METAS — PROJETO ACELERA NÍVEL DE ADOÇÃO DO PLANTIO DIRETO
“As tecnologias que produzimos para daqui a 5-10 anos não são mais para plantio convencional. Nós imaginamos que o amanhã do Plantio Gaúcho, foco maior da nossa pesquisa, é o plantio direto.” As declarações foram de Euclides Minella, chefe do Centro Nacional de Pesquisas de Trigo, EMBRAPA de Passo Fundo, durante o encerramento de mais uma etapa de treinamento para a assistência técnica do Projeto Metas, que objetiva a pesquisa e difusão do sistema plantio direto na palha no Planalto do Rio Grande do Sul.
O Projeto METAS é uma parceria do CNPT-EMBRAPA com as empresas Monsanto, Trevo, Agroceres e Semeato, que investiram recursos numa programação de 5 anos em que o CNPT conduz um programa de pesquisas e difusão para os assistentes técnicos da região. Quando atinge o seu primeiro ano de existência, o METAS ultrapassou as perspectivas estabelecidas, de tal forma que o objetivo proposto de alcançar 150.000 ha de área com plantio direto na região de abrangência ao final dos 5 anos, foi atingido já na safra de verão 93/94.
“Isto é muito importante para todos os envolvidos no Projeto, não só EMBRAPA e as empresas mas também a Emater, cooperativas, prefeituras e escritórios de planejamento, que extrapolam a parceria inicialmente prevista. Os objetivos foram atingidos e o desafio agora é manter essa área e crescer de forma ordenada, sem riscos de voltar atrás.” Quem assim falou foi Vitor Hugo Carrão, engenheiro agrônomo da Monsanto, que coordena a parte das empresas envolvidas com o projeto. O entusiasmo de Carrão se justifica porque, em um ano, o projeto ganhou consistência, com resultados práticos em nível de campo e sua imagem já alcança eco no Brasil e no exterior.
DEBATE COM PRODUTORES
Durante 4 dias, divididos em dois grupos (Emater, cooperativas e escritórios de planejamento), os engenheiros agrônomos extensionistas que fazem parte do Projeto Metas, de pesquisa e difusão do plantio direto no Planalto do Rio Grande do Sul, assistiram palestras de assuntos específicos, como controle de ervas, coberturas de inverno, insetos associados, e trouxeram para debate os principais problemas que observaram na safra recém-colhida.
Foram avaliados os resultados obtidos até agora nas lavouras demonstrativas, instaladas em diversas regiões, sob assistência dos treinandos, da Emater e demais segmentos envolvidos. Além dos debates entre os participantes e pesquisadores do CNPT-EMBRAPA, no encerramento dessa fase de atividades, foram convidados dois agricultores da região, usuários do plantio direto há vários anos. Vilmar Zanatta, que planta 150 ha de culturas de verão, além de gado de leite e suinocultura, em Tapejara, e Enir Ducker, de Coxilha, com cerca de 300 [ha] de milho, soja, aveia e trigo, ambos com quase 10 anos de plantio direto, trocaram idéias durante quase duas horas sobre diversos itens como conduzem suas lavouras.
Abaixo, reproduzimos algumas das manifestações dos dois produtores, no diálogo com os extensionistas e pesquisadores ligados ao projeto Metas, no encerramento do treinamento, no Hotel Maitá, em Passo Fundo.
A POLÊMICA DOS TERRAÇOS
Enir Ducker: “Nós retiramos os terraços há cerca de 4 anos. Antes disso, nós ouvíamos falar que o pessoal do Paraná, principalmente, já havia tirado. Bem, depois que nós tiramos, eu não vejo porque tinha terraço, não vejo mais necessidade do terraço. No ano em que tiramos, a propriedade estava dividida em 3 áreas. Numa delas, fizemos como devia, tiramos os terraços, nivelamos bonitinho. Na 2ª área, tínhamos passado o escarificador mas ainda não havia sido nivelado totalmente e, finalmente, na 3ª área ainda estava com os terraços. Aí, para testar, vejo uma chuva de 200 mm em uma hora e a única área que não riscou, que não correu foi aquela que tinha tirado totalmente os terraços. E não tinha cobertura. Tinha a perigosa palha de soja. Na área que estávamos trabalhando deu alguns riscos de erosão e, naquela que tinha terraços de base larga foi aquele tendéu de sempre: a palha de soja picadinha enche um canal, estoura um terraço e vai tudo embora.”
Vitor Hugo Carrão, da Monsanto: “Já havia um planejamento de rotação de culturas e coberturas quando tomaram a decisão de retirar os terraços?”
