SISTEMA PLANTIO DIRETO EM ARROZ IRRIGADO — LIMITAÇÕES E ALTERNATIVAS
Algenor da Silva Gomes — Pesquisador da Embrapa-CPACT, Pelotas-RS.
O sistema plantio direto, desenvolvido inicialmente com vista à conservação e/ou recuperação do solo, pressupõe uma movimentação mínima do solo, bem como a proteção de sua superfície com cobertura vegetal morta. Posteriormente, foi associada a estes princípios a rotação de culturas. Na cultura do arroz irrigado, o sistema foi adotado inicialmente objetivando o controle do arroz daninho. A área cultivada com PD na safra 94/95 atingiu 30% da área total utilizada com arroz no RS (aproximadamente 950 mil hectares).
DIFERENÇAS ENTRE PD EM SOLOS ALTOS E EM ARROZ IRRIGADO
Os solos onde se realiza o cultivo do arroz irrigado são bem diferenciados daqueles utilizados no cultivo de espécies de sequeiro em plantio direto. Solos de regiões altas são bem estruturados, profundos e bem drenados (Figuras 1 e 2 mostram Composição de Latossolo Vermelho Escuro: campo nativo vs cultivado 14 anos). Solos de várzea (Figuras 3 e 4: Planossolo e Brunizem Hidromórfico) apresentam condições físicas desfavoráveis às culturas mesófitas: baixa profundidade efetiva, drenagem insuficiente, densidade e relação micro/macroporos elevadas. Essas condições afetam a drenagem interna, podendo provocar estados de anoxia.
Diferenças entre PD em arroz irrigado e em culturas de sequeiro: a) objetivo inicial; b) tipo de solo; c) descompactação; d) diversificação de espécies; e) continuidade do sistema. Semelhanças nos requisitos: a) capacitação gerencial; b) planejamento da lavoura; c) correção do microrelevo; d) correção da acidez e fertilidade; e) cobertura vegetal; f) semeadoras especiais.
ADOÇÃO DO PLANTIO DIRETO EM ARROZ IRRIGADO
Para que ocorra adoção, além da divulgação, a tecnologia deve ser necessária, exequível e rentável. Inicialmente o PD em arroz não cumpria os três requisitos, mas o espírito empreendedor do orizicultor gaúcho superou as necessidades. Em Pelotas, no período ideal de semeadura (15 de outubro a 15 de novembro), em média 12 dias se apresentam com chuva (117 mm precipitação média na faixa de 1985-1994). A área com PD na cultura tem reduzido infestações por arroz vermelho em até 85%.
VANTAGENS
Diretas: melhor controle plantas daninhas; semeadura em época mais adequada; favorecimento do manejo de água; melhor relação custo/benefício. Tempo de máquina para preparo-colheita: convencional 9,77 h/ha vs PD 5,16 h/ha (trator 100 HP). Indiretas: melhor integração agricultura/pecuária (azevém Lollium multiflorum 3x receitas vs flora succession); redução da degradação física/química/biológica; melhor viabilização rotação; sustentabilidade.
SUSTENTABILIDADE
A sustentabilidade pode ser enfocada de três modos: conservacionista (redução perdas erosão), ecológico (poluição, agricultura alternativa), energético (balanço entradas e saídas de energia, antropia). O grau de sustentabilidade depende da capacidade de prover suas necessidades químicas e biológicas com balanços positivos. O "mulch" (cobertura morta) exerce efeitos positivos sobre atributos físicos do solo (estrutura, agregação, porosidade total e microporosidade), químicos/nutricionais (adição de nutrientes, matéria orgânica, CTC), microclima e produtividade. Tabela 2 mostra macronutrientes nas palhadas: arroz 24,2 kg/t total, milho 62, soja 70, trigo 39. Tabela 3 mostra decomposição de resteva de trigo: na superfície 65,7% remanescente após 52 semanas vs incorporado 28,4%.
LIMITAÇÕES À EXTENSÃO DO SISTEMA
Principais: a) arrendamento da terra; b) investimento inicial elevado; c) dificuldades no controle de plantas daninhas (gramas perenes); d) falta de rotação de culturas; e) problemas de drenagem; f) máquinas inadequadas a pequenos e médios produtores; g) falta de divulgação e apoio da pesquisa. Secundárias: falta mão-de-obra especializada, colocação de adubo junto às sementes, presença de arroz vermelho, estande inicial baixo, estiolamento das plantas, falta de crédito subsidiado, qualidade dos equipamentos. Outras: falta de política agrícola estável, capacitação gerencial deficiente, conhecimento insuficiente, desempenho insatisfatório das semeadoras.
ALTERNATIVAS À EXPANSÃO
a) alterações nas relações de produção; b) viabilização da rotação de culturas; c) estabelecimento de sistemas de drenagem eficientes; d) terceirização ou associativismo; e) adaptação de semeadoras convencionais (kits especiais); f) integração orizicultores/pecuaristas; g) capacitação de técnicos, produtores e pessoal de campo sobre o sistema.
ENCARTE ESPECIAL ARROZ IRRIGADO. Algenor da Silva Gomes (Pesq. Embrapa-CPACT Pelotas-RS). Artigo técnico 6 páginas. Diferenças PD em solos altos (Latossolo Vermelho Escuro) vs várzea (Planossolo, Brunizem Hidromórfico). Figuras 1-4 composição mineralógica. Tabela 1 precipitação Pelotas 1985-1994 (média 12 dias chuva/117mm out-nov). Tabela 2 macronutrientes palhada (arroz 24,2/milho 62/soja 70/trigo 39 kg/t total). Tabela 3 decomposição resteva trigo (superfície 65,7% remanescente 52 sem vs incorporado 28,4%). Vantagens diretas: controle plantas daninhas, semeadura adequada, manejo água, custo/benefício (PD reduz tempo máquina de 9,77 h/ha conv para 5,16 h/ha PD). Indiretas: integração agric/pecuária (azevém 3x receitas), redução degradação, sustentabilidade. Limitações principais (arrendamento, investimento, gramas perenes, rotação, drenagem, máquinas) e secundárias. Alternativas: rotação, drenagem, terceirização, kits adaptação, integração orizicultor/pecuarista, capacitação.