“Em solos semelhantes ao nosso, a introdução do programa de plantio direto na palha é uma questão de lógica, de racionalidade. Se o agricultor fizer o contrário e fazer aquilo que praticávamos há 15 anos atrás, pulverizando o solo com gradagens sucessivas para melhorar o desempenho dos herbicidas e perder um volume considerável de solo, será reviver uma aventura pela qual passamos e que considero um sinal de desequilíbrio mental, o cidadão não pode estar certo da cabeça, tem que se tratar. Para os mais íntimos, eu uso a figura do fumante. Este sabe que está se prejudicando, são 200 mil mortes por ano só no Brasil, muita morte súbita inclusive. Na relação com o solo é similar, ele sabe que a fertilidade vai embora, fica a compactação e a baixa produtividade, um solo sem vida. Parar de fumar ou fazer plantio convencional é uma questão de conceito pessoal, uma decisão de cada um, mas sabemos que os dados são claros, só se engana quem quer.”
O produtor rural Manoel Henrique Pereira (Nonô), um dos pioneiros no sistema plantio direto nos Campos Gerais do Paraná fala com firmeza sobre a questão do manejo do solo e, principalmente sobre o que ele chama de “programa”, que é a tecnologia do plantio sem lavrar, semeando sobre a resteva da cultura anterior, que tem seu maior expoente na região de Ponta Grossa, onde ele recebeu o Jornal do Plantio Direto para contar a sua história e a do Clube da Minhoca.
Dentro da sua característica, Nonô manifestou opiniões firmes, um cabedal de conhecimentos da tecnologia e da história de quem vivenciou o desenvolvimento do sistema batalhando sempre na linha de frente. “Hoje, prossegue ele, se a coisa não vai melhor, se não estamos num nível que valorize todo esse esforço, não é mais responsabilidade da área técnica, nem científica e, muito menos, do produtor. É o momento das dificuldades econômicas, dos abalos, dos choques que recebemos, desses tabelamentos em épocas de colheita, dessas interferências todas, desses desregramentos. O abalo maior é o econômico, não o [?técnico?].”
Segundo Manoel Henrique Pereira, “para quem começa hoje no plantio direto, as condições de sucesso são totais, existe um caminho, aquele que muitos de nós trilhamos. Hoje não voga mais aquela fábula de que o plantio direto só dá retorno depois do 3º ou 4º ano, por um monte de explicações que hoje não são mais verdadeiras. Você não precisa repetir situações, isso tudo foi resolvido. Os tropeços ficaram catalogados, isso tudo está registrado numa verdadeira biblioteca desses 15 anos”.
Apresentamos aqui um resumo da narrativa feita por Nonô, em seu escritório de Ponta Grossa, no final de setembro, onde estão uma mistura de opiniões, elaboradas durante todo esse período, com a história do Clube da Minhoca, cuja denominação foi criada dentro de um avião, na volta dos Estados Unidos, em 1979.
COMEÇO
“Quando eu fugi da escola, em 1958, comprei um trator financiado e fui plantar nas terras do meu pai. Em seguida compramos uma área maior, em Palmeira, que começamos a trabalhar por volta de 1962. A produtividade era razoável para a época mas, em seguida, já começamos a identificar problemas com o manejo de solos. A região de Palmeira possuí um afloramento de rochas bastante frequente, os solos são rasos e arenosos. Durante 10 anos, até perto dos anos 70, insistimos nesse sistema de produção. Aí, as coisas começaram a acontecer. Por essa época, quando ocorreu o primeiro choque do petróleo, guerra entre árabes e judeus, com aumento significativo dos combustíveis, aconteceu também uma redução nos financiamentos, como o início da retirada dos subsídios, os recursos começaram a ser mais taxados e nós levamos um susto. Diminuímos cerca de 50% a área plantada. Mas o problema maior era o manejo do solo. A planta sofria no começo, as primeiras chuvas cimentavam o solo, exigindo um gasto extra de energia para emergir. Quando a chuva era torrencial, acontecia o que todo mundo sabe: o solo ia embora junto, com plantas, fertilizantes, herbicidas e tudo mais. Chegamos à conclusão, junto com auxiliares, que insistir naquele tipo de manejo era loucura.”
ASSOCIAÇÃO CONSERVACIONISTA
“Esse quadro degenerativo dos solos, que não era só privilégio meu mas um problema de toda a região, acarretou algumas reações importantes, que resultaram na criação da Associação Conservacionista de Ponta Grossa, com apoio da Acarpa, cooperativas, entidades de pesquisas e empresas particulares. Isso por volta de 1973. Os bancos assumiram a questão juntos e o gerente do Banco do Brasil, Cícero Ferreira, tinha uma consciência muito grande da importância da conservação do solo. Por isso, a liberação de financiamentos rurais estava condicionada a um laudo da Associação, que possuía um corpo técnico poderoso, que ia a campo para locar terraços e dar outras orientações sobre o manejo conservacionista.
