas específicas; diminuição da disponibilidade de nutrientes devido a mudanças na atividade biológica e degradação física do solo; diminuição do desenvolvimento do sistema radicular; acumulação de substâncias tóxicas específicas ou inibidores de crescimento.

No Brasil, a monocultura, aliada a um preparo inadequado da terra e à consequente erosão e degradação do solo, está entre as principais causas da baixa produtividade média das culturas. Assim, a produtividade média da soja no Brasil não consegue ultrapassar a barreira dos 1.790 kg/ha, apesar da utilização de tecnologias melhoradas e mais sofisticadas, e havendo apenas pequena expansão para regiões novas.

Definição

Rotação de cultura é a sucessão ordenada de diferentes culturas num espaço de tempo, no mesmo campo ou gleba, obedecendo a objetivos definidos, sendo que uma cultura não é plantada no mesmo lugar mais seguido do que cada dois anos.

Monocultura é o plantio repetido da mesma espécie no mesmo lugar. Todos os anos a mesma ou as mesmas culturas persistem ou são semeadas (plantadas) no mesmo campo ou gleba.

Princípios

Os princípios nos quais se baseia o planejamento de um esquema de rotação são os seguintes:

• Cultivo alternado de culturas com diferente capacidade de retirar nutrientes do solo, com sistema radicular capaz de alcançar diferentes profundidades.
• Cultivo alternado de culturas suscetíveis a certas moléstias ou pragas, com outras mais resistentes.
• Sucessão planejada de espécies que levam em conta todo o efeito positivo, ou negativo, de uma cultura sobre a seguinte. Estes efeitos podem ter sua origem por alelopatia, ou substâncias tóxicas fornecidas com os adubos; aumento do teor de matéria orgânica no solo; desenvolvimento diferenciado do sistema radicular; estrutura do solo; microrganismos, nematóides ou umidade residual do solo.
• Alternância do plantio de culturas que tendem a exaurir o solo, com culturas que contribuem para melhorar sua fertilidade.
• Cultivo alternado de culturas com diferentes necessidades de mão-de-obra, máquinas e implementos, água, etc., em diferentes épocas, no decurso do ano agrícola.

Objetivos da rotação

1. Manutenção e aumento da matéria orgânica e da fertilidade do solo

A matéria orgânica produz sensíveis alterações nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo.

Efeitos físicos: dependendo da espécie, época de plantio, espaçamento, pode ter efeito físico direto sobre o solo. Um efeito importante é o da formação de agregados, cuja estabilidade depende de matéria orgânica, atividade microbiana, processo de umedecimento e de secagem do solo, cultivos, etc.
Efeitos químicos: uma importante característica da matéria orgânica é a influência que exerce sobre as propriedades coloidais do solo, como fonte de nutrientes. É possível ter melhor distribuição de íons no perfil aumentando o teor de matéria orgânica a maior profundidade, no solo, pelo trabalho e os resíduos deixados pelo sistema radicular das plantas cultivadas.
Efeitos biológicos: podem ser induzidos pelo mais amplo desenvolvimento do sistema radicular ou pela maior concentração de microrganismos e maior atividade biológica na camada arável, em solo melhor provido de matéria orgânica.

Diferentes plantas (especialmente leguminosas e gramíneas) têm sido estudadas e avaliadas pela sua capacidade de enriquecer o solo de matéria orgânica. As leguminosas, por fixar nitrogênio do ar em simbiose com bactérias que formam nódulos nas raízes, são muito recomendadas para serem incluídas em esquemas de rotação. Os benefícios da rotação, na maioria dos casos, têm sido atribuídos à maior disponibilidade de nitrogênio no solo, fornecido pelas leguminosas, isto é, à fixação biológica do nitrogênio.

2. Diminuição das perdas por erosão

Devido à diferente cobertura do solo proporcionada pelas várias culturas e os diferentes tratos culturais, observa-se um efeito benéfico da rotação no controle das perdas de água e do solo, causadas por erosão.

A rotação contribui para a manutenção da estrutura física e das condições favoráveis do solo, tais como: arejamento adequado, melhor conservação da água disponível às plantas, etc.

Quando o plantio é feito em faixas, associando-se a isto a rotação de culturas, é possível alcançar os melhores resultados do ponto de vista conservacionista. No plantio em faixas, uma é plantada com cultura mais suscetível à erosão, contígua a outra plantada com cultura menos sujeita ao processo erosivo. Essas faixas com diferentes densidades de vegetação (cobertura do solo), preparo, cultivos, etc. são afetadas diferentemente. Uma retém melhor o solo e a água que a outra e a gleba, como um todo, fica melhor protegida.

3. Controle de invasoras

É outra importante vantagem da rotação. Certas espécies de invasoras desenvolvem-se melhor se associadas a determinadas culturas, devido a diferenças de cobertura do solo, tratos culturais e ciclo vegetativo.

A persistência de determinada invasora pode ser consequência do esgotamento unilateral de determinado elemento, ou acúmulo de outros. Cada invasora pode ser uma “indicadora” de condição específica criada no solo pela monocultura. O controle mecânico ou químico, com herbicida, não a elimina definitivamente. A rotação contribui para interromper essa condição.

