II Encontro de Plantio Direto em Pequenas Propriedades projetou perspectivas na América Latina (Edelira-Paraguay)


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Publicado em: 30/04/1996

EDELIRA — PARAGUAY

II ENCONTRO DE PLANTIO DIRETO EM PEQUENAS PROPRIEDADES PROJETOU PERSPECTIVAS NA AMÉRICA LATINA

Grande parte da América Latina está constituída por pequenas propriedades, onde o uso do arado para a preparação dos solos favorece a degradação dos mesmos, em especial pela erosão hídrica. No I Encontro Latinoamericano de Plantio Direto em Pequenas Propriedades, realizado em novembro de 1993, em Ponta Grossa-PR, ficou demonstrado que os pequenos produtores também podem produzir com um mínimo de degradação do solo.

Na segunda edição do evento, o Encuentro Latinoamericano de Siembra Directa en Pequeñas Propiedades, mais de 800 pessoas, principalmente pequenos produtores, estiveram em Edelira, localidade do departamento de Itapua, no Paraguai, nos dias 11 a 14 de março deste ano, onde lotaram um pequeno auditório para ouvir palestras de pesquisadores, assistentes técnicos e depoimentos de produtores do Paraguai, Brasil e outros países da América Latina.

Em Edelira, uma comunidade de pequenos produtores, um grupo de agricultores está utilizando a cobertura morta e realizando a semeadura direta com equipamentos adaptados às condições locais. Além dos depoimentos de alguns deles, apresentados na parte teórica do Encontro, as experiências práticas, que estão entusiasmando a todos, foram mostradas num dia de campo, onde se pode ver avanços interessantes em termos de cobertura de solo, consórcio de milho, algodão, mandioca e espécies perenes como erva-mate, tungue e kiri, além de tração animal e equipamentos adaptados.

"La siembra directa é um método que recupera a terra", disse Celestino Osuna, pequeno produtor da localidade de Caaguy Poty (Flor do Monte, em guarani), nas imediações de Edelira. Ele afirmou que havia muita erosão em suas terras e que isso está sendo evitado com a cobertura do solo. Além disso, o sistema poupa tempo e dinheiro nas culturas de soja, algodão, milho e feijão. "Não posso afirmar que os cultivos rendem mais sob siembra directa", afirmou Osuna, "porque estou iniciando há pouco. Porém, é certo que a terra está se recuperando e os custos são menores."

ENTIDADES APOIAM

Diversas entidades, sob a coordenação do Ministerio da Agricultura y Ganadería e da Federación Paraguaya de Siembra Directa, apoiaram a realização do II Encuentro, em Edelira, que contou com a presença do Presidente Juan Carlos Wasmosy, na abertura do evento. "Esse fato demonstra a importância que o governo e demais instituições estão dando ao desenvolvimento do plantio direto no Paraguai", disse Rolf Derpsch, do Instituto GTZ, da Alemanha, cujo convênio de cooperação técnica com o Ministério paraguaio tem proporcionado uma evolução na conservação de solos do País. Trabalhando na América Latina desde o início da década de 1970, Rolf Derpsch sempre esteve na linha de frente da batalha pela conservação de solos e pela prática de uma agricultura sustentável. Atuando no Paraguay há cerca de 5 anos, Derpsch está satisfeito com o desenvolvimento da siembra directa nas áreas de médios e grandes produtores e, especialmente agora, com as perspectivas para os pequenos produtores.

Hoje o plantio direto no Paraguay ocupa uma área aproximada de 250 mil ha, nas culturas de verão. Isto representa algo em torno de 15% do total. Existem regiões, como na área de atuação das Colônias Unidas, que o percentual sobe para 80%. É o êxito total deste Encuentro leva a crer que teremos grandes avanços nos próximos anos, agora também nas pequenas propriedades.

Entre outros técnicos da GTZ, participou do evento e, mais tarde, também do Congresso de Ponta Grossa, na semana seguinte, o engenheiro agrônomo Kurt Steiner, da Alemanha. Visitando pela primeira vez a América Latina, Kurt fez um comparativo com os sistemas de produção da África, onde trabalhou durante anos. "Aqui existem muitas propriedades médias e grandes. As pequenas propriedades daqui, na África são consideradas grandes". Para o pesquisador da GTZ, que atua em Frankfurt, atendendo os projetos da entidade para a conservação de solos na África, "o plantio direto parece ser o único sistema que vai garantir a sustentabilidade da produção agrícola, permitindo a manutenção das culturas, ao longo do tempo".

