MOLINA: UMA VIDA DEDICADA AO SOLO
Quando se formou em agronomia no ano de 1943, Jorge Molina Buck fez seus últimos exames enquanto os tanques da revolução percorriam a Avenida San Martin. Embora com a carreira afetada mais tarde por razões políticas, Molina dedicou toda a sua vida a estudar o que ocorre no solo, mais especificamente, na camada de um centímetro da superfície da terra, ou, como confessa com modéstia: “trato de explicar-me o que ocorre ali onde o solo mineral se converte em solo biológico”.
Fundador da Asociación Amigos del Suelo na Argentina, aos 75 anos, Jorge Molina Buck trabalha há 44 no Centro de Investigaciones en Biotecnología y Ecologia Microbiana, instituição da qual é diretor científico. Trabalhando em conjunto com inúmeras entidades internacionais, consultor da FAO e do Banco Mundial, é uma das maiores autoridades do planeta em microbiologia do solo e autor de vários livros traduzidos em todo o mundo.
FONTE DA VIDA
Molina fala com entusiasmo diante do movimento que vê florescer no Brasil pela conservação do solo. “A Argentina levou sempre a dianteira nestes temas na América Latina e dos nossos laboratórios saíram muitos especialistas ao longo destes anos todos. Embora não se possa ainda qualificar de massiva, existe hoje uma consciência sobre a necessidade de conservar e melhorar os solos. Os grupos CREA foram pioneiros na matéria e eu fui assessor do primeiro deles em 1957”, explica. Sobre a camada superficial do solo, Molina ensina que ela é a fonte de toda a vida.
“Em primeiro lugar, ali se origina a vida no planeta. Suas bactérias permitem o oxigênio no ar e o nitrogênio assimilável nos solos. Ali é também onde se combate a erosão, e um terreno estéril pode converter-se em fértil. E como subproduto, também é ali que podemos duplicar a produção de carne por hectare de forma econômica, evitar inundações e secas, e ter um seguro para a produção das nossas culturas.”
Na década de 40 era raro alguém falar em temas deste tipo na América Latina. Isso valeu a Molina a explicação do Ministério de Agricultura y Ganadería no ano de 1946.
Responsável pela recuperação de milhares de hectares de terra na Argentina, Venezuela, Bolívia, Paraguai e até no Paquistão, o mestre da microbiologia diz que tudo foi obra da bactéria Azotobácter, descoberta pelo holandês Beijerinsk no princípio do século. “No laboratório, desenvolvemos métodos para prever onde terá êxito esta bactéria e onde não o terá, bem como o que modificar nos solos para recebê-las. Depois, trabalhamos em grande escala em várias zonas do país e no exterior”, conta com humildade.
O reconhecimento internacional não foi suficiente para impedir que Jorge Molina sofresse novamente uma expulsão em 1980, quando sua cátedra de Agricultura Geral na Universidade de Buenos Aires foi extinta, retirando-o do convívio com estudantes, professores e pesquisadores. Neste período ele foi trabalhar no exterior até que, em 1984, a justiça decidiu que sua expulsão havia sido “arbitrária” e ele pôde retomar o trabalho, estudando e aplicando os princípios que são, como diz, “a fonte de toda a vida”. Palestrante do IV Encontro Nacional do Plantio na Palha, Molina se diz um homem feliz por ver, no Brasil e na América Latina, o movimento que cresce a cada dia em favor do plantio direto e de uma agricultura auto-sustentável.
Texto de Edegar da Silva — Publicado no Informativo dos CATs.
perfil escrito por Edegar da Silva (publicado no Informativo dos CATs). Jorge Molina Buck (75 anos), fundador da Asociación Amigos del Suelo na Argentina e diretor científico do Centro de Investigaciones en Biotecnología y Ecología Microbiana há 44 anos. Formou-se agronomia em 1943 (UBA, durante revolução). Consultor da FAO e Banco Mundial. Autoridade do planeta em microbiologia do solo. Trabalho focado na camada de 1 cm da superfície ('onde o solo mineral se converte em solo biológico'). Recuperação de milhares de hectares na Argentina, Venezuela, Bolívia, Paraguai e Paquistão via bactéria Azotobácter. Em 1980 sua cátedra de Agricultura Geral na UBA foi extinta (expulsão 'arbitrária'); em 1984 a justiça reverteu. Palestrante do IV Encontro Cruz Alta.