Haste para escarificação em área sob plantio direto


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Publicado em: 30/08/1991

O preparo convencional do solo com o uso exclusivo de implementos de discos tem trazido sérios problemas de degradação e consequente erosão. O sistema plantio direto é uma opção para minimizar este problema, uma vez que a semeadura das culturas é feita na resteva da cultura anterior, sem o prévio preparo do solo. Entretanto, sérios problemas de compactação do solo têm ocorrido nestas áreas, principalmente em solos com alto teor de argila, provocando inibição do crescimento do sistema radicular e menor infiltração de água no solo.

Com o intuito de oferecer uma alternativa para a solução deste problema, desenvolveu-se uma haste protótipo de escarificador para descompactar estes solos e, ao mesmo tempo, promover a mínima mobilização da superfície deste. Comparou-se esta com outros três modelos de hastes comerciais quanto a parâmetros relacionados ao desempenho (força de tração e coeficiente de resistência a tração) e parâmetros relacionados ao solo (mobilização relativa e cobertura do solo com restos culturais após o preparo).

Para os parâmetros coeficiente de resistência a tração e mobilização relativa, não houve diferenças estatísticas significativas. Entretanto para a cobertura do solo, a haste Protótipo foi a que menos restos culturais incorporou, sendo estatisticamente igual à haste modelo Cruzador e superior às hastes modelo Jumbo e Pé-de-Pato. Do mesmo modo, considerando a demanda de potência, a haste Protótipo não diferiu da haste modelo Jumbo nem da haste modelo Cruzador, mas foi superior à haste modelo Pé-de-Pato.

Introdução

O sistema plantio direto é uma alternativa tecnológica para diminuir o problema da erosão do solo, e consiste em realizar a semeadura das culturas diretamente na resteva da cultura anterior sem o prévio preparo.

A adoção do plantio direto por parte dos agricultores tem sido lenta, em razão das dificuldades para assimilar a nova técnica. Os principais entraves têm sido a dificuldade de controle de plantas invasoras e de pragas de solo, falta de semeadoras eficientes e o descaso com o manejo do solo em relação à sua estrutura física. Em consequência disso, após alguns anos sob esse sistema de manejo, lavouras têm apresentado sintomas evidentes de compactação superficial, principalmente em solos com elevado teor de argila.

Esta compactação, além de causar uma inibição do desenvolvimento do sistema radicular, reduz a taxa de infiltração de água no solo e dificulta o funcionamento dos elementos abridores de sulcos do solo das semeadoras, devido a elevada resistência à penetração.

A escarificação em áreas sob sistema plantio direto com um implemento que pudesse descompactar o solo, sem no entanto revolver ou incorporar os restos culturais, seria de grande utilidade, possibilitando o aumento da área manejada nesse sistema.

O uso de escarificadores convencionais nestas áreas não tem funcionado satisfatoriamente. Estes escarificadores incorporam grande parte da cobertura morta existente na superfície, além de sofrer problemas de embuchamento e rugosidade superficial muito elevada para permitir a semeadura sem a realização de uma ou mais operações de preparo secundário.

No presente trabalho comparou-se uma haste Protótipo de escarificador com outras três existentes no mercado, quanto à sua eficiência operacional, em termos de demanda de potência na barra de tração e coeficiente de resistência a tração e, em relação a parâmetros de solo, como mobilização relativa e cobertura do solo com restos culturais, após a operação de descompactação.

Resultados e discussão

A haste modelo Cruzador exigiu uma força média de tração significativamente maior em relação às outras hastes ensaiadas, as quais não diferiram entre si. A força de tração exigida pela haste protótipo é semelhante à encontrada por Harrison (1988), que obteve para a profundidade de 240 mm 6.003 N. A velocidade média de deslocamento do trator foi significativamente maior para a haste protótipo, não havendo diferenças entre as demais.

O efeito da velocidade de deslocamento sobre o esforço de tração estudado por Rowe e Barnes apud Silva (1978) mostrou que ocorre um incremento de 25% no esforço de tração quando a velocidade aumenta de 1,1 para 2,2 km/h. Estes dados demonstram que o esforço de tração da haste Protótipo foi superestimado, pela maior velocidade que lhe foi submetida durante o ensaio.

