Convênio BASF/FUNDACEP renova perspectivas da pesquisa agrícola no Rio Grande do Sul


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Publicado em: 30/08/1991

“Dentro da área de ciência e tecnologia, um convênio dessa magnitude constitui-se num verdadeiro marco histórico”. A manifestação é do Engenheiro Agrônomo Luiz Pedro Bonetti, diretor da FUNDACEP, de Cruz Alta-RS, durante a cerimônia de assinatura do convênio BASF/FUNDACEP para a pesquisa agropecuária, realizada na sede da Entidade, no último dia 22 de agosto.

Ressaltando a importância do evento, Bonetti afirmou que faltam poucos anos para chegarmos ao ano 2.000, com a expectativa de população de 200 milhões de brasileiros para alimentar. “A agricultura é responsável pela produção de alimentos e quem gera conhecimentos para ela produzir alimentos é a pesquisa. Então, nós temos que investir em ciência e tecnologia”.

Cerca de 200 pessoas estiveram presentes às solenidades de lançamento do convênio, entre eles o Prefeito de Cruz Alta, Fúlvio Bervanger, representantes de várias cooperativas agrícolas do Estado, produtores e técnicos, diretores das faculdades de Agronomia, engenheiros agrônomos e técnicos da BASF.

Falando em nome da BASF, pouco antes da assinatura do convênio, o Gerente Nacional de Marketing Luiz Fernando Sambugaro também destacou a importância que a empresa dá a esse tipo de atividade. Segundo ele, “são empreendimentos que nos orgulham, com respostas técnicas, científicas e comerciais”.

“De qualquer forma”, ressaltou o gerente da BASF, “assinar um convênio é fácil, pois a área física e o recurso financeiro estão disponíveis. O essencial”, complementou, “é a vontade de fazer um trabalho eficiente que atenda às necessidades apresentadas pela sociedade em nossos dias e nos próximos tempos”.

A exemplo do que há tempos vem sendo feito em países desenvolvidos como Estados Unidos, e há mais de 5 anos com cooperativas do Estado do Paraná, como Castrolanda e Agrária Entre-Rios, a BASF e a FUNDACEP, depois de 6 anos de trabalhos desenvolvidos em conjunto, unem-se para efetivar um convênio para a cooperação mútua. É a primeira vez no Estado do Rio Grande do Sul que uma empresa do ramo agroquímico se junta a uma instituição de pesquisa neste tipo de convênio.

Dentro da programação de lançamento do convênio, os participantes tiveram oportunidade de ver, a campo, em exposição feita pelo pesquisador José Ruedell, os resultados das pesquisas efetuadas nestes 6 anos de trabalho em conjunto com a Basf. Os principais resultados positivos estão na área do manejo conservacionista e rotação de culturas.

Convênio

O convênio firmado tem como objetivo principal estudar o manejo integrado de ervas daninhas, pragas e doenças, além de: incentivar a conservação dos solos através do plantio direto e rotação de culturas; avaliar o funcionamento de máquinas, implementos e defensivos agrícolas; avaliar economicamente os sistemas usados nas culturas da região; estudar e avaliar a integração agricultura/pecuária; incentivar a diversificação de culturas; etc.

A FUNDACEP contribuirá com a área para experimentos, pessoal especializado, condução dos experimentos e divulgação dos resultados.

A BASF contribuirá com a doação de equipamentos, insumos, defensivos, recursos para cobertura dos custos operacionais e treinamento de pessoal.

Com a efetivação deste convênio, a BASF e a FUNDACEP esperam contribuir com o setor agrícola, gerando novas tecnologias de alcance prático pelo produtor rural, repassando a este através de dias de campo, boletins técnicos, etc., e assim, proporcionando o desenvolvimento de uma agricultura empresarial lucrativa, preservando os requisitos de segurança e eficiência.

FUNDACEP

Localizada numa área de 533 hectares próxima à cidade de Cruz Alta, a Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa Fecotrigo — FUNDACEP FECOTRIGO — é uma instituição de Geração de tecnologia de produção que, de forma pioneira na América Latina, foi fundada e é mantida pelos produtores rurais cooperativados no Rio Grande do Sul, há vinte anos.

