Manifesto da Confederação de Associações Americanas defende agricultura sustentável


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Publicado em: 30/06/1992

“SE O MUNDO TEM QUE AUMENTAR SUA PRODUÇÃO AGRÍCOLA, DEVERÁ FAZÊ-LO BASEANDO-SE SOMENTE NAS ALTERNATIVAS DE PRODUÇÃO QUE, COMO CONDIÇÃO BÁSICA, RESPEITEM A INTEGRIDADE DO MEIO AMBIENTE. PARA NÓS É INACEITÁVEL A IDÉIA DE QUE AS FUTURAS GERAÇÕES SEJAM PRIVADAS DE UM PATRIMÔNIO QUE NINGUÉM TEM O DIREITO DE DESTRUIR.”

Esta é a conclusão do manifesto lançado pela Confederação das Associações Americanas [para a Produção] Agropecuária Sustentável — durante a realização da Rio-92, em Junho, no Brasil. A CAAPAS é [a entidade] que congrega cinco instituições nacionais de produtores que usam o sistema plantio direto (siembra directa, zero labranza) e que foi fundada em [reunião] realizada durante o mês de abril, na Argentina.

As entidades que fazem parte da Confederação são as seguintes: APRESID — Asociación Argentina de Siembra Directa; ABPDNP — Associação Brasileira de Plantio Direto na Palha; SOCOSCH — Sociedad de Conservación de Suelos de Chile; AUSID — Asociación Pro Siembra Directa de Uruguai; e Asociación Mexicana de Labranza de Conservación.

Criada preliminarmente no Congresso Interamericano de Siembra Directa de Córdoba, em março, a CAAPAS definiu suas ações mais imediatas, como o lançamento do manifesto na ECO-92 e eleição da diretoria, na reunião efetivada em abril na Argentina, que forneceu o primeiro presidente o engenheiro agrônomo e produtor Victor Trucco.

PREMISSAS

“Os sistemas agrícolas nos quais se baseia a atual produção de alimentos, apóiam-se em tecnologias que, por mais que tenham logrado um aumento de produtividade, sempre o conseguiram graças a uma lamentável deterioração dos recursos naturais. Entre outras consequências mais graves, as quais hoje, provavelmente, não sejamos capazes de avaliar em toda a sua magnitude, os prejuízos mais diretos são: a) erosão grave e crescente dos solos explorados pela agropecuária; b) novos e crescentes processos de salinização; c) perda paulatina da produtividade das melhores áreas e desertificação de áreas marginais; d) aumento excessivo do consumo energético e e) crescimento global da contaminação ambiental”.

Segundo a introdução do manifesto, distribuído no Rio de Janeiro, “a pesquisa científica já conseguiu informações suficientes e tecnologia para romper este círculo perverso de produção à custa de destruição. Para nós, técnicos e produtores conscientes desta realidade, a satisfação da demanda mundial de alimentos, agora e no futuro, deve ser conseguida através de tecnologias que respeitem os recursos naturais e a integridade ecológica do Planeta.”

PLANTIO DIRETO

Os principais tópicos da proposta feita pela CAAPAS são os seguintes: “Nossa proposta para aumentar e manter sustentável a produção agropecuária é baseada na utilização racional dos recursos naturais, compatibilizando-os com as necessidades de benefícios econômicos através da utilização de tecnologia adequada, que possa harmonizar esses fatores.

A agricultura sem revolvimento do solo, o sistema denominado PLANTIO DIRETO, constitui nossa proposta central. A pesquisa científica e a aplicação dessa tecnologia pelos produtores americanos que inovam, vem demonstrando que este sistema não só evita a deterioração do solo mas também o melhora e conserva. A não movimentação do terreno e a manutenção dos resíduos vegetais na superfície formam um solo coberto, com características próprias, tornando-o resistente ao processo erosivo, favorecendo a infiltração e reduzindo a evaporação da água, além de aumentar a atividade biológica e a fertilidade. Este sistema permite modelar os efeitos negativos do que constitui, geralmente, a variável climática mais importante: a chuva.”

OBJETIVOS

“A resolução correta dos problemas de alimentação mundial constitui uma preocupação comum a toda a humanidade. Portanto, o enfoque dessa busca de soluções integrais, deve ser concebido a partir de um ângulo global, e não somente de regiões.” Finaliza o manifesto: “Sugerimos como primeira tentativa de solução deste problema de todos, o desenvolvimento da Conscientização a respeito do problema; convencimento para um compromisso de mudanças; difusão das soluções alternativas; capacitação técnica, para que não ocorram falhas na implantação e apoio na mudança, através de estímulos, recursos e pesquisas. A CAAPAS convoca produtores, técnicos, instituições, governos, organismos nacionais e internacionais para que participem, adaptando políticas concretas e dispondo recursos para que se obtenha o desenvolvimento de uma agricultura sustentável.”