A potência média na barra de tração exigida pela haste modelo Pé-de-Pato foi significativamente menor que para as hastes Protótipo e Cruzador, porém semelhante à haste modelo Jumbo. Esta, por sua vez, foi semelhante às hastes modelo Cruzador e à haste Protótipo.

Os parâmetros coeficiente de resistência à tração e mobilização relativa do solo, comparados pela Análise de Variância, não apresentam diferenças significativas, podendo ser atribuídas ao acaso.

Em relação ao coeficiente de resistência à tração observou-se algumas tendências para os tratamentos. Analisando-se o comportamento das hastes observou-se que o maior coeficiente de resistência à tração absoluta ocorreu no tratamento haste Cruzador, o qual foi 10,7% superior a (T1); 16,0% (T3) e 31,1% a (T4). A haste Protótipo, por sua vez, apresentou um coeficiente de resistência à tração 5,27% maior que a haste Jumbo, equipamento comumente utilizado e recomendado pela sua baixa necessidade de tração. Em relação à mobilização relativa de 60% em solo da Unidade de Mapeamento Santo Ângelo e 50,7% em solo da Unidade Mapeamento São Pedro, semelhantes aos obtidos no presente trabalho.

A haste Protótipo e a haste Cruzador apresentaram índices mais altos de cobertura de solo com restos vegetais, sendo significativamente superiores às hastes Jumbo e Pé-de-Pato, que não diferiram entre si.

O percentual de cobertura de solo após o ensaio das hastes foi bem inferior ao obtido por Pidgeon (1983), que reduziu em apenas 8% a cobertura de solo com implemento denominado “Paraplow”, semelhante à haste Protótipo. Cruse & Pidgeon (1985) afirmam que escarificadores convencionais incorporam cerca de 30% da cobertura, valor este bem inferior aos 40% de cobertura proporcionados pelas hastes Pé-de-Pato e Jumbo. Estes valores estão diretamente relacionados com a quantidade de resíduos sobre a superfície do solo, antes do preparo. Quanto maior for esta quantidade, menor será a superfície de solo que ficará exposta após o preparo com escarificadores.

Tabela 1 — Esforço médio de tração, velocidade e demanda de potência na barra de tração (Passo Fundo, RS, 1989): Protótipo (T1) — 5.651,14 N b — 1,18 m/s a — 6,66 kW a; Cruzador (T2) — 6.862,58 N a — 0,98 m/s b — 6,72 kW a; Jumbo (T3) — 5.607,19 N b — 0,99 m/s b — 5,55 kW ab; Pé-de-Pato (T4) — 5.196,36 N b — 0,93 m/s b — 4,83 kW b. (Médias seguidas da mesma letra não diferem significativamente pelo teste Duncan, ao nível de 5% de probabilidade.)

Tabela 2 — Coeficiente de resistência a tração (N/dm²) e mobilização relativa de solo (%) (Passo Fundo, RS, 1989): Protótipo (T1) — 1.029,33 — 52,93%; Cruzador (T2) — 1.141,81 — 56,97%; Jumbo (T3) — 984,00 — 57,19%; Pé-de-Pato (T4) — 836,55 — 52,38%. (A Análise da Variância não evidenciou diferenças significativas entre os tratamentos.)

Tabela 3 — Médias de cobertura de solo (%) com restos culturais após o ensaio das quatro hastes (Passo Fundo, RS, 1989): Protótipo (T1) — 64,89% a; Cruzador (T2) — 57,21% a; Jumbo (T3) — 39,25% b; Pé-de-Pato (T4) — 40,53% b.

Conclusões

Nas condições em que o ensaio foi conduzido, concluiu-se que a haste Protótipo é tecnicamente viável, por apresentar uma demanda de potência semelhante à haste Jumbo, que é recomendada pela sua baixa demanda de potência. Por ser semelhante às demais hastes em termos de coeficiente de resistência a tração e mobilização relativa e deixar maior percentual da superfície do solo coberta com restos culturais após a operação de escarificação, pode ser recomendada para áreas com sistema de Plantio Direto.

Vilson Antonio Klein, Rainoldo Alberto Kochhann e Walter Boller — UPF / EMBRAPA-CNPTrigo