Efeito de coberturas vegetais e sistemas de preparo do solo na infestação de plantas daninhas em pequenas propriedades


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Publicado em: 30/06/1992

As comunidades naturais, na ausência de intervenção humana, tendem a adquirir maturidade e evoluir para a estabilidade e complexidade. A ação do homem criando regiões cultivadas relativamente simples quanto ao número de espécies forma ambientes instáveis, nos quais as flutuações populacionais são frequentemente intensas, favorecendo determinadas espécies que encontram ambiente favorável à sua proliferação, com consequente surgimento de problemas causados por pragas, doenças e plantas daninhas.

Também nestes agroecossistemas, o revolvimento do solo, provocado por aração e gradagens, contribui para a instabilidade, expondo o solo às intempéries do clima, desencadeando, com os seguidos cultivos, o processo erosivo e levando ao esgotamento da fertilidade natural.

A presença de cobertura no solo, a rotação de culturas e a prática de adubação verde, por se assemelharem a algumas das condições das comunidades naturais quanto à permanência de resíduos no solo e a diversidade de espécies, são técnicas desejadas e preconizadas para minimizar estes problemas.

A presença de cobertura vegetal durante o desenvolvimento da cultura pode ser obtida através do plantio direto, que consiste na semeadura de uma espécie sobre uma cobertura morta formada a partir de resíduos de cultivos anteriores.

Outro sistema que utiliza os benefícios da presença de coberturas vegetais é o cultivo mínimo, técnica de plantio de milho para uso em pequenas propriedades. Esta prática consiste no sulcamento com arado fuçador de tração animal, em meio a uma cobertura vegetal, seguido da semeadura do milho, no sulco, com a espécie vegetal dando sequência ao seu ciclo vegetativo nas entrelinhas do milho (Monegat, 1981; Scherer & Baldissera, 1988).

Pelos aspectos desejáveis das coberturas vegetais e preparos reduzidos em sistemas de produção, e como o controle das plantas daninhas é considerado como um dos principais entraves para adoção destas práticas, foi realizado um trabalho visando conhecer melhor a influência destes fatores na infestação de plantas daninhas, nas condições de pequenas propriedades do sudoeste do Paraná, com uso de tração animal.

1. INSTALAÇÃO DO TRABALHO

Para a realização do trabalho, durante o inverno deixou-se o terreno em pousio ou cultivado com ervilhaca-comum (Vicia sativa), chícharo (Lathyrus sativus), tremoço-azul (Lupinus angustifolius), aveia-preta (Avena strigosa), aveia-preta + ervilhaca-comum e mucuna-preta (Stizolobium aterrimum). Esta foi semeada com matraca, na safra anterior, intercalada nas entrelinhas de milho, quando este atingiu a fase de pendoamento; após a ocorrência de geada, que a matou, deixou-se a cobertura morta no terreno até a época da semeadura do milho.

Cada cobertura vegetal foi submetida a três sistemas de preparo do solo: plantio direto, cultivo mínimo e plantio convencional.

1.1. Plantio direto — No plantio direto cortaram-se os materiais com rolo-faca tracionado por bovinos, à exceção do pousio e mucuna-preta, que foram capinados. Na época do corte as leguminosas encontravam-se em florescimento e a aveia-preta na fase de grão leitoso, sendo que o rolo-faca não foi totalmente eficiente no controle da ervilhaca e chícharo.

1.2. Cultivo mínimo — No cultivo mínimo fez-se o sulcamento com arado fuçador nas linhas de semeadura. Na ervilhaca e chícharo fez-se um pré-sulcamento aos 60 dias após a semeadura e o sulcamento definitivo por ocasião do florescimento. Em tremoço, aveia-preta e aveia + ervilhaca passou-se o rolo-faca antes do sulcamento; neste caso, houve formação de cobertura morta entre os sulcos de plantio.

1.3. Plantio convencional — Em plantio convencional o terreno foi preparado com uma aração (arado fuçador), uma gradagem (grade de disco a tração animal) e sulcamento (arado fuçador), todos tracionados por bovinos.

A semeadura do milho (cv. IAPAR-26) foi feita manualmente com matraca, oito dias após o corte dos materiais com rolo-faca; adubou-se com 150 kg/ha de 4-30-10, na base, e 50 kg/ha de N (sulfato de amônio), em cobertura.

2. RESULTADOS

2.1. Infestação do solo — Antes da semeadura do milho, em plantio direto havia infestação média de 27% no pousio e 1% em mucuna-preta, tendo-se gasto na capina, respectivamente, 10,2 e 1,9 dias/homem/ha. Nas demais coberturas não havia presença de plantas daninhas.

No plantio direto obteve-se, em média, a menor infestação de papuã (Brachiaria plantaginea); aos 39 dias depois da semeadura do milho, apresentava 130 plantas/m², enquanto no cultivo mínimo e plantio convencional a densidade era de 481 e 655 plantas/m².

O cultivo mínimo foi tão eficiente quanto o plantio direto na redução da infestação nas entrelinhas da cultura e superior ao plantio convencional; na linha, em função do revolvimento do solo, a infestação no cultivo mínimo foi similar à observada no plantio convencional e superior à do plantio direto.

Entre as coberturas vegetais, a mucuna-preta foi a que apresentou maior infestação e a aveia e aveia + ervilhaca foram as coberturas com menor densidade de papuã.

