O fato de que estamos pensando no futuro do plantio direto nas Américas supõe que existe uma necessidade para ele. Qual é esta necessidade?
Noutros locais fala-se de manejo conservacionista, que inclui o plantio direto, sempre que este envolva a presença de resíduos vegetais na superfície do solo. A semeadura direta sem palha não se considera como manejo conservacionista, definida como [?prá?]tica que deixa, pelo menos, 30% da superfície coberta com rastolhos. É difícil conseguir dados de áreas com plantio direto nos diferentes países das Américas, por esta diferença em definições e pela falta de dados precisos sobre áreas plantadas e práticas culturais em quase todos os países do continente, menos aqueles onde grupos privados, com especial interesse no plantio direto, têm feito esforços para conseguir as estimativas e os dados estatísticos.
A necessidade que promove este interesse no manejo conservacionista, e por isto no plantio direto, o mais conservacionista de todos, é o problema de degradação e erosão dos solos do continente. A carga de sedimentos no Rio Mississipi tem sido calculada em 300 milhões de toneladas anualmente, enquanto que o Rio da Prata é de 95 milhões de toneladas. Porém, isto não implica que a erosão é o problema principal ou prioritário. A erosão é somente um dos resultados da degradação do solo: a redução da estabilidade estrutural reduz a infiltração deixando que a precipitação escorra pela superfície, causando a erosão.
Esta degradação do solo resulta, principalmente, da debilitação da estabilidade estrutural por causa da redução na quantidade de matéria orgânica do solo, uma redução promovida pela lavração, a qual incrementa a oxidação.
Por esta razão também, o plantio direto, que não inclui a retenção de resíduos vegetais não evita a degradação. Além disso, a lavração tende a romper a estrutura, rompendo os agregados e pulverizando o solo. Um solo sem boa agregação torna-se mais duro depois de molhado e seco e tampouco resistente às pressões dos veículos transitando sobre ele. Tudo isso resulta em que um solo desgastado requer mais manejo para sua preparação do que um solo com boa estrutura naturalmente, este manejo excessivo oxida a matéria orgânica, debilita ainda mais a estrutura, a qual necessitará ainda mais preparos nos anos seguintes. Este é o círculo vicioso que temos que quebrar e, em muitas condições, pode-se fazer isto com o plantio direto.
PLANTIO DIRETO NO CONE SUL
Em relação ao Cone Sul, sabemos que, historicamente, o controle de plantas invasoras tem sido um dos problemas principais do plantio direto, se não for o principal. A factibilidade do sistema surgiu com a chegada ao mercado do Paraquat, o qual permitiu um controle total de ervas anuais e perenes.
As limitações de ervas perenes e a necessidade de herbicidas residuais que se poderia usar foram causa de muitos fracassos e a razão pela queda de área semeada com o sistema em várias partes do mundo nos anos 70.
Logo em seguida veio o Glifosato, que permitiu o controle de ervas perenes, apesar do custo muito elevado para uso extensivo. O produto foi mais usado para controlar ervas invasoras perenes específicas e sua eficácia e alto custo resultou numa série de mudanças nos métodos de aplicação do herbicida.
Mesmo com Glifosato a preços mais acessíveis (depois do término da patente) o controle de ervas invasoras em plantio direto tem sido um dos itens mais problemáticos no sistema, requerendo do agricultor um grande nível de conhecimentos dos vários produtos do mercado e do equipamento para aplicação.
É muito mais difícil controlar um espectro amplo de ervas com produtos químicos do que com uma passada de grade ou cultivador. Para cultura como soja, milho e grãos menores, a nova geração de produtos que são eficientes no plantio direto e com amplo espectro de controle têm diminuído o problema, e provavelmente reflita a preocupação das companhias de agroquímicos de produzir produtos específicos para plantio direto. A chegada ao mercado de uma trifluralina que se pode aplicar em semeadura direta em lugar de incorporá-la num solo bem pulverizado é um motivo de alívio por parte do solo.
FERTILIDADE
Fertilização é um fator que gera muita discussão. Em geral se nota a necessidade de colocar um pouco mais de nitrogênio a curto prazo na semeadura direta. As preocupações sobre a aplicação de fósforo seguem, com o desenvolvimento de semeadoras que colocam o fertilizante com mais precisão, porém, são relativamente pesados. Resultados de Kentucky, e de outros lugares, demonstram que, em várias situações, aplicando fósforo em superfície, têm a mesma eficiência do que incorporando. Como outros nutrientes, níveis de fósforo aproveitáveis tendem a aumentar no plantio direto, associado com o incremento de matéria orgânica. Acidez será um problema em semeadura direta, no futuro.
Aplicações de fertilizantes, especialmente os nitrogenados na superfície resulta num decréscimo do pH; os ácidos húmicos também tendem a baixar o pH. Os dados de Blevins et al. (1983) indicam que este não vai ser necessariamente um problema tão grave como se havia pensado. Calcáreo, aplicado em superfície, tem um efeito sobre o pH até uma profundidade de 30 cm. Contrastando com os dados de Blevins et al., Sidiras e Pavan (1985) demonstram menor pH em todo o perfil com plantio convencional que com semeadura direta em dois solos do Paraná, Brasil, depois de 4 anos de comparação. Esses autores também encontraram maiores níveis de matéria orgânica, cálcio e magnésio, potássio e fósforo em todo o perfil dos dois solos com plantio direto.
