É PRECISO DESENVOLVER A CULTURA DO NÃO REVOLVIMENTO DO SOLO — VICTOR HUGO CARRÃO
O engenheiro agrônomo Victor Hugo Carrão, da Melhoramentos Agropecuária, de Passo Fundo-RS, iniciou sua vida profissional inoculado pelo vírus do plantio direto, adquirido durante o estágio realizado na Cooperativa Batavo em Castro-PR no começo da década de 80. No II Encontro Nacional de Plantio Direto em Ponta Grossa, Carrão fez uma das palestras como técnico da Semeato, empresa pela qual ajudou no desenvolvimento dos primeiros passos do plantio direto em arroz irrigado no RS. Posteriormente, a partir de 1987, ele passou a trabalhar para a Monsanto e, residindo em Pelotas, continuou a realizar atividades de fomento e pesquisa para a adoção do PD pelos agricultores gaúchos. Foi um dos idealizadores e principais organizadores do Programa Metas.
JPD — Como você descobriu o plantio direto?
Victor Hugo Carrão — Em 1982, quando entrei na Semeato, acompanhei um trabalho demonstrativo de plantio direto em campo nativo na região de Camaquã. Esse teste serviu como subsídio para uma palestra que apresentei no II Encontro Nacional de Plantio Direto em Ponta Grossa e também para o desenvolvimento da semeadura de arroz irrigado em linha pela Semeato. Em fevereiro de 1985, participamos de uma reunião na Fazenda Cerro do Tigre, em Alegrete, quando foi criado o Clube do Plantio Direto com Cultivo Mínimo de Arroz Irrigado. Em menos de 10 anos, quase um terço da área de arroz irrigado no Estado era semeada com plantio direto.
JPD — Quais as bases do plantio direto em arroz irrigado?
Carrão — Assim como o PD evoluiu nas áreas de soja, milho e trigo como uma reação à erosão, o principal fator de evolução em arroz irrigado foi a presença do arroz vermelho, que é da mesma espécie do arroz cultivado e não possui herbicida seletivo. O sistema implica na dessecação das ervas germinadas antes da semeadura, sem revolver o solo, trazendo probabilidade de 80-90% de sucesso no controle de ervas, em alguns casos 100%, e garantia de produtividade.
JPD — Quantas operações diminuem ao passar do preparo convencional para a semeadura direta?
Carrão — Em termos médios, no preparo convencional são realizadas 8 operações de preparo do solo no arroz irrigado das várzeas gaúchas. No cultivo mínimo o preparo reduz para 3 operações e no plantio direto pode chegar a zero. No geral, o uso de máquinas reduz 40-50%. O grande desafio agora é a rotação de culturas nos solos de várzeas.
JPD — Quais as opções para a rotação de culturas em arroz irrigado?
Carrão — O primeiro desafio era encontrar a forrageira de inverno que suportasse solos com capacidade de campo saturada. A aveia preta, antes considerada impossível, hoje é recomendada. Na reunião de pesquisa de arroz em Porto Alegre em setembro, a Embrapa de Pelotas apresentou trabalhos aprovando aveia preta como cobertura, mesmo em solos planos. Na rotação de verão, além do milho e soja, existem outras alternativas.
JPD — Por que esse entusiasmo com o potencial das várzeas do RS?
Carrão — Existe um estudo feito por pesquisadores de vários países publicado na Holanda em 1987 mostrando que a região de várzeas do RS é uma das mais promissoras, podendo atingir produtividade anual de mais de 20 ton/ha de grãos. Temos 5 milhões de hectares nessas condições! Atualmente usamos menos de um milhão de hectares com arroz. As barreiras: tecnologias de drenagem e criação de genótipos adaptados. A pesquisadora Marilia Porto, da Embrapa de Pelotas, em competição de híbridos de arroz, demonstrou rendimento de 8 toneladas/hectare.
JPD — Quais os entraves?
Carrão — Ainda existe um distanciamento entre o produtor, a assistência técnica e a pesquisa. É preciso criar uma cultura de não revolvimento do solo e também de uma agricultura empresarial. O produtor precisa gerenciar a sua propriedade como se fosse uma fábrica a céu aberto. É realmente uma fábrica de alimentos, só que a maioria dos agricultores ainda não assumiu a idéia.
ENCARTE ESPECIAL ARROZ IRRIGADO. Entrevista Victor Hugo Carrão (Melhoramentos Agropecuária Passo Fundo-RS). Carreira: descobriu PD 1982 Semeato (Camaquã campo nativo). Desenvolveu semeadora Semeato p/ arroz irrigado. 1987 Monsanto Pelotas - fomento. <10 anos: 1/3 área arroz irrigado RS em PD. Idealizador Programa Metas. PD: 8 operações conv → 3 cultivo mínimo → 0 PD (redução 40-50% máquinas). Aveia preta resistente solos saturados. Potencial várzeas RS: 20 ton/ha grãos (estudo holandês 1987), 5 mi ha disponíveis. Marília Porto (Embrapa Pelotas) atingiu 8 t/ha híbridos. Empresário rural, gestão como fábrica de alimentos.