“O plantio direto não começou errado no Rio Grande do Sul, como muitos afirmam. O que aconteceu foi que o sistema não possuía o conhecimento, nem máquinas, nem produtos como temos hoje, mas foi somente na interação entre a prática, com poucos recursos, e a teoria que os pesquisadores buscaram e buscam que o sistema foi deslanchando no decorrer do tempo. Ele precisava começar, dar a partida”.
A declaração é do Engenheiro Agrônomo Periguassu Dias, da ICI Brasil, que trabalha com plantio direto no Planalto Gaúcho há 18 anos. Além de ser o principal vetor que a companhia dispôs para incentivar o sistema e a criação de associações destinadas a desenvolvê-lo, Periguassu constitui-se numa espécie de secretário não nomeado e arquivista da memória da criação dos Clubes Amigos da Terra no Rio Grande do Sul.
Em relação ao desenvolvimento do plantio direto em si, ele afirma que as informações foram sendo geradas a partir da necessidade e dificuldades que o sistema apresentava no decorrer da sua implantação. “O PD não começou errado mas sim desprovido do conhecimento necessário, básico, além de não ter os herbicidas e máquinas que iriam aparecer mais tarde para solucionar os principais entraves da nova forma de plantar”.
Histórico
Segundo Peri, o primeiro plantio direto no Estado foi feito em 1973, numa área da FUNDACEP, em Cruz Alta, durante a safra de trigo. Naquela época, já estava no Brasil, pela ICI, o Engenheiro Agrônomo inglês Mike Barker, que possuía experiência em plantio direto noutros países. Periguassu foi trabalhar com ele e acompanhou os primeiros tempos árduos da evolução do sistema.
“O histórico do plantio direto tem vários lances importantes”, afirma o engenheiro agrônomo da ICI. “Mas um que considero dos itens fundamentais foi a adaptação de um kit especial para a PS-6 da Semeato, feita pelos pesquisadores José Portella, da Embrapa, e Richard Loren, da ICI. A partir daí, o plantio direto deslanchou”.
Clubes Amigos da Terra
Mas foi somente em 1982 que surgiram as primeiras associações, que teriam a denominação de Clube Amigos da Terra, com a finalidade de incentivar o desenvolvimento do sistema e trocar experiências entre os seus membros. “Sempre procurando auxiliar de uma forma institucional, a partir do interesse dos agricultores”, segundo Periguassu, “fomos conhecer a experiência do ‘Clube da Minhoca’, na região de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, onde os produtores, em cima de uma necessidade objetiva por causa da fragilidade dos solos, estavam obtendo sucesso com o novo sistema. A partir daí, em reunião com lideranças regionais, foram criados os primeiros clubes: Carazinho, Palmeira das Missões, São Luiz Gonzaga, Erechim, Giruá, Santo Augusto e Passo Fundo”.
Segundo dados da ICI, em 10 anos, com o trabalho dos CATs e outras entidades, o plantio direto cresceu 250%, estando hoje com uma área aproximada de 200.000 ha em toda a região do Planalto, principalmente nas culturas de soja, trigo, milho, cevada e outras coberturas de inverno. A área de plantio direto com cultivo mínimo em arroz, cujo crescimento é significativo nos últimos anos, não entra nesta estatística.
Outro fator importante na divulgação e crescimento do sistema foram as áreas pólos que a ICI instalou a partir de discussões com os membros dos CATs. Hoje existem 5 áreas pólos estabelecidas em regiões estratégicas. Nesses locais são plantadas culturas de inverno e verão de acordo com as melhores tecnologias disponíveis nas fontes geradoras de pesquisas e realizados dias de campo para demonstrar aos interessados.
Uma atitude ética tem pautado a nossa relação com os CATs
Por último, Periguassu Dias ressalta o papel da empresa — a ICI Brasil S/A — no trabalho que realiza junto aos CATs e outros segmentos que utilizam o plantio direto. “Nós sempre pautamos por uma atitude ética na relação com os Clubes Amigos da Terra, procurando incentivar o seu desenvolvimento juntamente com o sistema plantio direto, mas nunca transformando esse trabalho numa propaganda ostensiva de produtos. Nosso objetivo é que haja um desenvolvimento do sistema como um todo, que ocorra uma proteção do solo e uma melhoria da produtividade, sustentável no tempo, que nós possamos continuar prestando esse serviço aos produtores e técnicos. Temos certeza que a imagem positiva que esse trabalho dá como retorno permite a tranquilidade de continuar trabalhando”.
Periguassu Dias — Engenheiro Agrônomo da ICI Brasil