Pode ser considerada perfeita em todos os sentidos a viagem que um grupo de engenheiros agrônomos e produtores ligados ao plantio direto fez aos Estados Unidos no mês de agosto. O roteiro, técnico e turístico ao mesmo tempo, montado inicialmente pelo engenheiro agrônomo João Carlos Moraes Sá — Juca, da Fundação ABC, que já havia percorrido basicamente o mesmo trecho, em ocasião anterior, com agricultores e técnicos do Paraná, objetivava verificar os avanços e a atual situação do plantio direto no país que nos forneceu as primeiras sementes para o desenvolvimento do sistema.
Montado com a necessária antecedência, contando com a colaboração de empresas como Semeato, BASF, Braskalb e Monsanto, que auxiliaram na elaboração do programa, a comitiva de brasileiros foi recebida de uma maneira gentil e emocionante pelos americanos: agricultores, engenheiros agrônomos, empresas e, principalmente, pelos pesquisadores das universidades e estações de pesquisa que foram visitadas.
O Jornal do Plantio Direto, que organizou a viagem, juntamente com o pesquisador Rainoldo Kochhann, do CNPT-Embrapa, e a IPÉ Assessoria de Viagens, de São Paulo, pretende dar uma idéia do que foi essa maravilhosa viagem, falando sobre o roteiro, impressões gerais e particulares, entrevistas e artigos técnicos sobre assuntos ligados ao “no till”.
Para 1994, já existem candidatos inscritos para a viagem. Atendendo às sugestões dos amigos norte-americanos, ela deve ocorrer em julho, quando acontece aquele que é considerado o maior evento relativo ao sistema nos Estados Unidos, em Milan, no Estado do Tennessee.
O ROTEIRO PERCORRIDO
CHICAGO — Depois de um vôo de 12 horas, partindo do Rio de Janeiro, Chicago impressiona por sua beleza e por tudo aquilo que a leva a ser considerada a melhor representante do “american way of life”: o aeroporto mais movimentado do planeta, o maior edifício, museus fantásticos, a principal bolsa de cereais do mundo (que visitamos na segunda-feira, com o mercado de soja inexplicavelmente para nós com alguns pontos em baixa).
DEKALB — Localizada no município do mesmo nome, no Estado de Illinois, a Dekalb (Braskalb no Brasil) é uma das principais empresas produtoras de sementes em todo o mundo, destacando-se a criação de novos híbridos através da biotecnologia. Tivemos uma visão importante desse mecanismo.
AGRONOMIC DEVELOPMENT CENTER — Lexington, Illinois — Em pleno Corn Belt, o cinturão do milho norte-americano, o engenheiro agrônomo e produtor Jim Kinsella fez um acordo com a BASF para que sua fazenda, de 220 ha, passasse a ser uma área demonstrativa do sistema plantio direto. Isto em 1989. Com características de clima e solo diferentes das nossas, o Centro já recebeu mais de 40.000 pessoas, entre agricultores e técnicos, dos Estados Unidos e do resto do mundo. No dia em que fomos recebidos, à tarde, cruzamos com um grupo de visitantes chilenos. No dia anterior, Kinsella havia atendido a uma comitiva de russos. Por unanimidade, consideramos um dos pontos mais importantes do roteiro.
UNIVERSIDADE DE ILLINOIS — Champagne, Urbana — A visita à Universidade de Illinois também foi marcante. Num programa coordenado pelo pesquisador brasileiro Cláudio Puríssimo, professor da Faculdade de Agronomia de Ponta Grossa-PR (a única que possui a cadeira de Plantio Direto no Brasil), que está fazendo curso naquela universidade, a comitiva brasileira teve acesso a algumas das principais tecnologias que estão sendo pesquisadas. Conhecemos desde as famosas parcelas de rotação de cultura “Morrow plots”, conduzidas desde 1876, as mais antigas dos Estados Unidos, até as pesquisas sobre dosagens de fertilizantes programados com auxílio de computador, ligado ao sistema GPS de satélites.
