“O sistema plantio direto exige como matéria prima a capacidade intelectual do agricultor de entender a natureza e de como aplicar os artifícios (equipamentos e químicos). Quanto menos ele interfere, menos ele agride a natureza e, quanto maior a sensibilidade do agricultor, maior sua consciência ecológica, mais chance ele tem de ganhar a batalha a longo prazo.”
A afirmação é do produtor Herbert Bartz, produtor rural em Rolândia, no Paraná e primeiro agricultor a introduzir o sistema plantio direto na sua lavoura em todo o Brasil. Dono de uma inquietação, que o levou à procura de solução para os problemas de erosão das terras em que plantava, até no exterior, Bartz perdeu a conta da quantidade de palestras e depoimentos que deu nestas duas décadas. O Jornal do Plantio Direto acompanhou duas de suas exposições mais recentes, nos Seminários de Gramado e Fortaleza dos Valos (no Rio Grande do Sul), e apresenta aqui algumas de suas opiniões a respeito do histórico e perspectivas dessa verdadeira filosofia que é o sistema plantio direto.
Início
“Em 1971 eu estava preocupado com os graves problemas de erosão na minha lavoura e, à procura de soluções, fiquei sabendo que o sistema ‘no tillage’ já estava sendo usado nos Estados Unidos há mais de 10 anos. Fiz uma viagem de pesquisa nesse sentido pela Inglaterra e Estados Unidos em 1972. Fiquei entusiasmado com o que vi nos USA e, mesmo sem saber como pagar, encomendei a primeira máquina de plantio direto, uma Allis Chalmers. Ela chegou em outubro e, imediatamente, começamos a semear”.
“No começo tivemos que nos contentar em empatar a produtividade, comparando com o sistema convencional, principalmente porque naquele tempo não havia tecnologia para o controle de invasoras, como hoje. Existia só Gramoxone e 2,4-D”.
Desenvolvimento
“Embora hoje esteja bem mais difícil começar, é inacreditável ver o que evoluiu o sistema em duas décadas. As nossas máquinas hoje têm um nível tecnológico equiparável às estrangeiras ou talvez até as superem, porque nós temos que plantar em condições mais adversas. As empresas químicas fizeram uma grande façanha nesse período, ao desenvolverem herbicidas capazes de eliminar invasoras indesejáveis sem afetar a cultura principal, como se fosse uma arma guiada por radar, usadas nas guerras modernas. Se não fosse essa tecnologia desenvolvida para o plantio direto, hoje eu estaria na falência, mas, graças a ela, tenho condições de enfrentar as adversidades climáticas e as que o governo nos proporciona”.
Produtividade
“Essa tecnologia aplicada corretamente nos permite hoje colher produtividades que superam as do plantio convencional. Nesta última safra, que foi muito prejudicada por verânicos, colhi uma média de quase 10 ton/ha de milho. Numa faixa privilegiada, onde ocorreram condições extremamente favoráveis, colhi 12 ton/ha, que é um índice 5 a 6 vezes acima da média nacional e o dobro daquilo considerado como bom. A última frustração de safra que tive foi em 76/77, devido a uma forte seca. De lá para cá, entretanto, as colheitas foram se superando. Na lavoura de soja, minha média é de 3.000 kg/ha, sem uso de fertilizantes, o que se configura uma situação bastante confortável”.
Palha
“A palha é uma parte vital do sistema. Se ele não tem palha suficiente no início, as chances de sucesso são menores. Se a palha é abundante, acima de 6 ton/ha, o sistema vinga e nós podemos economizar com herbicidas e outros itens. Dessa forma, o sistema traz para o agricultor benefícios que ele nem imaginava antes. Dentro desse contexto, é essencial que o agricultor se conscientize para a rotação de culturas porque somente soja e trigo não proporcionam palha adequada, para garantir o controle da erosão e o manejo adequado da umidade, além de não permitir a elevação da fertilidade do solo”.
Búfalos
“O excesso de palha é tão prejudicial quanto a falta, nas nossas circunstâncias. Quando colhemos milho acima de 8 ton/ha e semeamos aveia, a massa gerada ultrapassa os limites e fica similar às gorduras de uma pessoa, que lhe trazem problemas de saúde. O excesso de palha é um fator limitante e nós tivemos problemas com centopéias há alguns anos atrás. Noutro ano, em condições similares, tivemos um problema com lesmas. Então, para resolver o problema da quantidade excessiva de palha, começamos a usar enfardadeiras e alimentar búfalos, o que, além de resolver a situação, trouxe um aporte econômico sempre bem-vindo”.
Custos
“A redução de custos no plantio direto é possível, principalmente no consumo de combustível e horas de trabalho. Em termos gerais, o sistema permite uma redução de horas trabalhadas e redução no consumo de combustível em torno de 60 a 65%. Temos outras economias, como na aplicação de herbicidas. Podemos reduzir em torno de 50% a quantidade de herbicidas se fizermos uma aplicação correta, dentro da melhor tecnologia, que envolve hora de aplicação, umidade adequada, orvalho, etc.”
Filosofia
“Inicialmente, nós entramos no processo preocupados com a erosão. Num período de duas décadas, a coisa evoluiu para uma filosofia de trabalho, que direciona a integrar a atividade agrícola dentro do sistema de exploração agropecuária. No meu caso, o respeito com a natureza tem sido a preocupação de conservar o patrimônio. Hoje chamaríamos isso de uma consciência ecológica, uma preocupação com o solo.”
“A agricultura moderna, que inclui o plantio direto, é baseada num tripé: capital, tecnologia avançada e homem qualificado, com inteligência e capacidade. Com essa trilogia, incluindo plantio direto como prática conservacionista, nós temos condições de produzir alimentos de forma econômica e resolver o problema da fome no país.”
Herbert Bartz — produtor rural de Rolândia-PR, primeiro agricultor a introduzir o plantio direto no Brasil