A filosofia do desenvolvimento sustentado da agricultura, maximizando retornos e, ao mesmo tempo, melhorando a qualidade do agroecossistema, parece ser a orientação mais adequada para a agricultura de países em desenvolvimento. O sistema plantio direto (SPD) se enquadra perfeitamente nesta linha de orientação da agricultura moderna.
Na camada superficial do solo ocorrem os eventos de maior importância biológica do agroecossistema. Por isso, a manutenção de palha na superfície, mantendo temperatura e umidade adequadas é de fundamental importância na preservação de organismos vivos no solo. Neste ambiente, vive um grupo diversificado de animais cobrindo todos os níveis tróficos de decomposição de plantas, além de parasitos, de patógenos e de predadores que atacam os insetos-praga.
Neste trabalho são apresentados alguns aspectos da situação de insetos associados ao SPD na região Sul do Brasil, caracterizada pelo clima temperado, subtropical, úmido, com chuva bem distribuída durante o ano. Informações desta revisão foram obtidas de trabalhos originais e também de revisão bibliográfica, publicada na íntegra no “1º Congresso Interamericano de Siembra Directa”.
1. Evolução dos insetos-praga no Sul do Brasil
As preocupações com insetos como problema de grandes proporções em agricultura são, relativamente, recentes no Sul do Brasil. Até meados deste século o sistema de produção agrícola, em minifúndios, permitia ação de fatores de controle natural de pragas. Durante a década de 1960 e início da de 70, houve um intenso uso de inseticidas clorados e alguns fosforados de amplo espectro de ação, na parte aérea de plantas cultivadas. Conhecendo a forma de ação e a persistência de alguns destes inseticidas, pode-se especular que eles controlavam os insetos na parte aérea de plantas e também os de solo. Neste período, o esmerado preparo de solo, prática preconizada para a ação eficaz de herbicidas, também afetava a vida de animais no solo. Estas práticas combinadas resultaram em desequilíbrios, que beneficiaram a ocorrência de populações elevadas de insetos voadores (pulgões, lagartas, percevejos, etc.).
Este tipo de agricultura resultou em graves problemas de contaminação do ambiente e de erosão do solo. Entre 1972 e 1976 iniciaram, paralelamente, o manejo de pragas, com o uso criterioso de inseticidas, e o SPD como alternativa de proteção do solo. Sem dúvida, estas práticas trouxeram enormes benefícios para o agroecossistema. O SPD e a redução de uso e escolha adequada de inseticidas permitiram a ressurgência de vida no solo.
[?O SPD?] como [?um?] sistema de manejo de solo com [?palha?] poderia ser definido [?como um sistema de?] tendência de volta ao equilíbrio biológico. Neste processo de restabelecimento de populações, alguns insetos de hábitos subterrâneos atingiram o nível de praga. Para a solução destes problemas, deve-se considerar o modelo de desenvolvimento sustentado do agroecossistema em termos agronômicos, ecológicos, econômicos e sociais. A conservação do solo é a prioridade maior e o controle de pragas deve ser desenvolvido dentro deste contexto de sustentabilidade a longo prazo.
Baseado nos hábitos alimentares, os principais grupos de insetos associados ao SPD podem ser agrupados em consumidores de partes vivas de plantas (fitófagos), predadores ou parasitos de outros insetos e consumidores de resíduos orgânicos.
2. Insetos Fitófagos (pragas)
Os insetos que se alimentam de plantas, são considerados pragas quando atingem níveis populacionais que causam danos, ou são capazes de competir com o homem na produção de alimentos compensando a adoção de métodos de controle.
O aumento de populações de insetos atingindo o nível de praga, ocorre em função de monoculturas extensivas, ou seja, preparo intensivo de solo, que reduzem as populações de inimigos naturais.
Os insetos fitófagos, em agricultura, podem ser agrupados em pragas da parte aérea de plantas e em pragas de solo.