AGRICULTURA CONVENCIONAL AMEAÇA O FUTURO

Os dados sobre a degradação dos solos usados [pela] agricultura em todo o mundo são extremamente alarmantes. Não se trata de um grito a mais [na] Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, a Rio-92. O alerta vem de há muito tempo. No documento elaborado [há 20] anos, a partir da Primeira Conferência [Mundial] realizada em Estocolmo, o relatório “Nosso [Futuro] Comum” apontava a desertificação de [muitas regiões] como a maior agressão ambiental [da] humanidade pratica contra seus vitais recursos [naturais].

Agora, no momento do debate maior, os números [da] degradação do solo são dolorosamente [mais] dramáticos. Segundo a publicação “Recursos Mundiais 1992/93”, editada pelo Instituto de [Recursos] Mundiais, com sede em Washington, [pelo menos] 1 bilhão e 200 milhões de hectares, [área correspondente à China e Índia reunidas, corresponde à] quantidade de solo degradado em todo o [mundo]. As causas são o desmatamento, o pastoreio [intensivo, o] plantio convencional, com suas excessivas [operações de] grades e arados, que pulverizam, [vindo a] expor o solo à erosão. A publicação, [editada] pela ONU, revela que 8,9 milhões de [hectares são] irrecuperáveis; 300 milhões de hectares [degrada]dos em níveis que os povos responsáveis [não pos]suem recursos para recuperá-los. Finalmente, uma área fantástica de 930 milhões de hectares, similar ao território dos Estados Unidos, está num estágio de degradação que os custos para sua recuperação exigem orçamentos inviáveis para muitos dos países onde o desastre ocorre.

IMPUNIDADE

“Nós estamos tratando nosso solo com impunidade. Se não desenvolvermos programas de tratamento da saúde do solo, a garantia de alimentos para a população mundial estará em grande risco”, afirma M.S. Swaminathan, membro do Instituto e editor da publicação “Recursos Mundiais”. O presidente da entidade Lester R. Brown enfatiza que “todos os anos, os agricultores têm que alimentar quase cem milhões de indivíduos a mais, com 24 bilhões de toneladas de solo a menos, em todo o mundo”.

Segundo informa a publicação, a agricultura ainda é a maior fonte de alimentos para os homens. Em 1991 foram produzidos quase 2 bilhões de toneladas de grãos enquanto que os oceanos forneceram cerca de 100 milhões de toneladas. E a produção de alimentos declinou em aproximadamente 80 países do terceiro mundo, tendo como causa principal a degradação do solo pelo uso incorreto e predador.

Para Swaminathan, o estrago é ainda mais ameaçador quando se imagina no tempo que a natureza leva para recuperar a camada fértil de solo, que é de pelo menos duzentos anos para cada centímetro.

BRASIL

No nosso país, com 3 décadas de agricultura extensiva, de forma lamentável, nós fazemos parte dessa estatística depressiva. Os números que revelam a perda de solos em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul e outros estados mostram o descuido e a difícil perspectiva que temos pela frente para recuperar aquilo que nós pedimos emprestado dos nossos filhos, netos e de todas as gerações que ainda virão habitar nossa terra.

Embora alguns estados, como o Paraná, principalmente, tenham avançado na reversão desse quadro, longe estamos de soluções que garantam uma estabilidade.

No Rio Grande do Sul, dados fornecidos por entidades como Fecotrigo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Unisinos, Secretaria da Agricultura e Emater, indicam que o Estado perde 240 milhões de toneladas de solos, agregados de fertilizantes e pesticidas, o que significa uma perda monetária de quase 800 milhões de dólares, irrecuperáveis, a cada ano. Os estudos realizados pelas entidades gaúchas indicam que as terras gaúchas usadas para agricultura ficam 8% menos férteis a cada ano.

Gilberto Borges — Aldeia Sul

matéria sobre o manifesto da CAAPAS lançado na ECO-92 (junho/1992). Confederação fundada em abril/1992 (Argentina) — APRESID, ABPDNP, SOCOSCH, AUSID, Asociación Mexicana de Labranza de Conservación. 1º presidente: Victor Trucco. Inclui suplemento 'Agricultura Convencional Ameaça o Futuro' por Gilberto Borges (Aldeia Sul) com dados do 'Recursos Mundiais 1992/93'