“Quando passar o comando da lavoura aos meus filhos, deixarei para eles uma terra muito mais fértil do que a recebida de meu pai, há 20 anos atrás. Essa será uma grande satisfação, que me deixará com a consciência tranquila.”
Considerado como um poeta e radical do sistema plantio direto, pois não admite mexer na terra, Luiz Graeff Teixeira é engenheiro agrônomo e produtor de sementes em Coxilha, a 15 km de Passo Fundo. Neste depoimento ele fala sobre sua história na agricultura e as perspectivas do plantio direto na Bahia.
“É difícil modificar hábitos. É preciso estar consciente daquilo que se está fazendo de novo. A consciência do homem é um ponto fundamental para mudar alguma coisa.” As observações de Luiz Graeff Teixeira são indicativos de onde se começa a mudança de postura em relação à terra, passando do plantio convencional para o direto.
Para formar essa consciência, sustenta ele, temos que viver os fatos. E no caso do agricultor isso dificilmente acontecerá se vive na cidade, indo na lavoura no sábado e domingo para ver o que está bem. De repente o que está ruim nem se quer ver. “Em vinte anos de lavoura sei que às vezes não quero ir ver o que está mal, mesmo estando lá dentro todo dia eu desvio. Então, essa parte da consciência é fundamental e para a pessoa formar um Juízo correto precisa estar no local nos momentos bons e ruins” — acrescenta.
“Não acredito que alguém que tenha plantio convencional e vê cair as últimas chuvas do começo da primavera, que constate o que se perde com a erosão, que fique alheio. Ninguém é tão imbecil de não querer ver uma situação dessas. Isso apenas no aspecto erosão, que é muito grave, mas que não é tudo, é só uma gota d’água. O plantio convencional só perde, não tem como evitar a erosão, e exige reposição de fertilizantes, de corretivos, de mais máquinas”, enfatiza Teixeira.
Ele não consegue admitir que no Planalto Riograndense e em Santa Catarina, fiquem lavouras descobertas no inverno, sujeitas à erosão, pela idéia de que as culturas não são rentáveis nesse período. “É uma idéia errada. Com uma cultura de cobertura, que não seja só para vender o grão, vamos ter lucro indireto, que será reinvestido nas safras seguintes em termos de matéria orgânica, ausência de erosão. A palha depositada irá se decompor, se tornar um substrato para os microorganismos que vivem ali. Vamos gerar solo ao invés de perder, como acontece no plantio convencional.”
No convencional há perda de solo, no direto além de evitar tal prejuízo se enriquece o solo. “Como diz nosso amigo Carlos Crovetto, em tais condições estamos ganhando um centímetro de solo por ano, coisa que a natureza leva 400 anos para formar” — destaca. Lembra que o Chile teve cem anos de erosão para começar a reverter o processo e nós estamos em melhores condições, pois só estamos perdendo há 40 anos.
INDEPENDÊNCIA
Essa idéia independe do Governo de dar, por exemplo, condições de plantar trigo, pois ele não tem política agrícola. “Dentro do plantio direto você pode fazer o que quiser da cobertura morta, já que a lavoura de aveia é de baixo custo, pois não é necessário usar alta tecnologia para cobrir o solo. E no caso do trigo e da cevada, como aconteceu em 1991, se tem condições de transformar em ração. Não teremos grandes lucros mas não teremos prejuízos. O lucro será a longo prazo. E aí se faz um esquema com pecuária, que é o futuro para nós aqui no Rio Grande do Sul.”
O sistema plantio direto “é inteligente, ele lida com a natureza que é inteligente e vai nos ensinando certas coisas. Muitas aprendemos na dor. Se soubermos entendê-las aprenderemos com mais facilidade, sem dor. Por exemplo, na rotação de culturas no trigo nós apanhamos aí uns dez anos com frustrações, doenças radiculares e outros problemas até que concluíssemos que precisávamos fazer a rotação. As instituições tiveram que praticamente obrigar o agricultor a fazer rotações porque ele não queria.
O plantio direto, com gente fazendo há mais de vinte anos, tem informação de que deixar a palha agrava muitos problemas de doenças fúngicas, porque se está deixando o patógeno ali. Então, a maneira adequada de lidar é com rotação. O próprio sistema ensina a maneira correta de fazer agricultura. A diversificação é prática que dá mais segurança, mais rendimento em todas as culturas, melhor controle de pragas e doenças. Permite uma reciclagem de nutrientes, pois as plantas têm raízes e exigências nutricionais diferentes. Essa harmonia vai depender de cada região e da sensibilidade de cada agricultor. De repente se chega à conclusão que precisa fazer dois anos de milho e um de soja, um de pastagem, feijão, dependendo do local e situação de mercado.