Os que atacam a parte aérea de plantas são bem conhecidos. Eles sofrem menor ação direta do sistema de manejo de solo. Entretanto, o SPD favorece o aumento da população de inimigos naturais (parasitos, predadores e patógenos), resultando em menores danos e na redução das populações de pragas devido a ação de agentes de controle biológico.
Vários trabalhos evidenciam menores danos de pulgões em áreas que apresentam palha de trigo na superfície ou com redução no preparo de solo e aumento da palha na superfície. Acredita-se que o reflexo da palha poderia ser repelente ou eliminava a eventual atração de solos desnudos aos pulgões voadores.
Existem variações no efeito do SPD sobre a ocorrência e danos de pragas da parte aérea. Pode-se dizer que estes efeitos são localizados, e particulares para cada lavoura, de acordo com as espécies de praga e de inimigos naturais e de manejo adotado na propriedade rural.
O uso de inseticidas de amplo espectro de ação, em áreas de plantio direto, tem um efeito devastador sobre a população de inimigos naturais e outros insetos úteis. Assim, a emigração de adultos, podem fazer a postura nas lavouras e as populações de pragas se desenvolver rapidamente. O efeito de inseticidas com alta toxicidade sobre inimigos naturais poderia ser comparado ao efeito da queima de palha na destruição de organismos vivos.
As pragas de solo podem ser definidas como artrópodes que vivem no solo na fase em que se alimentam da parte subterrânea de plantas cultivadas causando danos econômicos.
Algumas espécies de insetos de solo são beneficiadas pelo SPD e atingem o nível de praga, especialmente, em culturas de baixa população de plantas como o milho e o girassol. Vivem e se alimentam nas camadas mais profundas do solo e, raramente vem a superfície. Causam maiores danos na fase da germinação de plantas em áreas com cobertura de resíduos orgânicos e de SPD. As principais espécies pertencem ao grupo das larvas-arame e aos corós.
Os escarabeídeos apresentam hábitos alimentares diversificados, incluindo resíduos orgânicos. Na presença de palha, larvas de Phytalus sanctipauli e de Cyclocephala flavipennis causaram menores danos às plantas cultivadas. Diloboderus abderus, considerado a principal espécie-praga da família, no Sul do Brasil, apresenta características desejáveis de transportes e nutrientes para camadas mais profundas do solo e, além disso, cava galerias que facilitam a penetração de água de chuvas. Lavouras com abundância de palha na superfície tendem a sofrer menos danos deste inseto. O manejo de palha e de plantas com sistema radicular abundante, pode transformar um inseto considerado praga, num organismo útil ao SPD.
Outro grupo de pragas de solo vive na superfície do solo, sob resíduos orgânicos e penetram em rachaduras ou cavidades já existentes. A biologia e a capacidade de danos são afetados pela presença de resíduos orgânicos, cobertura vegetal, preparo de solo, temperatura e umidade do solo. Geralmente causam danos em períodos de seca, quando a temperatura do solo é elevada e as plantas não conseguem reagir ao dano dos insetos.
A broca, Elasmopalpus lignosellus, é, talvez, o inseto com maior número de estudos relacionados ao efeito do SPD sobre a sua ocorrência e danos. Os diversos autores concluem que as populações e os danos são menores no SPD, enquanto, no sistema convencional é uma praga importante em anos de seca.
Os insetos subterrâneos dependentes da cultura vivem no solo e desenvolvem na lavoura após a semeadura da planta cultivada. As larvas da vaquinha, Diabrotica speciosa (Col., Chrysomelidae) são um exemplo característico deste grupo. Listronotus bonariensis (Col., Curculionidae) faz a postura em azevém, centeio, trigo e outras gramíneas, onde a larva se desenvolve na região da coroa e no caule, junto ao solo. No caso de SPD de milho, semeado sobre azevém ou centeio infestadas, as larvas migram causando a morte de plântulas.