CAPECO

Um apoio importante que o plantio direto está recebendo é da CAPECO — Cámara Paraguaya de Exportadores de Cereales e oleaginosas. Apoiando diversos eventos que já aconteceram para a difusão do plantio direto, a CAPECO também apoiou a realização do II Encuentro em Edelira. Segundo o engenheiro agrônomo Luiz Henrique Cubillas, assessor agrícola da entidade, que coordenou algumas palestras, "a deterioração dos solos é bastante acentuada no Paraguai, e isso afeta todo o sistema produtivo das principais culturas, como soja, milho, trigo e girassol. Estamos muito contentes com os resultados", disse Cubillas. "A capacitação técnica é a única forma de sobrevivermos, melhorando nossa produtividade e o nível de vida da nossa gente", afirmou o assessor da CAPECO.

DO BRASIL

Diversas pessoas do Brasil estiveram presentes no Encontro de Edelira, prestigiando o evento e procurando novas informações para o desenvolvimento do sistema em nosso País. Entre os presentes, encontrava-se o produtor Félix Krupeck, de Irati, no Paraná, pioneiro entre os pequenos proprietários que utilizam plantio direto. Com 12 ha sob o sistema, há 7 anos, Krupeck está satisfeito e diz que no plantio direto não existem desvantagens. "A diferença para o plantio convencional é muito grande", disse ele. "Se eu for preparar de acordo uma área convencional, terei que passar muitas vezes em cima. No plantio direto, com 3 passadas, a lavoura está pronta. Além disso, existe a vantagem de trabalhar em terra firme, que é melhor tanto para o homem como para o animal de tração."

Plantando milho e feijão, porque não existe tradição de soja na região, nem máquinas para colheita, Félix Krupeck recomenda aos pequenos produtores que entrem aos poucos no sistema porque, se algo não der certo, o prejuízo não será significativo. É preciso aprender aos poucos e ter um assessoramento técnico.

Da região Central do Brasil, participaram do Encontro professores da Faculdade de Agronomia de Goiânia. Entre eles encontrava-se o engenheiro agrônomo Rogério de Araújo Almeida, professor do Departamento de Mecanização Agrícola e diretor do Grupo Goiás de Ensino e Extensão. Segundo Rogério, este grupo direciona seus trabalhos de pesquisa para a pequena propriedade, envolvendo trabalhos de plantio direto com tração animal e manual.

"Inicialmente estamos trabalhando com uma associação de pequenos produtores no município de Inhumas, situado a 50 km de Goiânia, numa região onde o solo é fértil, porém, com uma declividade acentuada e sérios problemas de erosão, pois os produtores não utilizam práticas conservacionistas", relatou Rogério Almeida. Em Edelira, ele apresentou os primeiros resultados do trabalho que a Faculdade realiza com os pequenos produtores. "O resultado inicial foi muito positivo, porque tivemos um excelente controle de erosão na área de plantio direto, enquanto que na área convencional, verificou-se uma perda do solo e das plantas. Visualizando a campo, os produtores ficaram impressionados e, a partir disso, cremos que a adoção do plantio direto deverá aumentar nas próximas safras."

Notícia. II Encuentro Latinoamericano Siembra Directa en Pequeñas Propiedades, Edelira (Itapua-Paraguay), 11-14/março/1996, +800 pessoas. Coord. Ministerio Agricultura y Ganaderia + Federación Paraguaya Siembra Directa, presença Presidente Juan Carlos Wasmosy. Depoimento Celestino Osuna (Caaguy Poty/Flor do Monte). CAPECO (Cámara Paraguaya Exportadores Cereales Oleaginosas) apoia, eng. Luiz Henrique Cubillas. Félix Krupeck (Irati-PR, 12ha PD, pioneiro pequeno produtor). DO BRASIL: Rogério de Araújo Almeida (Escola Agronomia UFG/Grupo Goiás Ensino e Extensão) com associação em Inhumas-GO (50km Goiânia). Kurt Steiner (GTZ Frankfurt) com experiência África: PD único sistema p/ sustentabilidade. Rolf Derpsch (GTZ Alemanha) 5 anos no Paraguay, ~250 mil ha PD culturas verão (15% total, Colônias Unidas 80%).