EL NIÑO - OSCILAÇÃO DO SUL — UM FENÔMENO QUE INFLUENCIA O CLIMA E A AGRICULTURA
Gilberto R. Cunha — Agrometeorologista da Embrapa-Centro Nacional de Pesquisa de Trigo (CNPT), Passo Fundo-RS. Bolsista do CNPq.
Aumento de prazo nas previsões e a melhor compreensão do clima global são duas questões relevantes na meteorologia moderna. A identificação de fenômenos que, através de teleconexões atmosféricas, influenciam as condições climáticas de regiões distantes do seu local de origem, tem sido a base de previsões em escala sazonal ou interanual e de explicação para anomalias climáticas persistentes.
Nesse contexto está inserido o fenômeno El Niño - Oscilação do Sul, comumente designado pela expressão inglesa ENSO (El Niño - Southern Oscillation), cujo comportamento influencia o clima e a agricultura de diferentes partes do mundo. No Brasil, o fenômeno ENSO exerce influência sobre as anomalias climáticas que se verificam na Região Sul, no norte da Amazônia e no norte da Região Nordeste, particularmente em termos de excessos e deficiências de chuvas.
ANTECEDENTES
O El Niño - Oscilação do Sul constitui um fenômeno de dois componentes: um de natureza oceânica (El Niño) e outro de natureza atmosférica (Oscilação do Sul). A denominação El Niño remonta ao século XVIII e foi utilizada pela primeira vez por pescadores peruanos para designar uma corrente de águas quentes que surgia no Oceano Pacífico, na costa da América do Sul, no final do mês de dezembro. Em alusão ao Natal e ao "Menino Jesus", essa corrente foi chamada de El Niño, "O Menino".
Walker, no início do século XX, demonstrou uma relação inversa entre a pressão na superfície sobre os oceanos Pacífico e Índico, denominada de Oscilação do Sul: quando a pressão é alta no Oceano Pacífico ela tende a ser baixa no Oceano Índico. O episódio de El Niño de 1957/58 foi bastante forte. A conclusão no início dos anos 60 foi de que esses eventos estavam associados e ocorriam em escala interanual. O fenômeno ENSO tem sido objeto de ampla divulgação nos meios de comunicação, particularmente a partir do episódio de 1982/83, considerado o mais forte do século, em que as anomalias climáticas foram responsáveis por prejuízos econômicos da ordem de 13 bilhões de dólares (The New York Times, 2 de agosto de 1983).
Atualmente, o fenômeno ENSO é constantemente monitorado e seus resultados divulgados internacionalmente através do Boletim ENSO Advisory do Climate Analysis Center/National Meteorological Center-USA. O mais recente ENSO Advisory, de 12 de abril de 1995, destaca o final do episódio quente desse fenômeno, que se manteve durante os últimos 3 anos, e a volta à normalidade das temperaturas das águas no Oceano Pacífico Tropical.
MECANISMOS
O fenômeno ENSO tem como região de origem o Oceano Pacífico Tropical, onde, em função dos ventos alísios, há um padrão de circulação oceânica em que, na costa da América do Sul, as águas são normalmente frias e, no extremo oposto (região da Indonésia e costa da Austrália), as águas são normalmente quentes. O comportamento das águas do Oceano Pacífico, associado aos campos de pressão atmosférica, influi na circulação zonal da atmosfera, em uma célula de circulação do tipo Walker.
Em anos de "El Niño", detecta-se previamente um enfraquecimento dos ventos alísios na região do Pacífico Equatorial. As águas anomalamente quentes do Oceano Pacífico Tropical chegam a atingir a costa da América do Sul, altura do Peru e do Equador, e passa a ocorrer ascensão de ar nessa região, fazendo com que a costa experimente chuvas muito acima do normal. O ramo descendente da célula Walker se desloca sobre a região Nordeste do Brasil, determinando secas acentuadas.
O Índice de Oscilação do Sul (IOS) reflete as anomalias de pressão à superfície através de diferenças de pressão entre o Tahiti (Pacífico Central) e Darwin (Austrália). Quando o IOS é fortemente positivo, águas mais frias do que o normal aparecem na região central e parte leste do Pacífico Equatorial. Esse episódio frio é chamado de La Niña e implica anomalias climáticas geralmente inversas às do episódio quente.
IMPACTOS
A corrente de jato intensificada durante o El Niño determina bloqueios na atmosfera, fazendo com que as frentes frias fiquem semi-estacionárias sobre o extremo sul do Brasil, causando os excessos de chuvas verificados durante os anos de El Niño no sul do Brasil e os períodos prolongados de estiagem na Região Sudeste. Durante o desenvolvimento de um episódio do fenômeno ENSO, envolvendo El Niño ou La Niña, ocorrem anomalias climáticas em todo o mundo. A maioria das anomalias associadas ao episódio quente de El Niño se manifestam de forma inversa com o episódio frio de La Niña.
REFERÊNCIAS
HALPERT, M.S.; ROPELEWSKI, C.F. Surface temperature patterns associated with the southern oscillation. Journal of Climate, v.6, p.577-593, 1992. ROPELEWSKI, C.F.; HALPERT, M.S. Global and regional scale precipitation associated with El Niño/southern oscillation. Monthly Weather Review, v.115, p.1606-1626, 1987. ROPELEWSKI, C.F.; HALPERT, M.S. Precipitation patterns associated with the high index phase of the southern oscillation. Journal of Climate, v.4, p.268-284, 1989. STEFANSKI, R. (USDA, Agricultural Handbook, 664). Washington, 1994.
Gilberto R. Cunha (Agrometeorologista CNPT-Embrapa Passo Fundo, bolsista CNPq). Artigo extenso 4 páginas com 6 figuras. ENSO = componente oceânico (águas quentes Pacífico Tropical) + atmosférico (Oscilação do Sul). Histórico: pescadores peruanos séc.XVIII, Walker início séc.XX, episódio 1957/58, episódio 1982/83 prejuízos US$13 bi globais. Boletim ENSO Advisory CAC/NMC-USA. Índice Oscilação do Sul (IOS) baseado Tahiti vs Darwin. La Niña = episódio frio. Impactos BR: Sul excessos chuva, Sudeste estiagem, Nordeste secas.