“[A ocupação dos cerrados é um] processo. Somente com o que já está explorado, cerca de 10 milhões de hectares, é possível produzir o dobro de grãos, desde que verticalizemos a produtividade”.
As afirmações são do engenheiro agrônomo José Xavier de Almeida Neto, diretor da Escola de Agronomia de Goiânia e presidente do XXIV Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, realizado na capital de Goiás, no final de julho/93. José Xavier estava feliz com o nível do evento que reuniu mais de 1.000 pessoas, entre pesquisadores, extensionistas e outros técnicos, com a finalidade principal de discutir o uso dos Cerrados nos próximos anos.
Durante uma semana, foram apresentados e debatidos trabalhos de pesquisa sobre ciência do solo elaborados nas universidades e outras instituições do país e do exterior. Muitos extensionistas estiveram presentes, o que significa a possibilidade de aplicação prática das pesquisas apresentadas.
Um importante dia de campo foi conduzido na EMGOPA, quando foram apresentados os trabalhos de pesquisa com plantio direto e outras tecnologias que são direcionadas para um aproveitamento mais racional do bioma Cerrados.
Para José Xavier de Almeida, presidente do Congresso, “os Cerrados são a maior fronteira agrícola do mundo, com potencial de produção ainda inaproveitado, em sua maior parte. De 204 milhões de hectares, cerca de 176 milhões, ou 2/3 da área total, são considerados aptos para a agricultura. Atualmente, 35 milhões são explorados com pastagens, 10 milhões com grãos e 2 milhões com culturas diversas”.
Segundo ele, a verticalização da produtividade, aplicando uma tecnologia mais adequada, deve ser o caminho para a exploração dos Cerrados, porque o aumento da produção numa área já explorada permitirá uma expansão mais cautelosa em cima das áreas novas. Além disso, enfatizou Xavier, “usando bem o cerrado, com uma tecnologia viável, já existente, nós podemos evitar de conhecer áreas como a Amazônia, um mosaico de terras arenosas e ruins, cujas expansões podem esperar uma melhor pesquisa, um nível de manejo adequado para essas áreas”.
Nas declarações ao Jornal do Plantio Direto, José Xavier de Almeida Neto enfatizou que o aumento da produtividade deve ser seguido com um desenvolvimento da parte social, para que a população brasileira tenha um poder aquisitivo e consiga se alimentar melhor. “Estarmos num país com um potencial produtivo igual o nosso e sabermos que 30 milhões de pessoas passam fome e 70 milhões não podem escolher os alimentos, em função do preço, é muito ruim para nós.”
Encerrando, ele ressaltou que os responsáveis pela ocupação dos Cerrados precisam ser cautelosos porque, se não utilizarmos um manejo sustentável, essa fronteira agrícola acaba e nós vamos para outra, sem termos pacto social, sem produtividade, sem uso adequado do solo. Se não preservarmos o solo, as gerações futuras terão problemas, é um desrespeito muito grande com os jovens e com os que ainda estão por vir. Por enquanto, precisamos preservar até espécies raras que, entre outras finalidades, podem ser usadas como medicamentos.
matéria sobre o XXIV Congresso Brasileiro de Ciência do Solo (Goiânia, julho/93, +1.000 pessoas). Presidente: José Xavier de Almeida Neto. Tema: Cerrados como fronteira agrícola. Dados: 204M ha cerrado, 176M aptos para agricultura (35M pastagens, 10M grãos, 2M culturas). Dia de campo na EMGOPA. Defende verticalização vs expansão para Amazônia. Crítica social: 30M passam fome, 70M não escolhem alimentos