MONSANTO — A enchente do Rio Mississipi já havia passado, restavam apenas alguns alagados e as sequelas da maior de todas as inundações acontecidas naquela região. St. Louis também é uma bela cidade e a recepção na Monsanto foi das melhores. Ficamos conhecendo, além de uma visão geral sobre o plantio direto nos Estados Unidos, as instalações da empresa, onde são pesquisados elementos de engenharia genética, uma revolução na agricultura, que já está a caminho. Construções modernas, que contam com apoio econômico até de universidades, abrigam trabalhos de pesquisas de 250 PHDs. Entre os produtos da engenharia genética que já estão sendo testados a campo, citamos a soja resistente a Glifosate.
UNIVERSIDADE DE KENTUCKY — Lexington — Aqui foi um momento marcante do roteiro. Contamos com a recepção de uma pessoa especial, conhecida dos brasileiros que fazem plantio direto: Mr. Grant Thomaz, um dos pesquisadores que, juntamente com Shirley Phillips e outros, iniciou as pesquisas de plantio direto nos Estados Unidos. Com Bob Blevins e membros da equipe de pesquisadores da Universidade de Kentucky, G. Thomaz nos proporcionou um pequeno seminário sobre a evolução do plantio direto em seus aspectos fundamentais como fertilidade e matéria orgânica, entre outros, mostrando-nos as parcelas mais antigas sob o sistema e, além de tudo, recebeu o grupo em sua residência para que matássemos a saudade de um churrasco. No segundo domingo da viagem, em Lexington, visitamos o Kentucky Horse Park, o museu do cavalo. Lá, eles admitem que os cavalos voam, mesmo sem ter asas…
UNIVERSIDADE DA GEÓRGIA — Griffin — A recepção a nós proporcionada por Bill Hargrove e demais integrantes da Georgia University Station, em Griffin, foi igualmente carinhosa e de alto aproveitamento técnico. Além de um seminário sobre pesquisas conduzidas na direção de uma agricultura sustentável, que atrai pesquisadores de todo o mundo, visitamos campos experimentais, com destaque para matéria orgânica e controle de ervas, e lavouras de plantio direto. Entre os pesquisadores que nos acompanharam, estava Névio Nuermberg, da Faculdade de Agronomia de Lages-SC, que nos auxiliou na tradução.
UNIVERSIDADE DO ALABAMA — Laboratório de Dinâmica do Solo, Auburn — Fechando com chave de ouro nosso roteiro, fomos recebidos na deliciosa cidade [pelo pesquisador Wayne Reeves]. O laboratório, pertencente ao USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), mostrou os impressionantes equipamentos com os quais eles pesquisam o impacto das máquinas e implementos sobre os diversos tipos de solos. Vimos vários experimentos de outras áreas, como fertilidade na cultura do milho, promissora variedade de milheto e plantio direto. Na última tarde do programa, uma visita ao maior centro de piscicultura de água doce do mundo, onde o diretor da instituição, John W. Jensen, que morou 6 anos no Brasil, deslumbrou com todos os detalhes científicos da criação, principalmente do Catfish. Para completar, Wayne Reeves e sua família nos recepcionaram com um jantar inesquecível.
Depois, Miami, para nos acostumarmos aos poucos com o Brasil…
matéria sobre o 'No Till Tour' aos EUA em agosto/93. Roteiro técnico-turístico montado pelo Eng° Agr° João Carlos Moraes Sá (Juca, Fundação ABC). Coord: Jornal do PD + Rainoldo Kochhann + IPÉ Assessoria. Apoio: Semeato, BASF, Braskalb, Monsanto. Roteiro: Chicago (CBOT), DeKalb-Illinois (Dekalb/Braskalb), Lexington-Illinois (BASF/Jim Kinsella), U.Illinois (Cláudio Puríssimo, Morrow Plots desde 1876), St. Louis (Monsanto), U.Kentucky-Lexington (Grant Thomaz, Bob Blevins), Kentucky Horse Park, U.Geórgia-Griffin (Bill Hargrove, Névio Nuermberg), U.Alabama-Auburn (Wayne Reeves, USDA, John W. Jensen pisicultura/Catfish), Miami. Próxima viagem julho/94 em Milan-Tennessee