"PLANTIO DIRETO NÃO É MILAGROSO" — ENTREVISTA COM EURICO DORNELES
"Para mim, o que estamos vivendo não é uma crise, porque crise me parece algo passageiro e o que estamos vivenciando é algo mais profundo, que está nos obrigando a uma mudança no comportamento." A enfática afirmação é de Eurico Dorneles, produtor rural e presidente do Clube do Plantio Direto de Arroz Irrigado, do Rio Grande do Sul, onde o sistema já alcançou um terço dos quase um milhão de hectares plantados. Por ocasião da inauguração da filial da Cooplantio em Passo Fundo, no final de maio, ele conversou com o Jornal do Plantio Direto.
JPD — Os produtores que utilizam a semeadura direta na cultura do arroz irrigado estão sofrendo da mesma forma que os demais, com a atual situação?
Eurico Dorneles — Os produtores que utilizam o plantio direto em arroz conseguiram baixar os custos, mas os juros bancários dos empréstimos agrícolas, principalmente a TR, aumentaram demais. Em seis meses, nós tivemos que pagar uma taxa de 68%. Os custos da lavoura subiram de forma acentuada, enquanto os preços do arroz, que vendíamos a US$ 18,00 há 3 anos atrás, hoje estão em torno de US$ 7,00 a saca. As proporções entre a quantidade de sacas de arroz necessárias para comprar uma automotriz, por exemplo, tornaram-se fantásticas e inviabilizaram os negócios em pouco tempo. Segundo as palavras do próprio presidente do Banco do Brasil, do jeito que foram feitos os financiamentos, nem plantação irrigada de maconha pagaria os custos totais. Se não forem tomadas providências, a área plantada e a produção de arroz diminuirão pela metade.
JPD — O fato do plantio direto diminuir o número de operações pré-plantio e os custos da lavoura, num momento como este, favorece a adesão de novos agricultores ao sistema?
E. Dorneles — Sem dúvida. Porém, é preciso notar que o plantio direto não é milagroso. Nós precisamos treinar para fazer as coisas bem feitas e os resultados do sistema aparecem no decorrer do tempo, não imediatamente.
JPD — Qual a saída para os produtores neste momento?
E. Dorneles — Acho que nós precisamos mudar nossa atitude, nosso comportamento. Acima de tudo, é necessário olhar a propriedade como uma empresa rural. Ela precisa ser vista comercialmente, como uma fonte de geração de lucros. E, para uma estrutura funcionar, necessitamos treiná-la, não só o proprietário mas também o capataz, os tratoristas, os empregados em geral. Existe toda uma situação nova, uma abertura do País para o mundo e, se nós não nos adequarmos à competitividade que está estabelecida lá fora, não sobreviveremos.
Entrevista Eurico Dorneles (produtor rural, presidente Clube PD Arroz Irrigado RS e Cooplantio). RS já tem 1/3 dos quase 1 milhão ha arroz com PD. Crise: TR 68% em 6 meses, arroz baixou de US$18 para US$7/saca em 3 anos. Banco Brasil disse 'nem plantação irrigada de maconha pagaria os financiamentos'. Defende mudança comportamento e propriedade como empresa rural.