PRAGAS/DOENÇAS
O efeito de semeadura direta sobre doenças e insetos é muito variável e depende da espécie e seu ciclo de vida. Enfermidades que podem sobreviver sobre restos vegetais mortos causam problemas para o cultivo seguinte da mesma espécie semeada no mesmo campo, até que a palha se decomponha.
Ambiente e solo têm seu efeito sobre o desenvolvimento da doença, a redução no rendimento e a longevidade dos resíduos, como demonstram dados da EMBRAPA, do Brasil, sobre o efeito de anos sem trigo e soja, respectivamente sobre a rotação. Nos dois casos, o efeito das doenças em reduzir o rendimento é maior em Passo Fundo. Soja rende bem depois de um ano sem soja, porém, o efeito sobre o trigo é maior e necessita estar ausente do campo por dois anos, reflexo da maior longevidade da palha do trigo que a da soja. Uma enfermidade que está causando problemas em trigo de plantio direto atualmente no Brasil e no Paraguai é o Helminthosporium tritici repentis. Esta sobrevive nos resíduos de onde infecta o trigo semeado em plantio direto no mesmo campo no ano seguinte. A doença é multiplicada e os esporos são transportados no ar para infectar lavouras semeadas em plantio convencional ou em rotação. A maior infecção em plantio direto se deve a maior infecção inicial.
Com manejo reduzido, ocorre infecção inicial por causa dos resíduos, porém como existem menos resíduos, o nível de infecção é menor. A infecção no plantio convencional provém da infecção secundária.
Numa revisão da literatura sobre o efeito da lavração sobre a população de insetos pragas do milho. Ortega (1989) encontrou referências de incremento das populações e dano de onze espécies em plantio direto, enquanto que duas espécies ocorreram com mais frequência no plantio convencional. Em trigo, Burton (1991) fala da redução de populações de Schizaphis graminum, o pulgão verde, em plantio direto. Parece que o que atrai o afídio migrante não é o calor da planta, mas sim o do solo, ou, pelo menos, o contraste entre a cultura e o solo. No plantio direto, a palha não dá tanto contraste em cor, e o pulgão não é atraído. Estimo que, no futuro, serão encontrados mais insetos e doenças que são piores em plantio convencional.
O método mais eficaz de superar estes problemas é mediante a rotação de culturas. É muito duvidoso que um sistema de monocultura (ou uma sucessão de culturas num mesmo ano continuamente) seja sustentável.
COMPACTAÇÃO
Compactação é outro problema atual para o qual existem soluções em uso e, segu[?ramente outras a?] caminho. Existe preocupação pela compactação que apresenta nos primeiros anos, com plantio direto. Isto demonstra, provavelmente que o solo foi de alguma forma degradado antes de começar com o sistema, pois um solo debilitado não resiste às forças da compactação. O remédio pode ser diferente em casos diferentes. Alguns sustentam que, com o tempo, [?a compactação desa?]parece sozinha, outros que precisa passar um escarificador de vez em quando e outros que se pode solucionar o problema mediante o uso adequado de rotação de culturas. De todas as maneiras é necessário evitar a compactação. Existe uma tendência de entrar em campos demasiado úmidos, especialmente por parte de agricultores recém-começando com plantio direto. Como a infiltração é maior em semeadura direta e a evaporação menor, tarda mais depois de uma boa chuva poder entrar numa lavoura de plantio direto do que numa de convencional.
O que mais contém o futuro para plantio direto? Eu vejo muitas possibilidades de melhorar os sistemas atuais. Em alguns casos haverá possibilidade de aumentar o número de culturas semeadas no ano (ex: duas, em lugar de três, como no Paraguai e Paraná, Brasil). Existe também a necessidade de começar a buscar variedades específicas para condições de plantio direto, não somente com resistência às enfermidades que se apresentam no sistema. Existe possibilidade de aumentar o ciclo da cultura em muitos casos, para que se ocupe o solo por mais tempo, protegendo contra a erosão, já que não se necessita tempo para lavrar. Existe também a possibilidade de encontrar variedades menos afetadas pela compactação superficial ou com melhores raízes superficiais para captar nutrientes.
Em resumo, creio que existe muito futuro para o plantio direto nas Américas, as perspectivas são muito favoráveis. Não vejo o plantio direto como uma religião, pois ocorrem condições onde, acredito, não irá funcionar. Nesses casos devemos buscar outras soluções, sempre que sejam conservacionistas. Os políticos têm que tomar boa parte nelas, especialmente onde as limitações econômicas severas e minifúndios resultaram em solos completamente degradados para as gerações futuras.
Patrick Wall — CIMMYT, Paraguai. Cita estudos de Blevins et al. (1983), Sidiras e Pavan (1985), Ortega (1989) e Burton (1991); nomes científicos Helminthosporium tritici repentis e Schizaphis graminum