Vilmar Zanatta: “Nós já fazíamos rotação de culturas há 10 anos e antes de tirar os terraços nós nos preocupamos em ter uma cobertura, não era em qualquer área que dava para desmanchar, sem estrutura. Nossos terraços eram de base estreita e nós fomos eliminando por partes. Retiramos os do meio 1º e depois eliminamos o resto.”
Ducker: “Nós já fazíamos rotação de culturas e coberturas no inverno. A hora que achamos que o solo estava estruturado o suficiente, que eu acho que tem que ser com 4 anos de plantio direto, nós eliminamos os terraços. Mas acho que tem que ter também, pelo menos, dois anos de milho. De preferência plantar milho, soja e aí faz a retirada.”
DIFICULDADES DO PLANTIO DIRETO
Vilmar Zanatta: “No início, nós não tínhamos conhecimentos, faltavam máquinas. Começamos no verão e, no inverno, não tínhamos cobertura. Hoje, no plantio de milho no cedo ocorre excesso de umidade pois a cobertura dificulta a entrada [do calor]. Estiagem de agosto, ficou bem mais fácil plantar. Em soja, ainda não conseguimos uma produtividade boa, tínhamos problemas de acamamento, mas hoje, já estamos chegando perto do ideal. A mão de obra diminuiu na lavoura. Para os tratores, antes eles faziam 1.000 horas/ano. Hoje são só 500.”
Enir Ducker: “Inicialmente os problemas eram máquinas e o conhecimento. Agora, as máquinas ainda são problemas pois nenhuma é perfeita, cada ano é uma situação diferente, assim como não é o mesmo de propriedade para propriedade. Inicialmente, e agora também, um dos problemas é mão-de-obra, conseguir incutir a cabeça deles porque tem que andar devagar para plantar. O plantio direto tem que estar em cima, não pode ser aquele agricultor de banco de carro, na cidade. Os custos de produção baixaram. Cada ano é uma história diferente mas ocorreram dois anos seguidos em que não usei nenhum tipo de herbicida. Com o tempo, aprendemos a ser mais racionais.”
CULTURAS DE COBERTURA
Vilmar Zanatta: “Usamos aveia preta e ervilhaca, consorciada com aveia para produzir sementes. Para o próximo ano estamos pensando em plantar milho. O que caiu da máquina este ano [germinou] e está uma cobertura muito bonita. Para o milho, utilizamos aveia com ervilhaca. No último ano plantamos só ervilhaca mas a cobertura não foi boa. A cultura do milho em si rendeu bem mas a massa logo desapareceu, depois de termos passado o rolo-faca.”
Enir Ducker: “Continuamos com aveia preta, principalmente por causa da alelopatia. Ela funciona também para reduzir a compactação superficial, rompendo bem uma camada de até 8 cm. Não colhemos semente, em regra, porque atrasa o plantio da soja. Sempre faço umas contas e opto por plantar soja no cedo, colher melhor e comprar a semente de aveia. Este ano me dei mal!”
Enir Ducker: “Em 1º lugar, para que ocorra uma boa assistência técnica, o agrônomo tem que se interessar, porque, o mesmo é válido para o agricultor, se não tiver vontade, não tiver saco, não tiver interesse, a coisa não vai. Nós fomos atrás de inúmeras situações e tivemos que peneirar o que servia. Para os técnicos a coisa é mais [fácil] pois temos sempre coisas novas e a gente sempre acompanha. Fizemos duas viagens ao Paraná e uma a Santa Catarina em busca de tecnologia.”
matéria sobre o Projeto METAS (parceria CNPT-EMBRAPA com Monsanto, Trevo, Agroceres e Semeato), 5 anos. Objetivo de 150.000 ha em PD no Planalto-RS atingido já na safra 93/94. Citações: Euclides Minella (chefe CNPT-EMBRAPA Passo Fundo); José Denardin (CNPT); Vitor Hugo Carrão (Monsanto, coord. parte das empresas). Cobre p10+p11 do jornal. Debate com produtores: Vilmar Zanatta (Tapejara, 150 ha culturas verão + gado leite + suinocultura, ~10 anos PD); Enir Ducker (Coxilha, ~300 ha milho/soja/aveia/trigo, ~10 anos PD). Polêmica dos terraços (eliminação após 4 anos com cobertura+rotação), dificuldades iniciais (máquinas, conhecimento, mão-de-obra). Culturas de cobertura: aveia preta + ervilhaca, alelopatia.