A mosca, Delia platura (Dipt., Anthomyiidae) ocorre em maiores populações em [?períodos chuvosos sob preparo intensivo do solo. Esta mosca, provavelmente, não será uma?] praga em áreas do SPD.
3. Parasitos e Predadores
Os parasitos e predadores mais eficientes co-evoluíram com o ambiente e o hospedeiro (praga). O intenso preparo do solo, queima de palha e as monoculturas extensivas, alteraram as relações de dependência entre os organismos vivos beneficiando espécies que se alimentam das plantas cultivadas. O SPD é uma das melhores práticas de manejo de solo para o retorno de insetos úteis ao agroecossistema. Sendo por isso, considerado uma prática de tendência de [?volta ao?] equilíbrio biológico.
A redução no preparo de solo e o SPD criam condições favoráveis para a reprodução de inimigos naturais. Vários estudos mostram maior diversidade e maior abundância de carabídeos predadores de insetos, em áreas de SPD. Este sistema suporta uma comunidade de artrópodes mais diversificada do que [?o?] plantio convencional, sugerindo a necessidade de se considerar um maior número de variáveis na adoção de estratégias de [?controle?] de pragas.
4. Decompositores
Os decompositores de resíduos orgânicos podem contribuir no transporte de fertilizantes para camadas mais profundas do solo e, através de suas galerias, facilitar a penetração da água e de raízes melhorando a estrutura do solo.
Os corós apresentam hábitos alimentares diversificados. Algumas espécies como [?Phytalus sanctipauli e Cyclocephala flavipennis?], são consideradas praga em áreas de preparo convencional e não causam danos no SPD na presença de palha em abundância.
Um dos escarabeídeos de maior importância como praga de plantas cultivadas no Sul do Brasil, Diloboderus abderus, possui uma estreita relação com a palha. As larvas do 1º e 2º estádios se alimentam de palha transportada para dentro das galerias pelos insetos adultos. As larvas de 3º estádio agem como transportadores de nutrientes da superfície para camadas mais profundas. Além disso as galerias de 1,8 cm de diâmetro e até 40 cm de profundidade são importantes canais de absorção de água de chuvas. Este inseto, considerado como praga, por alguns, é considerado como inseto benéfico por agricultores que conseguem colocar palha em abundância na superfície do solo.
Entre os fatores abióticos que beneficiam a sobrevivência de artrópodes, a palha, ou a cobertura da superfície do solo, é um dos fatores de maior importância no manejo de pragas. A palha serve de alimento para diversos insetos de solo e cria um ambiente favorável à sobrevivência de inimigos naturais e à redução da população de insetos-praga.
5. Controle de pragas no sistema plantio direto
O SPD, de forma geral, favorece a ocorrência de populações diversificadas de artrópodes, entre fitófagos e [?predadores e?] inimigos naturais e decompositores de resíduos orgânicos. O uso de inseticidas e a adoção de práticas de controle devem ser consideradas dentro dos princípios de desenvolvimento sustentado de agricultura procurando o restabelecimento de vida no solo.
5.1. Manejo do solo e rotação de culturas.
O manejo de solo e a rotação de culturas afeta as populações das diversas espécies. O SPD determina o desenvolvimento de comunidades onde as interações e relações de dependência são mais complexas do que as do manejo convencional do solo. O efeito sobre a entomofauna subterrânea e a de inimigos naturais, pode variar de acordo com as espécies envolvidas. A ausência de preparo do solo pode favorecer o crescimento de populações de insetos de ciclo biológico longo; a cobertura do solo com resíduos criando um micro-clima favorável, pode beneficiar populações de inimigos naturais aumentando a atividade de controle biológico; e a presença de resíduos orgânicos favorecerá o desenvolvimento de decompositores primários.