4. Controle de pragas e moléstias

As moléstias e pragas, em geral, têm a tendência de aumentar sua infestação a cada safra, se a cultura se repete no mesmo terreno. A rotação, às vezes, permite controlar de forma eficiente o desenvolvimento e a propagação de algumas moléstias e pragas. Na maioria dos casos ela é uma medida suplementar de controle, junto a outras práticas agrícolas, quando o emprego de fungicidas e de variedades resistentes não se mostra economicamente viável ou praticável. Os benefícios advindos dessas medidas não podem ser atribuídos exclusivamente à rotação, pois cultivos, emprego de fertilizantes, medidas fitossanitárias, etc. podem influir na perpetuação do patógeno ou na fisiologia da cultura (hospedeira) e contribuem também nesse sentido.

A rotação de culturas tem sido enfatizada em relação ao controle de moléstias das raízes, o que muitas vezes não pode ser conseguido, em base econômica, pela aplicação de fungicidas.

5. Reciclagem de nutrientes do solo

As plantas cultivadas apresentam grande diferença em relação ao sistema radicular. As leguminosas têm um sistema radicular pivotante que pode alcançar as camadas mais profundas do solo e explorar as reservas de nutrientes do subsolo. As gramíneas têm sistema radicular fasciculado, mais raso, e, por isso, estas plantas retiram mais nutrientes das camadas mais superficiais do solo.

6. Aproveitamento do adubo residual

Certas culturas, por sua inerente capacidade fisiológica, aproveitam melhor os adubos aplicados, do que outras. O milho, quando plantado em rotação com a soja, por exemplo, responde menos à adubação nitrogenada em cobertura, pois os restos de cultura da soja (raízes, nódulos, restos da planta) incorporados ao solo após a colheita constituiriam para alguns pesquisadores suficiente fonte de nitrogênio para o milho.

7. Economia de mão-de-obra e organização dos trabalhos na propriedade

A rotação possibilita organizar melhor os trabalhos na propriedade agrícola, com melhor aproveitamento das áreas plantadas, do capital aí investido e da mão-de-obra empregada.

8. Aumento da produtividade

A melhoria da fertilidade se reflete no aumento da produtividade e na melhoria da qualidade do produto colhido, ao contrário do que acontece com a monocultura.

Requisitos a serem seguidos no planejamento

Alguns requisitos no planejamento devem ser estabelecidos:

• O esquema de rotação, de acordo com o sistema de plantio adotado, deve ser flexível para permitir, se necessário, uma mudança na escolha das culturas, em decorrência de flutuação climática ou de preços. Essa maior flexibilidade poderá ser conseguida nos esquemas baseados num grupo de culturas rentáveis.
• Além do uso adequado de fertilizantes minerais, a incorporação de matéria orgânica ou a sua utilização na cobertura morta são medidas essenciais à manutenção da fertilidade do solo.
• Deve ser levada em consideração a melhor utilização da mão-de-obra, tratores e máquinas durante o ano, evitando que ocorra o pico de trabalho em determinada época. A sucessão de culturas deve ser prática, exequível e rentável.
• Deve ser previsto um intervalo entre a colheita de uma e o plantio da sucessora, tendo em vista o período de decomposição dos restos de cultura e as operações de preparo do solo.
Correta sequência das culturas: (a) evitar plantio contínuo de gramíneas ou de leguminosas; (b) não semear em sucessão plantas com comum efeito na seletividade de invasoras, de pragas ou de moléstias, e de exigências nutritivas; (c) reservar as melhores culturas antecessoras para as sucessoras economicamente mais rentáveis.

Milho nos esquemas de rotação

A rápida perda da fertilidade dos solos tropicais e subtropicais é atribuída principalmente à erosão e à redução do nível ou teor de matéria orgânica que normalmente apresentam antes de virem a ser cultivados.

Com o propósito de estabilizar e, se possível, melhorar os níveis de produtividade das culturas tem sido, desde há muitos anos, preconizada a rotação de culturas. Ao contrário do monocultivo, isto é, o plantio da mesma cultura ano após ano, no mesmo lugar, a rotação visa manter e, se possível, melhorar as condições de fertilidade do solo na área plantada.

O nível de tecnologia empregado na produção de milho, no Brasil, como amplamente reconhecido, é muito diversificado. Ele varia em razão da situação sócio-econômica do agricultor, das condições edafoclimáticas da região e em função ainda da demanda e do valor do produto no mercado.

O esquema de rotação deve ser, portanto, previamente bem estudado, escolhendo-se culturas com diferentes exigências e características diversas, que, com o decorrer dos anos, possam ter uma influência favorável sobre as condições do solo e, inclusive, sobre o controle de invasoras e de moléstias ou pragas que poderão ter efeitos negativos na produção.

Cereal de maior valor na nossa agropecuária, de ampla adaptação às diferentes condições do País, o milho tem ainda a grande vantagem de deixar uma grande quantidade de matéria orgânica (restolho) muito valiosa e que, uma vez bem manejada, pode contribuir para reduzir a erosão e melhorar o solo. É, pois, cultura das mais indicadas para ser incluída num esquema de rotação, uma vez que minimiza os riscos e dá mais segurança e estabilidade ao sistema.

Material extraído das seguintes publicações: “Rotação de Culturas — Plantio Direto e Convencional” (Rolf Derpsch — IAPAR, Londrina-PR) e “Rotação de Culturas — Uma prática lucrativa” (Glaucio P. Viegas e Donizete A. Machado — Fundação Cargill, São Paulo).

Compilação a partir de Rolf Derpsch (IAPAR) e Glaucio P. Viegas / Donizete A. Machado (Fundação Cargill)