Em agosto de 1990, um grupo de produtores e técnicos das cooperativas — Agrária, de Guarapuava; Capal, de Arapoti; Batavo, de Carambéi e Tibagi; Castrolanda e Witmarsun, todas do Paraná, além de um engenheiro agrônomo da Basf, viajaram aos Estados Unidos, em visita técnica a diversos estados produtores de cereais. Por gentileza de um dos coordenadores técnicos da excursão, o Engenheiro Agrônomo João Carlos de Moraes Sá (Juca), da Fundação ABC que fêz o relatório das visitas, estamos apresentando 3 tópicos relacionados com manejo conservacionista e plantio direto nos Estados Unidos. Os trabalhos escolhidos são do Dr. Bob Blevins, especialista em manejo do solo, da Universidade do Kentucky — Ensaios com plantio direto em Milho; do Dr. Bill Wenson, especialista em herbicidas, da Universidade da Geórgia — Ensaio de plantio direto em algodão; e do Dr. Ted O. Ware, Ph.D. fitopatologista da Basf americana — Observações sobre o Cancro de Haste.
ENSAIOS COM PLANTIO DIRETO EM MILHO
Em 1970, foi implantado um ensaio de plantio direto continuamente com milho. O objetivo, nos primeiros 10 anos, foi avaliar o comportamento do solo e da planta sob dois aspectos: a) Como o solo reagiria a uma rotação contínua com uma espécie; b) Quais seriam os fatores limitantes na cultura do milho com relação a sua nutrição.
Originalmente, o solo possuía as seguintes características:
pH = 5,5;
pH atual = 6,5 a 7,0
Argila = 25%
Silte = 65%
M.O. = 4,5% (nos primeiros 5 cm)
CTC = 14 meq/100 g
Rocha Matriz = calcário
Fósforo = > 60 ppm
Observações do pesquisador:
Nos primeiros 10 anos de P.D. continuamente com milho, o pH abaixou para 4,0 a 4,5, em função da adubação nitrogenada. A produção acumulada nesses 10 anos, foi maior no sistema P.C. do que no P.D. Foi atribuído à melhor reciclagem de nutrientes, principalmente nitrogênio e melhor stand no plantio convencional. Foi determinada a aplicação de calcário na superfície em P.D. totalizando 8 ton/acre nos últimos 10 anos. Foi observada a mudança do pH para 6,0–6,5, lentamente ao passar dos anos. Atualmente, a recomendação de calagem está baseada na rotação em função da quantidade de nitrogênio aplicado ao longo dos anos na cultura do milho. A adubação utilizada foi com N e K, à lanço, sem necessidade de fósforo devido à riqueza deste elemento no solo.
Nos últimos 4 anos, foi introduzida a rotação com leguminosas e gramíneas no ensaio, sub-dividindo as parcelas, com ervilhaca e centeio respectivamente. Foi observado o efeito das coberturas no milho, sendo mais intenso o efeito da imobilização do nitrogênio pelo centeio no sistema de plantio convencional. Segundo Dr. Blevins, a introdução de ervilhaca uma vez a cada 4 anos seria altamente benéfica para o balanço do nitrogênio no solo e melhor atividade biológica da palha no solo.
Nas parcelas de P.D., não foi necessário o revolvimento, nem mesmo a escarificação, porque não foi observada camada compactada. Em áreas de lavoura comercial, onde o maquinário utilizado é de grande porte e tráfego mais intenso, tem sido observado problemas de compactação. Neste caso, a recomendação da Universidade de Kentucky é o uso de escarificadores, até a profundidade onde identifica-se a compactação. Outra situação em que ocorre a compactação, são as áreas com solos arenosos, mais sujeitos a esse problema. A maioria dos agricultores do Estado de Kentucky, que fazem o P.D., realizam, a cada 3 anos uma operação com escarificador. Neste estado, 25% das áreas de milho, são em P.D. e aproximadamente, 70% da soja após o trigo, em plantio direto.
Na cultura do trigo, a prática adotada pelos agricultores é o plantio mínimo (P.M.), cujo manejo da palha se inicia logo após a colheita do milho. É comum o uso de desintegradores na resteva de milho, deixando a palha bem picada. Posteriormente usa-se uma grade, e em alguns casos, o escarificador acoplado à grade em uma operação, quando detectada camada compactada. A rotação de culturas praticada pelos agricultores de Kentucky é a seguinte:
milho — trigo — soja — pousio — milho
(P.D.) — (P.M.) — (P.D.) — — (P.D.)
