Josué Pavei: 'em 15 anos todo Brasil fará plantio direto'


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Publicado em: 30/03/1992

O Chefe do Departamento Técnico da Sociedade Cooperativa Castrolanda Engenheiro Agrônomo Josué Nelson Pavei foi um dos primeiros colegas que conheci, quando cheguei à região dos Campos Gerais do Paraná, em 1979.

Naquela época, trabalhando na Cooperativa Withmarsun, de Palmeira, ele já apresentava essa cara de brabo, que no fundo esconde uma criança, um cavalheiro, uma pessoa gentil e culta, capaz de falar sobre a “Divina Comédia” em italiano ou latim no meio de um dia de campo, em Tibagi, ou num congresso de plantio direto, no meio da Argentina.

Embora isso não precise ser definitivo, Josué se harmonizou com a Castrolanda, desenvolveu-se como pessoa e como técnico e eu me sinto um pouco responsável por essa união. Há muito que desejava entrevistá-lo, para nossa última página, do Jornal do Plantio Direto. Quando a oportunidade se apresentou, o material que ele despejou durante pouco mais de uma hora, numa tarde sem chimarrão, na Castrolanda, daria para fazer um pequeno tratado sobre o assunto. Nesta edição, publicamos uma síntese de alguns aspectos abordados. Quando fizemos a pergunta “por que você gosta do plantio direto?” os temas foram se tocando como num jogo de dominó e o resultado é este. (Gilberto Borges)

1 — Eu gosto do plantio direto porque aqui na nossa região não existe outra maneira de se fazer agricultura a não ser através desse sistema. Ontem mesmo estive visitando um produtor que estava com uma área de 5 ha totalmente erodida. Ele colheu a soja, mexeu um pouco com a grade para semear uma aveia para o gado e aconteceu. Teve a grata surpresa da erosão, que há muito não via. Ele estava preocupadíssimo. O que é que eu faço, Josué?

2 — O plantio direto é uma coisa tão fácil de fazer e tão gostoso, que essa facilidade deixa o agricultor até um tanto vadio. Mas, de outro lado, ele tem que redobrar a atenção, tem que puxar pela inteligência, necessita de um raciocínio maior, porém, em termos de tempo, ele o terá muito mais para tomar chimarrão, desde a hora que entrar no sistema. Depois que pega a prática é tão fácil, tão óbvio que ele se pergunta, será que algo tão fácil vai dar certo? Eu sempre falo para o pessoal que nos visita aqui na Castrolanda: a coisa é tão fácil que, depois de treinado, você desconfia quando leva 15 dias para plantar 300 ha. Será que está tudo certo, será que vai nascer? A pessoa desconfia da tremenda facilidade e do ganho de [?tempo?].

3 — O que se questiona mais em entrar no plantio direto é o cara tomar coragem e começar. Para mim, o principal entrave do sistema é o treinamento do produtor. Minha recomendação é de que ele comece numa área pequena. O grande perigo é no momento em que o produtor vê o solo desgastado, apavorar-se e, achando que não tem mais saída, meter a cara no sistema, fazendo 300-400 ha numa safra e dá com os burros n’água.

Ele foi até o fundo do poço e agora está desesperado, querendo resolver a coisa duma hora pra outra.

Certa vez, numa palestra em Erechim, no Rio Grande do Sul, um agricultor, que se chamava Piloto, perguntou-me como é que eu faço e eu respondi: faça uma área piloto, comece devagarinho, vá aprendendo que a coisa deslancha. No começo tem que ser teimoso, tem que insistir, depois que você ultrapassou a barreira dos 5-6 anos nada mais segura.

4 — Nossa região acompanha os melhores níveis de plantio direto no mundo. Os herbicidas usados nas regiões mais adiantadas, nós usamos aqui e, além disso, temos uma grande condição de fazer palha, coisa que não conseguem em muitos lugares, nós podemos fazer duas culturas por ano e colocar perfeitamente o milho na rotação. Por isso, conseguimos fazer até 25 ton/ha de palha a cada 3 anos, principalmente com esses híbridos mais modernos. Essa palha é deixada na superfície e o solo vai engolindo aos poucos.

Nós ainda temos algumas barreiras em termos de mecanização, acredito que as plantadeiras e semeadeiras deverão evoluir, é questão de tempo. A precisão que buscamos nas plantadeiras tem que ser acompanhada pela qualidade das sementes. Não adianta precisão, se pegarmos uma semente com 80% de vigor. A precisão é básica, como a qualidade das sementes.

5 — O plantio direto em campo nativo resolveria o problema da pecuária no Rio Grande do Sul. Conheço um produtor de Arroio dos Ratos, na Depressão Central do Rio Grande, que há 14 anos vem implementando esse processo. O solo pobre, tipo São Jerônimo, agora, depois de todo esse tempo, está fofo e com minhocas, inclusive. Durante uma visita que lhe fiz, ele afirmou: ainda não achei minhoca. Pegamos uma picareta e na primeira cavocada apareceu duas ou três minhocas.

O processo é simples. Elimina-se o fogo, usa uma plantadeira chamada Fundiferro, que é simples mas já presta um serviço aceitável, ou qualquer outra máquina, e roçadeira. Para o fogo, adeus. No inverno, planta-se aveia, azevém, ervilhaca, trevo, corrige-se a fertilidade e, em 3 anos, você tem um novo patamar de rendimentos, com uma vida biológica bem mais aguçada. Se você ver o solo do produtor de Arroio dos Ratos, você fica bobo com um solo tão ruim e a [pasta]gem que ele colocou lá. Eu acredito que todo o problema da alimentação do gado estaria resolvido dessa forma. No momento em que se intensificar mais a pecuária no Rio Grande, e isso fatalmente vai acontecer por causa da vocação pecuária do Estado, os fazendeiros terão que lançar mão desse expediente.

