Franke Dijkstra — opiniões de um pioneiro "radical"


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Publicado em: 30/06/1991

Com uma área agricultável de 850 hectares, localizada em Carambaí, nos Campos Gerais do Paraná, o produtor Franke Dijkstra faz plantio direto, que ele acha mais apropriado chamar de “plantio na palha”, há mais de 15 anos.

Pioneiro nesse sistema, é considerado um “radical” por nunca mais ter arado a terra e nem ter a intenção de fazê-lo e hoje, após superar muitos obstáculos e de realizar uma rotação adequada à sua realidade, tem uma lavoura de verão altamente produtiva, onde a média do milho fica ao redor de 9 mil quilos por hectare e a da soja em 3.300.

O “Jornal do Plantio Direto” revela algumas opiniões de Dijkstra nesta edição em que a rotação de culturas e o milho, sempre associados ao sistema, ganham uma atenção especial.

Área teste

Até hoje ele mantém uma pequena extensão da lavoura, que é plana e por isso não sofre os efeitos da erosão, para plantio convencional e onde realiza as mesmas práticas da área com direto. “Foi lá que aprendi”, diz ele, pois ao longo do tempo pôde comparar o desempenho dos dois sistemas e “O plantio direto sempre foi superior. Ele não foi superior nos primeiros anos nas gramíneas, mas depois de oito anos o direto superou, em desempenho, também nas gramíneas”, afirma.

Ganho anual

Por falta de um acompanhamento mais científico diz que é difícil medir, de modo generalizado, o desempenho do convencional e do direto em toda a região. Mas sua experiência pessoal é expressiva e muito importante. “Para mim já está claro, eu tenho uma tendência de crescimento de produtividade, nos últimos tempos de 240 quilos de milho por hectare por ano. Claro que o avanço no material genético somou dentro disso, mas veja que tenho um crescimento de 110 quilos por hectare por ano na soja e o material genético, em termos dessa leguminosa, basicamente tem sido o mesmo”, afirma Dijkstra.

Para ele ficou bastante evidente, em todos esses anos, o desempenho do plantio direto. Hoje ele planta a soja sem fertilizantes “para não haver um excesso de crescimento da planta porque em função do sistema de plantio direto a fertilidade já está demais”.

Não arar

Muitos produtores entram no sistema e logo adiante tocam o arado outra vez, em vista de problemas que surgem. “Eu considero isso uma falta de base, falta de conhecimento, por falta de ter uma área onde se possa comparar permanentemente o desempenho dos dois sistemas”, ressalta ele. Ele nunca mexeu nessa terra e diz que por isso pode ser considerado um “radical”, mas tem certeza de que acertou em não ter mais arado o solo durante esses quinze anos. “Veja que todo o calcário foi jogado na superfície e, teoricamente, muitos acham que o corretivo deve ser incorporado. Eu faço isso no inverno e de acordo com análise do solo”.

Vida biológica

Afirma Dijkstra que o mais importante que está acontecendo no seu solo é que a vida biológica está cada vez mais ativa. “Não é mais plantio direto, pode-se dizer, é plantio na palha, é rotação de culturas que fazem a vida biológica ficar mais ativa”, explica ele. E completa: “acho que devemos trocar de plantio direto para plantio na palha pois é esta que protege o solo, afofa a terra, impede a compactação e reativa a biologia”.

Observa que a diabrótica (vaquinha ou patriota), produz até 150 galerias por metro quadrado, com outros “animais”, formando bolsões de matéria orgânica e outros nutrientes. “Até um metro de profundidade se encontra núcleos ou colônias de matéria orgânica, fósforo de 40 ppm, potássio alto, pH 6. Nessas galerias há condições da raiz se aprofundar, buscar água mais embaixo, além de permitir melhor aeração do solo. E isso tudo está se potencializando cada vez mais. Cada vez mais chego à conclusão de que não se deve arar a terra”.

A rotação

“A rotação de culturas começamos a aprender depois que implantamos, em campos experimentais, 17 coberturas de inverno e atravessamos com soja e milho para observar os benefícios que uma cultura poderia proporcionar à subsequente”, relata. Disso vieram informações sobre controle de ervas, de doenças, benefícios em nitrogênio em função da cultura anterior e até efeitos negativos em cima da próxima cultura, como azevém antes do milho.

O importante, na rotação, é o controle de doenças e de ervas. “Éramos criticados por usar muitos defensivos agrícolas e isso foi bastante reduzido. Estou gastando, hoje, 60% dos defensivos que gastava no convencional, só pela rotação. Além disso, não tenho mais erosão e em razão disso, a fertilidade aumenta, tenho maior disponibilidade de água, maior disponibilidade de fósforo”. As vantagens estão se somando.

Bicudo

Diz ele que, por outro lado, podem aparecer alguns problemas, para os quais acredita em solução sem ter que mexer na terra. “O bicudo da soja que está aqui ainda não deu problema por causa da rotação”. E afirma que o cancro da haste entrou porque entra no sistema convencional da mesma forma. “Se vamos queimar a palha para se livrar do ‘cancro’ entraremos naquele mesmo processo anterior degradante do solo”.

Patrimônio

Para Franke Dijkstra “todos nós temos que ter todo o cuidado com o solo, pois com ele degradado pela erosão é de se perguntar, qual será o futuro da agricultura? Não é só o homem do campo, o homem da cidade também tem que estar preocupado, pois se a terra for rio abaixo não teremos patrimônio para recuperar”.

Diz que assim como o médico cuida da saúde das pessoas o agrônomo tem que cuidar da saúde do solo que vai alimentar as outras gerações. “Temos que manter”, insiste, “o solo intacto, pois ele é o ponto crítico da agricultura para o futuro. A longo prazo, para evitar uma agricultura oportunista, extrativista, que quer tirar proveito de qualquer maneira, precisamos mudar, pois se trata de alimentos e deles não precisamos apenas hoje. O solo é a base e precisamos preparar o homem do campo para o trabalho, para uma agricultura mais consciente, de longo prazo e não apenas de curto prazo”.

Franke Dijkstra (produtor rural, Carambeí, Campos Gerais do Paraná) — entrevista