Dados de cinco anos de plantio direto na região de Santa Rosa


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Publicado em: 30/08/1991

Para início de conversa, temos de considerar que a adoção do “sistema de cultivo em plantio direto” deve assumir forma e manejo adaptado a cada situação de solo e estrutura ou, em outras palavras, dizer que nós devemos “inventar” ou “adaptar” o sistema do Plantio Direto em nossas condições, tendo como objetivo obter máxima redução das perdas de água, de solo e de nutrientes. Para isso, para conseguir sucesso em Plantio Direto, não basta apenas adotar uma nova forma de semear (semeadura sobre palha), temos que assumir um novo sistema de cultivo, onde o Plantio Direto fica integrado a um processo constante de rotação de culturas (inverno e verão).

As experiências iniciais de Plantio Direto em nossa região passaram inicialmente pela visão apenas da economia em se fazer semeadura sem o preparo do solo (cultiva-se apenas trigo e soja); no entanto, o estabelecimento definitivo do Plantio Direto passa pela adoção de um novo sistema de cultivo, que visa fundamentalmente a rotação de culturas, com seus benefícios técnicos e econômicos e a obtenção do máximo de palha na superfície do solo.

Por uma situação de introdução desta prática (P. Direto) em nossas condições, é natural que tenhamos muitas dúvidas sobre sua eficiência e vantagens. Apresentamos resultados de análise química de solo (Argila, pH, ISMP, Fósforo-P, Potássio-K, M. Orgânica-MO, Alumínio-Al, Cálcio-Ca e Magnésio-Mg), em diferentes profundidades, e da densidade (poderíamos dizer índice de “dureza” do solo), de um solo cultivado em nossa região, em Plantio Direto já por cinco anos.

Podemos observar que após cinco anos em Plantio Direto, a área não necessita de aplicação de calcário pois os valores de pH (que mede acidez do solo) até a profundidade de 30 cm não são nocivos aos cultivos. O efeito da acidez começa a ser prejudicial apenas a partir de 35 cm (pH 5,2). Portanto até 35 cm não há restrições de pH ou Alumínio trocável que impeça o normal desenvolvimento das raízes. Esta interpretação recebe maior confiança na medida que observamos que até a profundidade de 30 cm o solo não apresenta Alumínio trocável (tóxico às raízes) e a relação e teores de cálcio e magnésio estão em níveis adequados (2,3/1).

Ainda em relação à acidez do solo podemos observar que nas profundidades 0-5 cm e 5 a 10 cm os valores de pH estão inferiores daqueles da profundidade 10 a 25 cm; isto se deve à presença da Matéria Orgânica em níveis elevados e em processo de decomposição na superfície do solo.

Os níveis de Fósforo (P) estão adequados até a profundidade de 15 cm; a partir desta profundidade os níveis identificados tornam-se limitantes aos cultivos, surgindo-se atenções quanto às adubações.

Constata-se que em relação ao Potássio (K), indiferente às profundidades analisadas, apresenta níveis baixos (18 a 61 ppm); o ideal seria a média aproximada de 80-120 ppm, tornando-se nesta situação de solo o fator limitante da produtividade, o qual deverá receber prioridade e atenção nas futuras adubações e manejo.

Em relação à Matéria Orgânica (MO), podemos observar que a manutenção da palha na superfície resultou em níveis de 1,7 vezes maior que a média dos solos de nossa região, até a profundidade de 15 cm; o que é desejável nas funções de reestruturação das características físicas e biológicas do solo.

Outra observação importante é quanto à densidade do solo, ou seja, da compactação do solo. Pelos resultados apresentados de 1,18 g/cm³ (0-8 cm); 1,23 g/cm³ (8-25 cm) e 1,3 g/cm³ (+25 cm) que são bem inferiores à média encontrada em solos de cultivo convencional (1,45 g/cm³ na profundidade de 8 a 25 cm), significa dizer com estes números que no Sistema Plantio Direto em questão temos melhores condições de aeração, porosidade, infiltração de água, agregação e menor resistência física ao aprofundamento das raízes.

Outra observação visual, no perfil do solo, foi a distribuição radicular de plantas de milho que esteve presente de forma concentrada num raio de 30 cm até a profundidade analisada, sem exibir qualquer efeito de tortuosidade imposta por problemas físicos ou de fertilidade.

Contudo, essas conclusões e observações positivas têm como resultado a adoção de rotação de culturas, objetivando produção de palha na superfície, rompimento do ciclo de doenças e pragas e reestruturação do solo pelas raízes. Na área analisada já foram cultivadas: aveia preta, soja, trigo, milho rotacionados ao longo de cinco anos.

Sugestões a partir da análise: Várias são as alternativas para manter as condições positivas e recuperar as situações negativas (baixo teor de potássio e fósforo), entre elas pode-se citar: aração com o objetivo de incorporar Matéria Orgânica superficial e uniformização da fertilidade do perfil do solo; aplicação de Potássio e Fósforo para elevar níveis destes nutrientes.

Obs.: Estas observações e práticas estão sendo conduzidas na propriedade do Sr. Ernani Denardin, Santa Rosa.

Sérgio Luiz Feltraco — Departamento Técnico da Cooperativa Tritícola de Santa Rosa