Na minha área, os técnicos da ACPG propuseram e locaram terraços de base larga mas, numa declividade acentuada, os terraços quase se tocavam e, nos locais mais acentuados, havia uma super posição na passagem de grades e outros implementos. Era onde a água turbilhonava e levava de vez o solo embora. No seguimento, os mesmos técnicos chegaram à conclusão e foi o laudo deles, de que minha área era inviável para agricultura. ‘Você já está há 15 anos nessa área e já fizemos tudo o que era possível’, disse ele, ‘então não posso recomendar mais tua área para lavoura’. Só que eu tinha arado, grade, semeadeira, trator, tinha um barracão cheio de ferro, que eu devia a curto prazo. A recomendação dele foi de que passasse para a pecuária mas eu não tinha recursos nem gado para cobrir toda a área e muito menos para cobrir meus débitos. Abandonar a agricultura era impossível mas obter recursos para continuar também se demonstrou inviável porque eu fui ao banco com a proposta, carta de anuência, firma reconhecida, avalista, um monte de coisas mas não tinha o laudo da Associação, de que poderia plantar. Fiquei acuado.”
INÍCIO DO PLANTIO DIRETO
“Pressionado por essa situação, procurei socorro com técnicos e colegas e alguns acontecimentos começaram a mostrar uma luz para a resolução do problema. A primeira resposta me foi dada pelo engenheiro agrônomo Américo Meinick. Quando manifestei minhas preocupações, no dia seguinte ele me apresentou um material traduzido de uma revista americana, onde falava sobre o sistema plantio direto que eles vinham fazendo, as máquinas em uso e os volumes de solos que preservava. Visitei em seguida as lavouras do Herbert Bartz, em Rolândia e do Dr. Braulio, no norte do Estado. Em Londrina, quando era diretor da OCEPAR, participei de um curso de atualização, onde um americano falou sobre o manejo de ervas com Paraquat.
Na mesma ocasião, outra palestra que me impressionou foi a do pesquisador do IAPAR Osmar Muzzili, que me assustou com a quantidade de fertilizante que estávamos colocando fora. E de fato, nós usávamos 1 tonelada por alqueire para trigo e outra para soja. E colhíamos pouco mais de 3 toneladas.
Por aquela ocasião, como toque final nas minhas inquietações, vi uma palestra do engenheiro agrônomo Rubens Bemerguí, da ICI, em Ponta Grossa. Ele já trouxe uma semeadeira RotaCaster. Aquilo tudo me jogou num desafio. Fui à revenda e comprei a máquina, só que a assistência técnica da cooperativa não quis fazer meu projeto porque eu estava mal das pernas, tão anêmico que eles não quiseram me avalisar, acharam uma loucura. No meu museu, tenho até hoje a nota de compra da máquina. Mas eu tinha que tocar e comecei o plantio direto com 20 ha, isso em 76. De vez em quando o Rubens da ICI aparecia para dar notícias de um ou outro que estavam fazendo a mesma coisa, era uma estrela em cada canto. Foi um parto. O picador de palha embuchava, não estávamos acostumados a picar palha de trigo, na verdade o costume era colher sem picador e já sair com o fósforo atrás, a palha de trigo era uma gasolina. Passamos uma roçadeira e plantamos os 20 ha. Deu umas bombas d’água e a área ficou intacta, ao contrário do convencional, em que aconteceram problemas. Depois foi outra história, choveu granizo e a maior incidência de luz trouxe uma infestação de ervas. O controle de ervas sempre foi uma pedra no sapato do plantio direto, sempre foi o argumento do produtor que relutava em entrar no processo. Mas em 77 nós plantamos soja na resteva da cevada e aí a coisa evoluiu. Plantamos 200 kg/ha e a produtividade foi para 2.000 kg/ha, apesar de todas as limitações.”
DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA / VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS
“Nos anos que antecederam a década de 80, o plantio direto desenvolveu-se meio na marra e alguns ítens foram importantes para que a coisa andasse. A semeadeira Rotacaster foi aposentada, pela sua pouca capacidade de carga. Em 76, o Frank já estava usando uma PS-6, sem disco de corte. Com uma mola mais forte, entrando num solo leve ele conseguiu fazer uma área mãe, como eu chamo. No 3º ano, o Sr. Paulo Rossato, naquela época proprietário da Semeato, a pedido meu e do Frank enviou meia dúzia de Kits com o disco ondulado. De lá para cá tudo andou melhor, tínhamos máquina com boa capacidade de carga, fazendo trabalho melhor na distribuição de sementes. Apareceram produtos novos importantes, como o Glifosate. Naquela época já fomos criativos, aplicamos 1,5 l/ha quando a recomendação era de 3,1 l/ha, e tivemos bom resultado, o que ajudou a viabilizar o [?programa?].”
