“O produtor precisa estar confiante naquilo que está fazendo, com a certeza de que vai dar certo. Depois de sete anos com plantio direto na Fazenda Três Pinheiros, os agricultores vêm com seus próprios olhos, cavam com a própria botina um solo fofo onde não chove há 3 meses mas acabam inventando uma desculpa para não mudar. Você sente neles que faltou confiança, faltou determinação.”
Para Ademir Baumeller, engenheiro agrônomo, gaúcho de Três de Maio, que dirige a Sementes Três Pinheiros, em Goiás, desde 1986, para que o agricultor que inicia plantio direto não desanime no primeiro ano, é fundamental a assistência técnica de um engenheiro agrônomo que esteja vivenciando o sistema. Baumeller foi um dos participantes no painel sobre “Plantio Direto nos Cerrados” realizado durante o XXIV Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, em Goiânia. Na ocasião ele concedeu uma entrevista importante ao Jornal do Plantio Direto, narrando detalhes daquela que é uma das experiências mais positivas de manejo conservacionista no Cerrado.
A Sementes Três Pinheiros, que ele dirige, tem uma área plantada de 7.000 ha, com possibilidade de atingir um patamar de 10.000 ha proximamente. Metade da propriedade está localizada no Distrito Federal, a 45 km de Brasília, na direção de Formosa. A outra parte está localizada no município de Cabeceiras de Goiás, perto da divisa com Minas Gerais.
COMEÇO
Formado na Faculdade de Agronomia em 1984, vim para o Distrito Federal, trabalhando inicialmente na ICI. Em 1986 comecei a trabalhar na Três Pinheiros. Em 1989 iniciamos uma área piloto de plantio direto, cerca de 300 ha, em cima de uma área que fazia preparo convencional há mais de 10 anos, com soja e milho, principalmente.
Como pioneiros, tivemos uma série de dificuldades. As informações que possuía sobre o sistema eram da Universidade e, desde o início, em 86, eu insisti para que fizéssemos plantio direto, mas a diretoria resistiu até 89. Minha argumentação era em cima dos fatos: nós nunca conseguíamos plantar a maior parte da lavoura na época certa porque ocorriam problemas de erosão ou germinação antecipada das ervas e nós tínhamos que trabalhar novamente a terra, no mínimo com grade, e acabávamos de plantar em dezembro.
Eu via aquele mato, aquela cobertura toda e sempre achei que fosse possível fazer plantio direto naquelas condições. No começo, em 1989, houve uma decisão quase que imposta, em função de uma semeadora comprada para o plantio de milho que, com pequenas adaptações, nos permitiu fazer uma boa semeadura.
O TEMOR DA COMPACTAÇÃO
“O problema da compactação do solo era uma dúvida muito grande que nós tínhamos. É um entrave para o desenvolvimento do plantio direto pois muitos produtores ainda questionam, pensando que o não-revolvimento do solo possa acarretar compactação, quando na verdade é o contrário. Com o passar desses anos, posso afirmar que nossos solos estão estruturados fisicamente, com um percentual de matéria orgânica bem melhor do que era no começo, quando o solo estava pulverizado por 11 anos de plantio convencional. Hoje, a penetração dos instrumentos para semear é fácil, a colocação da semente e o desenvolvimento das raízes ocorre ao natural. Mesmo que ocorram áreas com teor de argila ao redor de 70%, o solo está cada vez mais fofo e melhor estruturado.
ECONOMIA
Nós temos conseguido bons resultados econômicos com o desenvolvimento do sistema porque, entre outras coisas, não temos mais erosão, não temos mais problemas de compactação do solo, o desgaste das máquinas é menor, ocorre uma economia de combustível e plantamos numa época mais adequada. Por tudo isso, o plantio direto nos dá uma economia média de 10% nos custos de produção. Ganhamos 10% simplesmente por não mexer na terra, e que ainda nos proporciona uma média de produtividade mais elevada no conjunto da lavoura. Além disso, na produção de sementes obtivemos uma vantagem significativa de 40% dos grãos produzidos no plantio direto em relação aos de áreas convencionais, pois os primeiros não sentiram o efeito da estiagem enquanto que no segundo os grãos ficaram imperfeitos, caindo fora na hora de classificar. Num ano como este, em que a demanda por semente de soja está aquecida, isto pode representar um ganho acima de US$ 100,00 por hectare.
A QUESTÃO CRUCIAL DA COBERTURA DO SOLO
Hoje eu diria que a maior dificuldade para o plantio direto no Cerrado é a produção de massa para cobertura do solo. Acho que precisamos evoluir muito nesse sentido. Por enquanto, 70% do nosso plantio direto é feito em cima de mato (ervas). Eu gosto de classificar o plantio direto em 3 tipos: em cima do mato (70% da nossa área); safrinha de milho, sorgo ou girassol (20%) e milheto (10%), que é usado exclusivamente para cobertura.
No caso de plantio direto sobre o mato, existem duas ervas que se destacam: a Buva e o Capim [Favorito], que para o Cerrado serve [como cobertura]. O Capim Favorito germina em maio, quando já está colhida toda a safra, propiciando um aumento da massa seca.
CONTROLE DE ERVAS
Existe uma diferença na ocorrência de ervas em relação aos tipos de solos. Nas partes mais arenosas elas estão mais presentes, principalmente as gramíneas. Na verdade, temos um grande potencial de ervas, as quais não procuramos eliminar mas sim conviver com elas, mesmo na cultura de soja. As coberturas, como o milheto, têm efeito alelopático e ajudam no controle. Da mesma forma, o Capim Favorito possui um efeito supressivo sobre outras invasoras. Mas nós não buscamos 0% de ervas na propriedade. Na entressafra nós deixamos elas sementarem. Temos de tudo: pição preto, trapoeraba, Maria Pretinha, capim carrapicho, capim colchão e outros.
O manejo de ervas foi um pouco complicado no início. Muitas aplicações de produtos ou misturas deixaram a desejar. Hoje isso está resolvido. Ainda enfrentamos alguma dificuldade na aplicação dos herbicidas de [pós-emergência, especialmente para encontrar o] melhor momento: grãos cheios, primeiras quedas de folhas. Temos tido insucessos nessas tentativas. […]
Aqui [no Cerrado], o que está faltando para nós é saber o momento certo [da aplicação]. Acho que fazer plantio direto no Cerrado é mais fácil, apesar de que é muito mais favorável produzir coberturas no Sul. No Cerrado, é possível fazer uma programação melhor para o controle de ervas.
entrevista com Eng° Agr° Ademir Baumeller (gaúcho de Três de Maio), diretor da Sementes Três Pinheiros (Goiás) desde 1986. 7.000 ha (10.000 ha potencial) — DF/Brasília-Formosa + Cabeceiras de Goiás. Iniciaram PD em 1989 (300 ha após 10 anos convencional). Cobre p8+p9. Compactação, economia (10% custos + ganho US$ 100/ha sementes), 70% PD sobre mato + 20% safrinha + 10% milheto. Buva e Capim Favorito. Painel Cerrados no XXIV CBCS