Crise de lavoura arrozeira gaúcha seria maior sem o plantio direto


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Publicado em: 30/06/1992

Por que não fazer plantio direto com arroz irrigado? Eurico Dornelles, um pioneiro, plantador em Alegrete e Quaraí-RS, presidente do Clube do Plantio Direto no Arroz Irrigado e que tinha experiência no sistema com soja, se fez a pergunta em 1980. Um pequeno grupo topou o desafio de buscar a resposta. Em 1982 as experiências começaram, mesmo no escuro, sem informações técnicas, exemplos de outras partes do mundo, sem literatura, pesquisa ou Agrônomo que ensinasse. Tiveram apenas o apoio de empresas de máquinas, como a SEMEATO e de agroquímicos, que decidiram apostar.

Eurico Dornelles, mesmo com erros, coisas mal feitas confirmou um custo menor significativo entre o direto e o convencional. Seus companheiros também. No Estado, os mil hectares de arroz irrigado direto em 83 saltaram para 5.500 em 84. O entusiasmo levou à fundação do Clube, para melhorar a troca de experiência, proporcionar encontros, dias de campo, seminários, como esse tradicionalmente realizado em Gramado. O sistema não parou de evoluir e na última safra alcançou a área de 230 mil hectares, de um total pouco acima de 800 mil em toda a lavoura gaúcha. E a expectativa é de dobrar na próxima.

O Jornal do Plantio Direto foi a Porto Alegre ouvir o Sr. Eurico Dornelles e os principais pontos dessa evolução do plantio direto, suas grandes vantagens e o que está ocorrendo hoje, publicamos a seguir.

O plantio direto vingou pela redução em até 30% nos custos de produção. “Na várzea temos problemas de drenagem. No convencional, em certos anos, passávamos até 17 vezes as grades e arados na mesma terra. Com o terreno consolidado e o novo sistema de drenos essa preocupação já não existe”, relata Eurico Dornelles. Agora, ainda, se planta na época ideal (15 de outubro/15 de novembro), sem perder de tempo quando há seca ou excesso de chuva. O planejamento é mais racional e a lavoura mais uniforme, e tudo isso vai proporcionando um custo menor. Produtividade por produtividade o direto e o convencional se equivalem, mas a vantagem é que no primeiro temos uma lavoura mais barata.

ARROZ VERMELHO

“Uma vantagem que a gente até esquece hoje é o arroz vermelho que deixou de ser problema para nós”, relata Dornelles. Para quem está no convencional ele ainda é um drama, áreas inteiras estão abandonadas pela dificuldade de controle. No direto é possível fazer o arroz vermelho brotar antes e eliminá-lo com dessecante. Quando planta, não se mexe na terra, pois apenas se abre o sulco para semente e adubo e a reinfestação será mínima. Mas um bom manejo da água não deixa vir nada, nem arroz vermelho, nem outros inços.

TAIPA ANTECIPADA

“Você repara que no convencional tem sempre a taipa suja e na colheita sempre acaba misturando o arroz bom com o ruim. Com a taipa antecipada damos o mesmo tratamento para a terra, se limpa tudo, se tem uniformidade. E isso aparece na colheita, com um produto de melhor qualidade, sem arroz vermelho”, diz Dornelles.

O GADO

Quem faz convencional tira o gado muito antes para poder lavrar, discar, trabalhar a terra. Com o direto se tira na véspera. “Aqui no Estado sobra pasto no verão, mas o que nos limita a população é o inverno. Então, na estação fria, podemos ter uma atividade maior com azevém, por exemplo, para alimentar o gado, sem que isto interfira mais adiante na hora do plantio. Essa combinação é muito boa e possível com plantio direto.”