Mantém convênios com várias instituições congêneres no Brasil e no mundo. A FUNDACEP já produziu em seus campos experimentais 24 cultivares de trigo, soja, triticale e milho, as quais vêm sendo cultivadas em cinco Estados do Centro-Sul do Brasil. Produz as sementes básicas de trigo, soja, triticale e milho e também realiza análise de sementes, solo, adubos, corretivos e tecido vegetal. Com mais de 100 projetos de pesquisa conduzidos a cada ano agrícola, a FUNDACEP investiga e gera tecnologias para 14 diferentes culturas que participam do sistema de produção do Sul do Brasil.

BASF

A BASF é um dos maiores complexos químicos do mundo, tendo mais de 125 anos de atividades em pesquisa e produção. Sua sede mundial fica na cidade de Ludwigshafen na Alemanha. O grupo BASF é hoje um conglomerado de cerca de 350 empresas, com fábricas em 35 países, e mantém relacionamento comercial com praticamente todas as nações. No Brasil, há 80 anos está entre as maiores indústrias químicas. Possui um total de 17 centros produtivos, produzindo de matérias primas a produtos acabados de alta tecnologia. A sede no Brasil fica em São Paulo. Dentre os principais produtos BASF fabricados no país podemos destacar Tintas Suvinil, Fitas BASF, Isopor, produtos farmacêuticos Knoll; e na área agroquímica encontramos produtos já bem familiarizados entre os agricultores como Basagran, Poast, Dimilin e Facet.

Bonetti e Sambugaro: entrevistas

Durante o almoço, após as cerimônias que marcaram o lançamento do convênio, Luiz Pedro Bonetti e Luiz Fernando Sambugaro falaram mais tranquilamente sobre o significado daquele ato.

Para Bonetti, diretor da FUNDACEP, “o produtor rural vive um momento de extrema angústia, no momento. E o investimento em pesquisa e tecnologia é uma piada, menos de 0,5% do nosso PIB, que já é pobre. Nos países desenvolvidos é acima de 2,0% e veja o tamanho do PIB deles. Por isso, embora não tenha um significado expressivo em termos de orçamento, o convênio com a BASF é importante porque acaba com o misticismo de que a ligação com multinacionais acarretaria um comprometimento. Acho que isso depende da consciência de cada um e, em relação ao trabalho, conheço maus pesquisadores há 20 anos e sei do potencial que eles representam. Por isso, acho que o convênio será renovado, no final de três anos, porque nós queremos trabalhar e apresentar resultados para a sociedade que nos mantém”, concluiu o chefe da FUNDACEP.

Luiz Fernando Sambugaro é o Diretor Nacional de Marketing da BASF Agrícola e, embora preocupado com a situação agropecuária do Rio Grande do Sul, ele acha que o convênio BASF/FUNDACEP tem todos os elementos para alcançar sucesso porque o principal aporte que a empresa está trazendo talvez não seja o recurso econômico mas sim a experiência acumulada no exterior e, mais recentemente, no Paraná, com diversas cooperativas.

“Outro detalhe importante”, ressalta ele, “é que nós procuramos fazer isso o mais aberto possível. Não tememos em assumir que possuímos interesses comerciais na questão, é claro. Sabemos que o benefício vem de forma indireta para nós porque, à medida que os produtores usaram tecnologia, e não temos alternativas para melhorar a produção de alimentos que tanto o mundo está precisando a não ser aplicando os novos conhecimentos na agricultura, na medida do uso dessa tecnologia nós ganharemos, porque os nossos produtos são mais técnicos em geral que os demais”.

Para L. Fernando Sambugaro, o mais importante na participação da BASF é justamente essa experiência, que permite cortar caminhos, queimar etapas, evitando erros cometidos noutros lugares. “No momento”, conclui Sambugaro, “estamos entrando no Mercosul e, se não nos ativarmos em termos de evolução da nossa tecnologia básica, seremos engolidos pelos nossos parceiros, que já estão mais adiante do que nós. Em vários sentidos, a assinatura deste documento serve como elemento deflagrador de um processo, no mínimo como alerta para nós, para os gaúchos e para a sociedade brasileira como um todo”.

Luiz Pedro Bonetti (FUNDACEP) e Luiz Fernando Sambugaro (BASF Agrícola)