A utilização de nitrogênio para a cultura de milho é em torno de 150 kg/ha. A leguminosa (ervilhaca), contribui ao solo com 70 a 80 kgN/ha. A filosofia do P.D. (Dr. Blevins) é conservacionista, com vários objetivos:
— Economia de tempo;
— Menos trânsito de maquinário;
— Economia de combustível;
— Manutenção [?adequada?] da estrutura do solo;
— Armazenamento de água no solo;
— Menor poluição de rios e águas subterrâneas por fertilizantes e defensivos.
ENSAIO DE PLANTIO DIRETO DE ALGODÃO
No estado de Georgia, os pesquisadores têm estudado o plantio direto na cultura do algodão, objetivo desses trabalhos, visam compreender melhor a relação do problema de pragas com a rotação de cultura e o manejo do solo. Os solos arenosos, relevo suave ondulado e queima dos restos culturais, têm causado sérios problemas de erosão. Segundo Dr. Bill, o segredo do plantio direto do algodão naquela região é a compreensão do ciclo biológico das pragas, para definir uma estratégia de manejo, a rotação adequada e o espaçamento entre linhas, para melhorar a eficiência do controle de ervas. O algodão não tolera competição por ervas daninhas. Outra vantagem que o plantio direto tem oferecido na Georgia é o melhor comportamento da soja e algodão no período de estiagem. O algodão no ensaio de P.D. estava com ótimo aspecto vegetativo e boa formação de capulhos. Tanto que este ano, com o problema de estiagem, o melhor algodão será das áreas de P.D.
A cultura da soja tem sido prejudicada por problemas de pragas. As mais frequentes são os trips e a broca de solo. A área de soja, no Estado da Georgia, diminuiu sensivelmente nos últimos anos, devido a problemas com pragas, doenças, estiagens frequentes e preço baixo. O custo de produção está em torno de [?US$ 30/ha?] (informações do técnico da BASF James Turner).
Está sendo desenvolvido na Universidade da Georgia um programa incentivado pelo Governo para erradicação do bicudo no algodão. Consiste em instalar armadilhas e monitoramento constante para avaliar todas as mudanças no hábito desta praga. Entretanto, atualmente ainda está sendo muito usado o Temic na cultura do algodão para controle desta praga. Nos próximos [?cinco?] anos este produto será proibido e retirado do mercado por problemas toxicológicos e poluição do ambiente.
OBSERVAÇÕES SOBRE O CANCRO DE HASTE
O agente causal desta doença (Diaporthe) se dissemina quando as condições climáticas forem de elevada umidade e temperatura acima de 20 graus. A infecção ocorre a partir da terceira folha, permanecendo essas condições a manifestação dos principais sintomas visuais se darão na formação de vagens. Entretanto se não ocorrerem condições favoráveis para o fungo durante a fase de florescimento e formação de vagens, o ciclo será interrompido, não causando problemas na produção.
O fungo é transmitido a longa distância pelo vento. Ainda não estão concluídos os trabalhos sobre a disseminação desta doença via semente e máquinas agrícolas. Da mesma forma não está comprovado o controle via tratamento de sementes. Muitos estudos estão sendo realizados e serão publicados em 91/92.
Foi citada que solos com drenagem ruim propiciam infecções mais intensas do que em solos com boa drenagem.
A principal forma de controle desta doença nos E.U.A. é através do uso de variedades resistentes. Este programa foi iniciado a mais de 20 anos. A variedade resistente quando em contato com o fungo sofre uma necrose, porém não há evolução dos sintomas sem interferência na produção.
Foi citada a possibilidade de uso de fungicidas em pulverização para o controle desta. O tratamento seria com Benomil levando-se em conta o histórico da doença na área. O tratamento controlaria a doença até 3 semanas. Em caso das condições permanecerem propícias ao desenvolvimento do [?fungo?] haverá necessidade de reaplicação. O Dr. Ted comentou que este tratamento não é eficiente. Sugeriu as seguintes orientações técnicas:
a) Uso de variedades com maior tolerância ou resistência;
b) Evitar áreas de drenagem ruim;
c) Rotação de culturas com plantas que interrompam o ciclo da doença (aveia, milho).
Segundo o Dr. Ted, em 14 meses o fungo desaparece nos restos de cultura. Em plantio direto necessita de pelo menos dois anos de rotação para reduzir sensivelmente o inóculo.
relato compilado pelo Eng° Agr° João Carlos de Moraes Sá (Juca, Fundação ABC) sobre visita técnica de produtores e técnicos das cooperativas Agrária, Capal, Batavo, Castrolanda e Witmarsun aos EE.UU em agosto/1990. Inclui ensaios PD em milho (Dr. Bob Blevins, U. Kentucky), PD em algodão (Dr. Bill Wenson, U. Geórgia) e cancro de haste (Dr. Ted O. Ware, Basf americana)