5.2. Inseticidas
No Sul do Brasil os insetos que atacam a parte aérea de plantas cultivadas no SPD são semelhantes ao do sistema convencional, devido a habilidade de vôo dos adultos. Existe uma tendência de menores danos em áreas de SPD devido à presença de inimigos naturais. Por isso, a [?escolha?] de inseticidas seletivos é importante. Inseticidas de amplo espectro podem levar ao uso cada vez maior de controle químico nos anos subsequentes.
Os insetos-praga no SPD tendem a se concentrar nas fases de germinação e de desenvolvimento inicial das plantas (até 30 dias). Os problemas maiores, ocorrem com insetos que migram das plantas daninhas ou da cultura dessecada, para as plântulas da cultura recém-implantada. Este problema se acentua em períodos de seca e sobre culturas de baixa população de plantas como é o caso de milho e de girassol.
Para o controle de pragas-de-solo, a eficácia de inseticidas, geralmente é baixa. Isto é atribuído à impossibilidade de se contaminar o solo com altas doses de produtos ou à habilidade dos insetos de migrar para camadas mais profundas ou de identificar substâncias tóxicas ou repelentes. Para pragas-de-solo, o uso de inseticidas deve ser considerado como um método de auxílio às plantas para a tolerância de danos e a convivência com a praga no ambiente. O tratamento de sementes parece ser um método recomendável para culturas de baixa população de plantas como o milho e o girassol, quando planejadas para produções elevadas. O uso de inseticidas de amplo espectro de ação, no solo, poderá ter o mesmo efeito de uma queima de palha ou de aração, em termos de alteração dos sistemas de vida e de equilíbrio biológico no ambiente. Estes eventos assumem maior importância quando ocorrem em grandes áreas na mesma região. Por isso, o uso de inseticidas no SPD deve seguir os critérios de seletividade e a aplicação deve ser dirigida sobre o alvo biológico, com menor ação possível sobre o ambiente e sobre animais úteis.
6. Conclusões
A camada superficial do solo é o ambiente de agroecossistema, onde ocorrem os eventos de maior importância biológica. Os artrópodes de hábitos subterrâneos e de superfície de solo constituem um grupo dinâmico e diversificado de animais associados às plantas cultivadas.
A ocorrência de populações elevadas de uma espécie, tornando-se praga, geralmente é consequência de desequilíbrios provocados por monoculturas extensivas, pelo uso de inseticidas de amplo espectro de ação e de práticas que dificultam a sobrevivência de inimigos naturais.
As estratégias de controle de pragas em plantio direto são diferentes do que no sistema convencional. Ao mudar para plantio direto muda-se a ecologia e a dinâmica populacional de pragas e é necessário evoluir nas decisões de controle para tirar proveito de inimigos naturais. Assim, a escolha de inseticidas de ação específica, seletivos para predadores e parasitos e as recomendações de níveis de dano econômico devem ser seguidos. O entusiasmo de ecologistas passa a ser realidade em lavouras no SPD.
A sobrevivência de inimigos naturais de pragas [?está?] intimamente relacionada à disponibilidade de palha na superfície e ao manejo do horizonte orgânico do solo. O sistema plantio direto pode ser considerado uma prática agrícola com tendência de volta ao equilíbrio natural, além das vantagens de conservação do solo.
* Engº Agrº, MSc, Pesquisador da EMBRAPA - Centro Nacional de Pesquisa do Trigo, Caixa Postal 569 — CEP 99001 - Passo Fundo-RS. Trabalho apresentado no 1º Congresso Interamericano de Siembra Directa — Córdoba, Argentina, março de 1992.
Dirceu N. Gassen — Eng° Agr°, MSc, Pesquisador da EMBRAPA-CNPT (Passo Fundo-RS). Trabalho apresentado no 1º Congresso Interamericano de Siembra Directa, Córdoba/Argentina, março/1992. Cobre insetos fitófagos (pragas), parasitos, predadores e decompositores; destaque para Diloboderus abderus, Phytalus sanctipauli, Cyclocephala flavipennis, Elasmopalpus lignosellus, Diabrotica speciosa, Listronotus bonariensis e Delia platura