6 — O bom agricultor do plantio direto é aquele que já fazia um bom convencional. Comecei minha vida de agrônomo trabalhando no plantio convencional e via jogar fora aquela quantidade incrível de adubos, a erosão levava tudo. Acompanhando esse dia a dia dos produtores, acho que convivi mais com eles do que com minha própria família, a gente aprende, são 17 anos junto com os homens que tocam as lavouras. Por isso, principalmente nesse período de Castrolanda, a gente vai sacando coisas que contrariam a teoria. Se você olhar as nossas análises de solo, nós temos 4 ppm de fósforo e pH baixo, que se fôssemos corrigir de acordo com as recomendações, teríamos que jogar 5 ton/ha de calcáreo. Mas, se olharmos o histórico da propriedade e os primeiros resultados da atual safra, temos produtividades de 9 ton/ha na cultura do milho, 3 ton/ha em soja e trigo. Então, eu pergunto: pra que mexer numa área dessas?

7 — Outra coisa que nós estamos questionando muito aqui, principalmente o Juca e eu, junto com alguns produtores, é o uso do facão na plantadeira. Eu já fui adepto ferrenho do facão, hoje vejo com meus próprios olhos que esse instrumento é um incômodo na lavoura. Falando em plantio de milho, precisa de um trator enorme para puxar aquilo, são 4 ferros cravados no chão e mais um plantadeira. Uma das considerações é que o adubo é jogado lá embaixo, pertinho da semente. Quando esta germina, a primeira raiz emitida é a seminal, cuja função é absorver água, H&sub2;O, nada mais, limpinha se possível. A semente possui todos os nutrientes que o arranque inicial da plantinha de milho. A raiz seminal é feita pela natureza para chupar água e, com o facão, nós largamos a raiz dentro de um veneno, que é o adubo. Aí, se entramos num período de alta insolação ou seca, impondo uma demanda alta de água, a planta se mata. Esta é uma das razões do baixo stand com plantadeira de facão.

O facão se justifica em solos batidos de boi no inverno. Existe a opção do disco duplo, que coloca o adubo em boa posição, cortando tão fundo como o facão. Só se justifica num caso similar. Sem o facão, essa maquinaria toda fica bem mais leve, um 275 dentro de uma propriedade faz tudo. Começa a cair o número de CV/ha, o consumo do diesel, começa a [reduzir]. Começa a diminuir o volume de aplicações. Nossos colegas ecologistas se arrepiavam inicialmente com o maior uso de herbicidas mas o sistema é tão inteligente e tão moldado à natureza que vai racionalizando [tudo]. [Quando se compara com] trator fazendo convencional, ele afoga tratorista, trator e tudo mais na poeira.

8 — [?Estamos no?] caminho da indústria química, no setor de moléculas para a agricultura, onde é cada vez menor a quantidade do ingrediente ativo por ha, nós temos estudos, feitos pelo pessoal da Fundacep, em Cruz Alta-RS, que direcionam para uma melhoria na tecnologia de aplicação de herbicidas e uma redução [de doses]. Conforme [?o tipo?] de ervas, aplica-se menos produtos, a erosão diminui, evitando a poluição dos rios e lagos com herbicidas e [outros resíduos. É importante que o plantio] direto se desenvolva, porque é um sistema altamente racionalizante do uso dos recursos naturais.

Temos muitos produtores aqui na Castrolanda [que dispensam o uso do herbicida e fazem o manejo das pastagens com] rôlo-faca ou simplesmente deixam a cultura morrer por [si só]. [Encontramos resultados] interessantes.

9 — [?Estamos investindo em treinamento?] de operadores, de 3 anos para cá. O que nós observamos foi uma melhoria na qualidade de implantação das lavouras. O stand de milho melhorou, o controle de ervas também, o produtor gasta menos porque há um controle adequado da vazão dos produtos, horário de aplicação, enfim, a média de produtividade da cooperativa está subindo. Estamos com menores perdas na fábrica. Nesses três anos de treinamento na Castrolanda, foi impressionante o que cresceu a qualidade [da gestão nas lavouras].

O agricultor só é profissional da agricultura se tiver treinado, se não, pode largar de mão. O fato de ele ser proprietário e querer intitular-se agricultor não [quer dizer que ele realmente o seja, embora isso, apesar dos pesares, ainda dê dinheiro].

10 — Eu acredito que dentro de uns 15 anos, não quero ser muito otimista, o Brasil agrícola estará [em sua quase totalidade no plantio direto]. [?Tirando alguns solos?] pesados, que são um tanto limitante, não os [?demais?] de solo franco arenoso, solo leve, solo franco, solo médio e solo arenoso. Temos apenas alguns bolsões de solos pesados e, acho que no máximo em 15 anos, vai se ouvir falar muito pouco de plantio convencional neste país.

Josué Nelson Pavei — Eng° Agr°, Chefe do Departamento Técnico da Sociedade Cooperativa Castrolanda (Castro-PR), 17 anos na região. Entrevista com Gilberto Borges em 10 partes (estilo dominó), inicialmente trabalhou na Cooperativa Withmarsun (Palmeira-PR). Cita produtor de Arroio dos Ratos-RS e o Eng° Agr° João Carlos de Moraes Sá (Juca)