CRISE & MERCOSUL

Para Eurico Dornelles a crise global da lavoura arrozeira gaúcha seria muito grave se não existisse essa parcela de produtores que fazem plantio direto e que obtêm um melhor balanceamento na relação custo/benefício. E vai mais longe ao afirmar que sem o sistema teríamos mais dificuldades para enfrentar o MERCOSUL. Em terras novas e não inçadas, argentinos e uruguaios tem condições de obter maiores produtividades com o direto. “Nós aqui com a terra inçada, e se continuássemos no convencional nunca iríamos nos livrar dos inços, teríamos muitas dificuldades em competir. Desse jeito, com o plantio direto, estamos em igualdade de condições. É preciso dizer que não existe terra cansada ou fraca. O que existe é terra bem ou mal trabalhada, plantio bem ou mal feito”, afirma ele.

A VEZ DA PESQUISA

Sozinhos, pela troca de experiência, os produtores gaúchos chegaram ao auge. Para evoluir, agora, somente junto com a pesquisa. E é o que está acontecendo. As faculdades de agronomia de Porto Alegre, Santa Maria, Bagé, Pelotas e Uruguaiana, mais o IRGA e o Centro de Pesquisa Agropecuária de Terras Baixas, da EMBRAPA desenvolvem programas integrados com produtores, Clube e empresas em busca de um aperfeiçoamento do sistema, inclusive em termos de reduzir ainda mais os custos. Os resultados não surgem de uma hora para outra, mas esta coordenação, com a presença forte da pesquisa, cria um novo ânimo, aponta para nova evolução. “De peito aberto, sem máquinas, sem informações, sem assistência chegamos até aqui. Para avançar só com a pesquisa, e é o que esperamos”, ressalta Dornelles.

PRIORIDADES

Na área da pesquisa existem duas prioridades entre essas Instituições. O professor Afrânio Rifhes, de Santa Maria, coordena os estudos para chegar a uma máquina específica para plantio direto em arroz irrigado. Desde a primeira, que era para plantio direto de trigo, até hoje, o que se teve foram adaptações e agora se deseja uma máquina especial. A outra prioridade, sob a coordenação do professor Francisco Xavier, em Pelotas, centra-se em cima dos herbicidas, avaliados dosagens, modo e época de aplicar agroquímicos dessecantes, pós e pré-emergentes e outros.

SEMENTE

Para o conjunto da orizicultura a busca de novas variedades é imprescindível. Para Dornelles, diante da crise financeira do governo, que não aloca recursos para a pesquisa, embora tenha técnicas capacitados, chegou a hora de colocar a iniciativa privada nessa atividade. Mas isso somente será possível com uma lei de proteção autoral a quem lançar uma nova variedade. Diz que o “governo já fez o que tinha que fazer”.

AMBIENTE

“A gente diz que a coxilha tem erosão, mas a várzea também tem. Hoje constatamos que as lavouras de arroz com plantio direto têm água limpa e as que estão no convencional possuem água suja correndo nos vales. Há, então, um controle de erosão. Outra coisa, com o direto houve uma redução no uso de agroquímicos, e hoje temos mais peixes e mais pássaros. Também em termos de meio ambiente ocorrem vantagens”, afirma o presidente do Clube do Plantio Direto do Arroz Irrigado.

TENDÊNCIA

Como há uma crise financeira entre os arrozeiros e como é necessário um investimento inicial em máquina especializada e preparo de pessoal que trabalha na propriedade muitos estão adiando para mudar de convencional para o direto. Mas isso não afeta uma tendência de médio e longo prazos do sistema se generalizar. “Nosso principal capital é a terra, que antes não dávamos muito valor e que hoje aprendemos a valorizar. Não se pode pensar em somente explorar a terra sem dar-lhe benefícios. E a maneira que se tem de dar esses benefícios é fazendo plantio direto, onde não se fazem agressões e se usa a terra de modo adequado”, finaliza Eurico Dornelles.

entrevista com Eurico Dornelles — produtor pioneiro em Alegrete e Quaraí-RS, presidente do Clube do Plantio Direto no Arroz Irrigado. Histórico desde 1980 → safra 91/92 (230 mil ha de 800 mil totais). Cita pesquisas de UFRGS, UFSM, UFSM-Bagé, UFPel, UFR Uruguaiana, IRGA e CPACT-EMBRAPA. Coordenadores: Prof. Afrânio Rifhes (Santa Maria) e Prof. Francisco Xavier (Pelotas)