2.2. Controle das plantas daninhas — Para o controle do papuã, no plantio convencional e cultivo mínimo efetuaram-se duas capinas e no plantio direto, pela baixa infestação, foi necessário somente uma, dispensando-se a primeira capina em todos os materiais. O tempo gasto com esta operação foi inferior no cultivo mínimo em relação ao convencional (Tabela 1).

Tabela 1 — Tempo de capina (horas/homem/ha):

Preparo do soloTempo de capina Plantio convencional105,8 a Cultivo mínimo76,6 b

2.3. Produtividade — Na cobertura com mucuna-preta se obteve a maior produtividade média, concordando com resultados de Castilhos et al. (1985), que também verificaram acréscimo na produção de milho quando cultivado sobre mucuna-preta. Não houve diferença na produtividade média entre os sistemas de preparo (Tabela 2).

Tabela 2 — Produção de milho (kg/ha):

Cobertura vegetalPlantio diretoPlantio convencionalCultivo mínimoMédia pousio4304438342514313 ab ervilhaca4344460942914415 ab chícharo4953478139074547 ab tremoço4436517840794564 ab aveia-preta4410422446224419 ab mucuna-preta5616492652185253 a aveia + ervilhaca4224413239334096 b Média4612 a4605 a4329 a—

3. VIABILIDADE DE CULTIVOS REDUZIDOS

Os resultados obtidos na redução de infestação de papuã, principal infestante nas condições de lavoura no Paraná, permitindo a eliminação da primeira capina em plantio direto e diminuição no tempo dispendido nesta operação em cultivo mínimo, demonstram a possibilidade de adoção destes sistemas de cultivo, nos pequenos estabelecimentos rurais, que utilizam tração animal.

Além disso, tem a vantagem de permitir a diminuição das operações de preparo do solo que, de acordo com Wijewardene (1981), em plantio direto nas pequenas propriedades pode ser superior a 90% da energia e tempo em relação ao convencional, bem como manter os resíduos vegetais na superfície e possibilitar a condução da lavoura sem necessidade ou com baixo uso de herbicidas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para adoção do plantio direto ou cultivo mínimo, há necessidade de se observar as particularidades de cada região ou propriedade.

Em solos com afloramentos rochosos, que não permitem o uso de rolo-faca, pode-se usar cultivo mínimo em cobertura verde de ervilhaca ou chícharo, ou ainda, em locais de ocorrência de geadas, o cultivo mínimo ou plantio direto em cobertura morta de mucuna-preta. Também é possível o plantio direto com coberturas de ervilhaca, chícharo e aveia, mas estas exigem o uso de herbicidas para dessecação.

Em áreas menos declivosas e sem afloramento rochoso, são possíveis os dois sistemas com as diferentes coberturas vegetais. No entanto, em cultivo mínimo são mais indicadas as coberturas de ervilhaca e chícharo, pois necessitam de menor número de operações para sua execução. Em plantio direto, são mais indicados os materiais nos quais é possível o uso do rolo-faca, pois possibilitam a dispensa de produtos químicos para a dessecação; entre estes materiais estão tremoço, aveia e mucuna-preta. Esta, em locais com ocorrência de geadas, dispensa o rolo-faca mas, na sua ausência, necessita ser rolada antes da formação de sementes viáveis para evitar que se torne uma infestante nas safras subsequentes. Também é possível o uso de ervilhaca e chícharo, desde que dessecados, visto não serem controlados eficientemente com rolo-faca a tração animal.

Em plantio direto, para se dispensar o manejo com herbicidas em aveia-preta e tremoço, é importante que as plantas daninhas sejam bem controladas durante o ciclo destas espécies, e que a semeadura da cultura de verão se faça em intervalo curto após o corte. No caso do uso de mucuna-preta, de acordo com recomendações de Scherer & Baldissera (1985), a semeadura do milho deve se processar logo após o período de geadas. Estas recomendações têm como objetivo o aproveitamento do efeito inibitório temporário das coberturas na germinação das sementes silvestres, o que permite semear a cultura em terreno livre de infestantes, dispensando assim o uso de herbicidas. Para evitar a rebrota da aveia-preta, faz-se o corte com rolo-faca quando esta se encontra na fase de grão leitoso.

O cultivo do tremoço requer alguns cuidados, quanto à sanidade da semente e rotação de culturas (Derpsch & Calegari, 1985), fatores que, se não observados, podem favorecer a incidência de doenças e comprometer a adoção do sistema.

A mucuna-preta é semeada nas entrelinhas do milho a partir do pendoamento (Viegas et al., 1960) e a colheita deste é feita o mais rápido possível após a maturação (Vieira, 1987), de modo a evitar o entrelaçamento da mucuna na cultura, o que dificulta a colheita e pode afetar a produção. Nas regiões mais frias o processo só é viável em milho semeado cedo, que permite o desenvolvimento da mucuna intercalada e produção de quantidade suficiente de massa vegetal antes da ocorrência de frio que paralisa o seu crescimento. Segundo Scherer & Baldissera (1985) e Vieira (1987), na região sul do Estado isto ocorre nas semeaduras realizadas após dezembro.

* Engenheiro Agrônomo, MSc, IAPAR, Ponta Grossa-PR.

Francisco Skóra Neto — Engenheiro Agrônomo, MSc, IAPAR (Ponta Grossa-PR). Trabalho experimental no sudoeste do PR com tração animal: 7 coberturas (pousio, ervilhaca, chícharo, tremoço, aveia, aveia+ervilhaca, mucuna preta) × 3 sistemas (PD, cultivo mínimo, convencional). Cultivar IAPAR-26