Todos os órgãos de pesquisa estão preocupados e programando trabalhos na área de plantio direto nos Cerrados. Para João Gaspar Fanas, especialista em matéria orgânica da EMGOPA, os pesquisadores precisam ter uma responsabilidade social e ver o plantio direto do ponto de vista ecológico. “Nós temos que manter os poluentes na fonte, no local onde são aplicados, inativá-los ali mesmo para evitar a contaminação dos lençóis freáticos e dos cursos d’água. Existe água nos Cerrados mas não se trata de um manancial inesgotável, e a maneira que nós temos para fazer essa conservação, do ponto de vista global, não só da terra mas da vida como um todo, é o plantio direto”.
Já o pesquisador Plinio Itamar de Souza, do CPAC-EMBRAPA, de Brasília, acha que uma das vantagens iniciais do plantio direto nos cerrados é a queda da monocultura da soja existente na região. Segundo ele, o desenvolvimento do sistema na região enfrenta uma contradição interessante: em primeiro lugar, ocorre a necessidade básica de se mexer menos no solo, agredir menos esse ecossistema frágil. A estrutura física do solo é muito boa mas, devido às temperaturas elevadas, a deterioração ocorre com facilidade. Por isso, o plantio direto é uma necessidade óbvia.
De outro lado, ponderou Plinio ao Jornal do Plantio Direto, a introdução do sistema é dificultada pela falta de uma tecnologia definida de cobertura do solo. Segundo ele, os Cerrados possuem duas estações definidas: uma chuvosa, com precipitações somadas de até 1.800 mm, de novembro a abril. A outra, seca, de maio a outubro, não favorece o estabelecimento de culturas de cobertura. Segundo o pesquisador, a resteva de milho, que dura mais, é decomposta pelo calor e insolação de abril a outubro. Para mantê-la, muitos agricultores incorporam esses restos, o que elimina a idéia do plantio direto.
VIABILIZAÇÃO
“A pesquisa precisa crescer muito nessa área para conseguir estabelecer uma cobertura morta viável mas, mais cedo ou mais tarde, nós vamos conseguir”, afirmou Plinio. “O que está se fazendo para viabilizar o plantio direto? Uma das ações é deixar que o mato cresça, a partir das primeiras chuvas ele desenvolve rápido, pois as espécies da região estão adaptadas para isso. Antes do plantio, aplica-se um herbicida dessecante”.
Finalmente, para quem quer iniciar a semear direto nos Cerrados, o pesquisador do CPAC recomenda atenção para três itens principais:
• 1) Não pode haver camada compactada. O plantio direto é um sistema de conservação do solo e este precisa estar bem corrigido, tanto física como quimicamente.
• 2) O perfil do solo tem que estar corrigido, o solo dos Cerrados é muito pobre em termos químicos, baixo pH e baixa presença de nutrientes. É necessária correção para que o sistema radicular possa absorver nutrientes no perfil.
• 3) Atenção para a questão das ervas. É preciso um mapeamento das lavouras e cuidar principalmente com as invasoras perenes.
depoimentos: João Gaspar Fanas (especialista MO da EMGOPA, sobre proteção dos lençóis freáticos) e Plinio Itamar de Souza (CPAC-EMBRAPA Brasília, sobre dificuldades técnicas). Cerrados: chuvas só nov-abr (1.800 mm), seca mai-out. 3 recomendações: 1) sem camada compactada, 2) perfil corrigido (pH baixo, baixos nutrientes), 3) atenção às ervas perenes