Para ser viável soja precisa aumentar a sua produtividade


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Publicado em: 30/08/1991

A soja é cultivada desde 3.000 anos a.C. na China, Japão e Coréia. Chegou à Europa após a 1ª Grande Guerra e em 1948 90% da área semeada nos EUA já destinava-se à produção de grãos.

Foram feitas várias tentativas de introdução dessa oleaginosa no Brasil, mas só em 1908 imigrantes japoneses efetivamente iniciaram o seu cultivo, aproveitando a experiência que tinham com a cultura.

No Rio Grande do Sul, o cultivo iniciou-se no 3º distrito de Santa Rosa, mas foi no município de Giruá o primeiro indício de comercialização com a discriminação de preço por saco. Em 1941 tem-se os registros das primeiras exportações, o que veio despertar maior interesse no agricultor.

A soja evoluiu desde que em 1970 iniciou-se o cultivo técnico e racional no Rio Grande do Sul e Paraná. Já em 1975 colhia-se no Brasil quinze vezes maior produção que em 1967. Desta forma a soja tornou-se hoje o principal produto de exportação do RS e Brasil.

Evolução da produtividade da cultura da soja no Brasil em kg/ha (Fonte: IBGE): 1968 — 880 (4 anos); 1972 — 1.200 (advento do uso de fertilizante e produtos químicos); 1973 — 1.386 (3 anos); 1974 — 1.531; 1975 — 1.698 (houve novamente um crescimento); 1976 — 1.749; 1990 — 1.737 (15 anos — a produtividade está estagnada, com pequenas variações por conta do clima).

Examinando o quadro acima podemos identificar com clareza que o problema da soja está realmente na baixa produtividade. Parece-nos que essa é a preocupação que deveria estar “martelando” o agricultor e todos os envolvidos com esta cultura.

Mas quais são os fatores que levam a baixas produtividades, principalmente em nosso caso, em que a soja é o principal produto de exportação? Resumidamente nós poderíamos colocar como fatores: solos com erosão; falta do uso da técnica; recursos escassos e caros; pragas; doenças; fertilidade baixa; má administração da propriedade.

Os técnicos são unânimes em concordar com esses fatores, mas a pergunta fica voltada para a viabilidade da cultura.

Entendemos que a cultura da soja só será viável retomando um crescimento de produtividade. É preciso que seja repensado um conjunto de fatores pelos agricultores e técnicos com urgência, premente que entendamos que a cultura necessariamente deve ser tratada dentro de um contexto geral da propriedade, olhando para aspectos como: 1) Uma pesquisa voltada regionalmente para problemas locais; 2) Uma assistência técnica efetiva, suportada por essa pesquisa; 3) Uma boa administração da propriedade amparada pela pesquisa e assistência técnica.

As baixas produtividades parecem ser facilmente explicadas quando notamos que esses aspectos não têm funcionado de forma sincronizada. Esse conjunto de problemas está aí, mas e o futuro da soja?

É evidente que o futuro da cultura da soja é grande, com um potencial para alimentar uma imensa população e com baixo custo. A questão é viabilizar a forma que possibilite a um maior número de agricultores possam sair dessas baixas produtividades. Esse programa deixa de “ser” ou de “estar” para aqueles que, de uma forma ou de outra, estão envolvidos com essa importante riqueza, onde predominam agricultores cada vez mais descapitalizados e menos competitivos, inclusive em nível de outros países, como por exemplo a Argentina.

E as perspectivas mais imediatas para a soja? Parece-nos que as perspectivas da soja, dentro de um contexto onde é buscado um trabalho com a conservação do solo, com a rotação de culturas e a diversificação de atividades, suportado por uma pesquisa regional sustentável, com uma boa assistência técnica e as duas auxiliando uma boa administração, serão promissoras. Temos vários exemplos no Brasil como as cooperativas da Fundação ABC (Arapoti, Batavo e Castrolanda) e o trabalho dos Clubes Amigos da Terra com o Plantio Direto no RS.

Nº de pessoas que podem ser alimentadas durante um dia com proteína de diversas fontes originadas pela produção de 1 ha/ano (Fonte: Johnson, 1975): Carne de gado — 190; Carne de porco — 319; Carne de galinha — 457; Leite — 583; Arroz — 2.469; Farinha de trigo — 2.712; Feijão — 4.315; Batata — 5.239; Soja — 9.075; Algas — 43.200 a 154.000.

Fontes de proteína e seu custo (Fonte: Vernetti, F. de Jesus, 1975 — preços de Pelotas, RS, em 10/11/75): Leite — Cr$ 2,00/l (3% proteína, custo da proteína/kg 66,66); Carne — Cr$ 20,00/kg (20%, 100,00); Filé de peixe — Cr$ 18,00/kg (20%, 90,00); Ovos — Cr$ 5,00/dz (12%, 76,00); Proteína desolada de soja — Cr$ 11,24/kg (90%, 12,48).

Situação da cultura no Brasil: Solos com erosão; Hiato entre pesquisa e extensão rural; Fertilidade caindo; Falta de recursos e caros; Sempre esperando soluções; Produtividade média nos últimos anos 1.700 kg/ha.

Situação da cultura na área da Fundação ABC (PR): 70 a 80% com Plantio Direto, sem erosão; Pesquisa em conjunto com extensão, chegando ao agricultor; Fertilidade subindo; Mais recursos vindos da maior produtividade; Busca de soluções próprias; Produtividade média de 3.000 kg/ha.

Outro exemplo que pode-se tomar é dos CATs — Clubes Amigos da Terra, aqui no RS. Observa-se que esses agricultores estão num caminho correto, e a prática vem mostrando isso. É lógico que estamos falando de poucos números, quando comparamos grupos de agricultores que estão encontrando a solução em um nível tecnológico mais avançado, mas também é lógico que o caminho a ser trilhado não estará muito longe desse comportamento, que claramente mostrará a viabilidade da cultura no Brasil.

Finalmente, nos parece que escutando esses grupos de agricultores e seus comportamentos, exemplos e pensamentos deveríamos chegar onde almejamos.

Flávio Rampelotto — Engenheiro Agrônomo, ICI Brasil