CAT de Fortaleza dos Valos realizou IIº Seminário


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Publicado em: 30/08/1991

Com a presença de mais de 200 pessoas, entre técnicos e agricultores, muitos representando outros municípios, o Clube Amigos da Terra de Fortaleza dos Valos realizou o IIº Seminário de Plantio Direto, em comemoração aos dois anos de existência da entidade.

Fortaleza dos Valos é um município situado na região do Alto Jacuí, às margens da Barragem do Passo Real, no centro do Rio Grande do Sul, que tem se destacado no desenvolvimento do sistema plantio direto, principalmente pelo trabalho do CAT e da Agropecuária De Bortoli, que planta 5 mil hectares com culturas de verão sob semeadura direta.

O programa do seminário, além de uma tarde de campo, quando foram mostradas máquinas para plantio direto e lavouras de trigo implantadas sob o sistema, constou de duas palestras que mostraram as experiências de duas regiões pioneiras no manejo conservacionista em todo o Brasil.

A primeira delas esteve a cargo do Engenheiro Agrônomo, pesquisador e difusor de tecnologia João Carlos de Moraes Sá — Juca, membro da equipe Técnica da Fundação ABC, de Carambaí, Castro-PR. Juca abordou diversos aspectos de como a entidade à qual pertence desenvolve a tecnologia entre os produtores das cooperativas Arapoti, Batavo e Castrolanda, localizadas na Região dos Campos Gerais do Paraná. Dizendo que o sistema Plantio Direto já está incorporado como uma forma natural de plantar para os agricultores da Fundação ABC e que a assistência técnica tem um valor preponderante para que haja um aumento progressivo da produtividade, o engenheiro agrônomo paranaense falou cerca de duas horas dissertando sobre a sua especialidade: fertilidade do solo. Como tem acontecido nos demais locais onde fez palestras, Juca tem impressionado pela quantidade e clareza dos dados que apresenta sobre essa questão básica que é a situação química e física de nossos solos.

A segunda palestra, que também durou cerca de duas horas, foi feita pelo produtor Herbert Bartz, de Rolândia-PR, que é o pioneiro do sistema plantio direto no Brasil (Ver entrevista na página 16).

Bartz, em duas décadas de trabalho, inquietação, procura e uma aguçada capacidade para superar dificuldades, apesar do seu sotaque germânico, montou uma palestra convincente, que não deixa nenhuma dúvida sobre sua relação com a lavoura.

Para ele, o agricultor que usa o plantio direto é como aquele artista de circo que caminha sobre o arame. Normalmente ele chega ao final de seu objetivo, porém, se acontece uma queda, existe a rede que evita um desastre maior.

Clube

Apesar da boa presença, Marcos De Bortoli, presidente do CAT de Fortaleza dos Valos, esperava uma participação maior dos agricultores do município. Para ele, um dos diretores da Agropecuária De Bortoli, produtora de sementes e distribuidora de insumos, existe a possibilidade de que ocorra uma redução na área de plantio direto na região, em função da seca ocorrida no verão. Fortaleza plantou 45.000 ha de soja na safra passada, sendo que 20% com semeadura direta.

“Nossa preocupação maior é com a formação de mão-de-obra e a difusão do sistema”, afirma Marcos De Bortoli, “pois o agricultor afirma que o plantio direto é muito caro mas, na verdade, ele não conhece bem o esquema, precisa ser melhor orientado. O que não é nada fácil porque os agricultores vêm plantando há vinte anos no sistema convencional e nós estamos recém estruturando o clube”.

A entidade conta com cerca de 50 sócios, mas os participantes reais não chegam à metade desse número, como acontece nos demais. “O problema maior é de cabeça”, enfatiza ele, “o produtor precisa mudar com urgência a maneira de pensar. A lavoura precisa ser vista de outro ângulo e evoluir em tecnologia. A agricultura que se pratica no Rio Grande do Sul hoje é primitiva. É triste, mas é verdade”.

Para tentar quebrar essa perspectiva, o CAT de Fortaleza trouxe dois pesos pesados do Paraná. “Precisamos de medidas de impacto”, conclui De Bortoli.

Paludo

Um dos expoentes do plantio direto na região chama-se Waldecir Paludo, um prático de lavoura que trabalha no sistema há 15 anos. Foi ele um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do manejo conservacionista na Granja Brasão, de Xanxerê-SC. Conhecido em praticamente toda a região do Brasil onde se faz semeadura direta, Paludo veio trabalhar para a Agropecuária De Bortoli há dois anos, com a responsabilidade de desenvolver o sistema em 5.000 ha.

“Estou satisfeito com os resultados”, afirma ele, “pois a prova de nossos acertos está no número de visitantes que recebemos toda a semana aqui na fazenda. Só em março, recebemos 612 pessoas, que nos visitaram durante a seca”.

Segundo Paludo, no início ocorreram dificuldades, principalmente a nível de informação. “O mais difícil é o povo entender o sistema”, prossegue ele. “Na De Bortoli já conseguimos provar o sistema, inclusive sob pisoteio intenso. O próprio capataz não acreditava, mas agora já está convencido. Sempre me diziam que o plantio direto não dava certo no Rio Grande. Mas as empresas de máquinas estavam de costas para o Rio Grande. Eu falei com empresas e disse que investissem aqui e agora, nós estamos provando que dá certo”, afirma Paludo, empolgado. E conclui: “De qualquer forma, não somos os donos da verdade, estamos sempre procurando novas técnicas, não dá pra parar pois sempre existe algo de novo para se buscar e aplicar na lavoura”.

João Carlos de Moraes Sá (Fundação ABC), Herbert Bartz (Rolândia-PR), Marcos De Bortoli e Waldecir Paludo (Agropecuária De Bortoli)