“Entrar no plantio direto é uma virada na vida que demanda muito treinamento, exige repensar e reeducar-se. É preciso mudar de atitude e você tem que se aprimorar”. Assim foi uma das inúmeras manifestações do engenheiro agrônomo Jim Kinsella, de Lexington, Illinois, que há 17 anos faz plantio direto. Desde 1979, a BASF estabeleceu um convênio com Kinsella para que sua área de 220 ha se tornasse um centro de difusão de tecnologia do plantio direto e até agora (contando com os 10 brasileiros que o visitaram no dia 11 de agosto) já passaram por lá 40.000 pessoas, vindas dos Estados Unidos e de diversas partes do mundo.
Durante meio dia Jim Kinsella apresentou-nos uma síntese do seu vasto conhecimento sobre manejo conservacionista e plantio direto. Aqui, um pouco de sua história e de sua prática de agricultura sustentável.
HISTÓRIA
“Cresci como filho de fazendeiro, vivia em cima do trator. Aos 10-12 anos comecei a me interessar por solos. Cursei agronomia em Wisconsin e fui trabalhar numa companhia particular mas sempre quis voltar para o campo. Com o pai prestes a se aposentar, resolvi recomeçar e encarar novamente a lavoura.”
EROSÃO
“Depois de 10 anos afastado, pude observar a erosão que ocorreu neste período. Se você vê todos os dias, não se dá conta das perdas que estão ocorrendo. Os córregos ficam aterrados, os postes das cercas desaparecem. Algo similar ao filho, que cresce mas você não vê... Resolvemos planejar as atividades para um prazo mais longo e, na safra de 1975, já começamos com 1/3 de plantio direto em milho e um pouco em soja. Em 76, fizemos 50% de milho e mais um pouco de soja. Em 1978 estávamos com 100%”.
COMEÇO DIFÍCIL
“Era difícil naquela época. Não tínhamos equipamento, não havia tecnologia e os produtos não eram eficientes. Com tais problemas, procurei trocar experiências com agricultores que estavam estabelecidos há mais tempo. Para mim, entretanto, não havia outra saída a não ser plantio direto. Tive problemas com o controle de gramíneas mas o fato de trabalhar na BASF proporcionou-me acesso a novos produtos, o que me fez acreditar no sucesso futuro do controle de invasoras. Da mesma maneira, tive acesso às companhias fabricantes de equipamentos, sugerindo adaptações”.
SISTEMA
“Durante o final da década de 70, início de 80, ainda estávamos tentando dominar a tecnologia, mas com o passar dos anos, em meados dos anos 80, sentia que tinha um sistema seguro e que poderia repassá-lo para outros agricultores. Então começamos a fazer uma difusão através de reuniões, trocas de experiências, dias de campo, etc. Em 1986, em apenas uma semana, recebemos a visita de 2.000 pessoas. Com o suporte da BASF, já tivemos até hoje cerca de 40.000 pessoas nos visitando”.
PD NOS ESTADOS UNIDOS
“A evolução do plantio direto nos Estados Unidos tem sido errática e não consistente. Neste ano, os agricultores do meio oeste (Corn Belt) descobriram que é mais fácil plantar soja em plantio direto do que milho e, pela primeira vez, a área de soja em plantio direto superou a de milho. Para 1993 existe uma área a mais de 21% em soja e 19% em milho. Estamos próximos de 1/5 de cada [cultura em PD]”.
MATÉRIA ORGÂNICA
“Existe uma tendência de dobrar a matéria orgânica em [poucos anos]. Em amostras retiradas aqui em 1974, antes do plantio direto, em profundidades de até 15 cm, o nível de matéria orgânica era de 1,8. Em 87, já havia dobrado. Onde tem pastagem permanente, segundo demonstram [pesquisas em] Illinois, o nível de M.O. é de 4,9, mas à medida que se intensifica o preparo do solo o nível vai caindo para até 1,7.”
“Estudos feitos pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos demonstram que o revolvimento do solo acarreta uma perda de gás carbônico (CO&sub2;) bem maior do que no sistema plantio direto. Através da medida da evolução do CO&sub2; ficou demonstrado o que ocorre com a matéria orgânica no plantio direto e nos demais sistemas. A perda de CO&sub2; dobrou com o uso de aiveca. Após 19 dias do preparo com aiveca, havia sido perdido mais CO&sub2; do que o acumulado durante todo o ano. Quando revolvemos, não só expomos o solo e a matéria orgânica que foi incorporada no ano passado, mas de muitos anos e de muitos subprodutos do humus que estavam sendo decompostos lentamente e que serão destruídos com a exposição. Se não revolvemos, o carbono orgânico é mantido dentro do solo e não se perde”.
entrevista com Jim Kinsella (Lexington-Illinois), 17 anos de PD. Convênio BASF desde 1979 — fazenda 220 ha como Centro de Difusão (40.000 visitantes). Histórico: filho de fazendeiro, formado em Wisconsin. Iniciou PD em 1975 (1/3 milho), 100% em 1978. Sistema seguro a partir de meados dos anos 80. Soja em PD em 1993 superou milho pela 1ª vez. Matéria orgânica dobrou em 1974→1987