“Quando comecei a fazer plantio direto não fiz 50 ou 100 hectares. Estava convicto de que o sistema era adequado, eu só não tinha tecnologia na mão, faltavam algumas certezas. Mas já comecei com mil hectares e de lá para cá evoluí economicamente porque comprei alguns pedaços de terra. Não tenho grandes patrimônios na cidade, meu patrimônio está lá fora”, diz Teixeira.
A BAHIA
O oeste da Bahia é de terras pobres, um cerrado que não tem quase nada, onde é preciso calcário para corrigir a acidez, fósforo, cálcio, magnésio. O terreno é arenoso, com mais de 70% de areia (no Sul a argila é de 53%). A terra não tem estrutura, não tem colóides, matéria orgânica, não retém o fertilizante, e tudo que se aplica vai embora com as chuvas. Uma vantagem é que as áreas são planas, mas mesmo assim a erosão é acentuada porque as chuvas são intensas, de 50/60mm, provocando compactação como no Rio Grande. Uma paulada de água dessas, logo depois que a lavoura foi plantada, forma uma crosta na superfície, com problemas de germinação e baixo stand.
Ali está chegando o plantio direto. Como chove por seis meses e outros seis são secos, o problema é formar alguma palha no período seco, para tê-la na hora de plantio, no início das chuvas. Essa é a maior dificuldade.
Como a partir do 2º/3º ano inicia a infestação de ervas está se usando, em princípio, o próprio inço como aliado. Após uma dessecação, com avião, usando um produto sistêmico, planta-se em cima dessa palha. Como não chove, há um atenuante, a decomposição é lenta. Em junho, julho e agosto não chove, as temperaturas são altas e seco, a atividade microbiana se reduz e a palha permanece sem decompor.
“Quando ameaça chover começam a brotar as coisas. Nas primeiras chuvas — as chuvas da flor do cajú, como chamam — verdeja tudo. Com mais algumas chuvas, em outubro, há uma atividade impressionante na natureza. Com o decorrer do tempo, sem lavrar, a estrutura do solo começa se modificar. E essa modificação é provocada pelo milagre da matéria orgânica. Não se tem argila mas teremos matéria orgânica na fixação dos cátions.”
MAIS FÁCIL
O que ocorre na Bahia aconteceu no Chile, em condições até inferiores, porque as nossas condições para o desenvolvimento microbiano são ótimas: a transformação da palha em matéria orgânica. No oeste baiano se tem consciência dos erros cometidos no Sul e o plantio direto vai e sair vitorioso com mais facilidade. Isso se nota em torno das áreas pioneiras, como as dos Tramontini, onde não existe quem não esteja fazendo plantio direto.
Como a terra é muito arenosa, o sistema de gradeação é absurdo. Uma grade avantajada trabalhando levanta uma cortina de areia que se vê longe, e que vai sendo levada pelo vento junto com os nutrientes. A perda é significativa pela erosão eólica. Nos Tramontini, depois de três anos, a cor da areia está mudando, está escurecendo. E todo mundo está vendo.
MENOS PEIXE
Edward Faulkner era biólogo da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos e pescador no rio Mississipi. Com aumento da agricultura mecanizada observou que a cada ano tinha menos peixe e o rio ficava mais vermelho. Na época da guerra ele encaminhou pesquisas para avaliar o que estava ocorrendo, com [?perdas?] de solos impressionantes. Recentemente editou um livro “Insensatez do Agricultor” onde condena o uso do arado e da grade, provando que isso é extremamente danoso.
Até hoje não existe na área agrícola um trabalho científico que prove a utilidade do arado. O grande problema é fazer com que o agricultor se conscientize para deixar o arado. Ele precisa ter consciência de que vai enfrentar dificuldades [?n?]a área de controle de ervas, em adubação nitrogenada e outros, mas que tudo tem solução. Hoje, 80% da área agrícola de Kentucky é com plantio direto. Mas por incrível que pareça, no país mais adiantado do mundo, ainda tem redutos agrícolas que perdem quantias absurdas de solo.
“Eu tenho 22 anos de agricultura e recebi do meu pai a terra da qual sou proprietário, em Coxilha. Eram solos pobres, ácidos, de barba de bode, de baixo rendimento. Com certeza deixarei aos meus filhos, depois de produzir muito alimento, um solo muito mais fértil do que aquele que recebi do meu pai. Isso se chama conservação de solo, produtividade com economia e rentabilidade.”
Luiz Graeff Teixeira — Engenheiro Agrônomo e produtor de sementes em Coxilha (15 km de Passo Fundo-RS), com 22 anos de agricultura. Fala sobre filosofia de não mexer na terra, perspectivas do plantio direto na Bahia, e cita o biólogo Edward Faulkner (U. Kentucky, livro 'Insensatez do Agricultor')