“Mas se internamente nós estávamos entusiasmados com o programa, em 79 nós tínhamos 6 safras e um volume grande de acusações. Muitos nos acusavam de sermos consumidores de produtos, com alteração no meio ambiente, intoxicando plantas, o solo e a nós mesmos. Eu e o Frank não víamos advogados de defesa, internamente parece que não tinha muita gente ligada no assunto, principalmente na área científica. Além disso, principalmente por causa das dificuldades com máquinas, nos anos 70, tinha muita gente fazendo plantio direto com palha queimada e o cidadão achando que aquilo era plantio direto. O que vinha de ervas, era um verdadeiro enxame. Com esse quadro ainda desfavorável em termos de imagem e com muitas dúvidas, eu e o Frank reunimos algumas economias e fomos para a América. Pegamos o material de que dispunhamos e fomos dar uma volta na área que difunde até hoje o plantio direto: Corn Belt, Ohio, Illinois, Kentucky, com o Shirley Phillips, que nos deu toda atenção e que demonstrou interesse em vir ver o programa no Brasil. Em 1980 ele ficou um mês conosco, visitando área por área. Lá mesmo, nos Estados Unidos, ele já tinha fornecido algumas idéias básicas para nós. No gabinete dele, naquela visita de 79 ele afirmou: não se preocupem, vocês têm dois pontos importantíssimos: é o regime de chuvas e a temperatura. Com água e temperatura adequada vocês terão sucesso no programa. Nós levamos um questionário de 50 perguntas para ele, desde inquietações a respeito do resíduo dos herbicidas (todo mundo afirmava que isso seria um problema) até a questão crucial da calagem, que era um desafio. Como iríamos fazê-la sem revolver a terra quando as escolas de agronomia mandavam incorporar em duas ou três vezes? Ele foi categórico: não se preocupem pois a umidade e a temperatura vão resolver esse problema, deixem tudo por conta da natureza, a umidade e a decomposição da palha vai dar condições de utilização desse corretivo pela planta. Só não apliquem doses exageradas. Conclusão: nós viemos de lá otimistas e providenciamos, graças ao complexo Coopersul, uma vinda do pesquisador americano, que foi um fato marcante para o desenvolvimento do sistema.”
CLUBE DA MINHOCA
“O entusiasmo tomou conta de nós e, no avião mesmo, resolvemos armar um processo de difusão daquilo que tínhamos absorvido nos Estados Unidos. Durante a viagem montamos um plano para a vinda do Shirley Phillips ao Brasil, que era uma maneira de dar uma injeção de ânimo na assistência técnica. Procuramos alguns agrônomos que falavam inglês. Mas precisávamos de um nome para esse núcleo de difusão da tecnologia. Aí, durante o vôo, eu sugeri para o Frank Dijkstra: que tal ‘Clube da Minhoca’? E ele achou ótima a idéia. Então, o ‘Clube da Minhoca’, que não teve nada a ver com Clube de pescadores, como muitos perguntavam, mas foi um esteio na divulgação e desenvolvimento do plantio direto em todo o sul do país, nasceu de uma conversa de dois turistas pesquisadores a bordo de um avião que voltava dos Estados Unidos. Não sei se sou portador de muitas minhocas ou se elas convivem no meu aparelho digestivo mas uma das minhas perguntas para o Shirley Phillips foi de quando eu teria minhocas na minha lavoura. Eu já estava na 6ª cultura consecutiva com plantio direto e ele me disse: você já tem minhocas na sua área, só que você não procurou direito. Com essa água que você recebe e essas camadas que deixaram de ser queima[?das?]” [trecho final fragmentado no OCR]
[Continua o relato:] “Achei uma. Tive o trabalho de fotografá-la, media uma polegada. Esse, para mim, foi o momento mais sá[?bio?] do programa, sem dúvida foi uma evolução. As [?coisas?] começaram a ir para o lado que a gente gostaria. [?Daí em diante?] passamos a perceber mais de [?queimada?]. Também o entusiasmo da região aumentou não só em nível produtor, que era mais lento, mas em nível dos [?técnicos?]. Quem lucrou muito com isso foi a indústria de implementos e semeadeiras, que sempre foi buscar subsídios no campo para suas inovações. Passou a fase crítica. Em 81 fizemos o primeiro Encontro Nacional, vieram os seguintes em 83 e 85, com presença daquele que nos incentivou no início, Mr. Shirley Phillips. A década de 80 foram os anos do apogeu do [?plantio direto?] com o qual nós estávamos convivendo mas que não [?dominávamos por com?]pleto era a palha. Hoje nós sabemos que o manejo da palha é o fator básico para o sucesso do PD.”
Manoel Henrique Pereira (Nonô) — produtor rural de Ponta Grossa-PR e um dos pioneiros do plantio direto nos Campos Gerais. Entrevista cobrindo desde 1958 (compra do trator), Associação Conservacionista de Ponta Grossa (1973), início do PD (1976, semeadeira RotaCaster), viagem com Frank Dijkstra aos EUA (1979) e a visita do pesquisador Shirley Phillips (1980) — origem do nome 'Clube da Minhoca'