Plantio direto em arroz irrigado no Tocantins


Autores:
Publicado em: 30/04/1996

CERRADO

PLANTIO DIRETO EM ARROZ IRRIGADO NO TOCANTINS

Luiz Vicente Gentil — Universidade de Brasília (UnB)

Sem dúvida alguma, a mais alta tecnologia do plantio direto hoje é a do arroz irrigado no Tocantins. Também a mais nova, de alto capital e bons lucros.

Ao longo dos rios Pium, Javaés, Formoso, seus afluentes, e entre o rio Araguaia e a rodovia Belém-Brasília estão 60 mil ha de arroz sistematizado e irrigado em forma de projeto, como do rio Formoso. Os produtores são mais capitalizados e tecnificados, com áreas de mais de 800 ha cada, começando o plantio direto e tirando duas safras por ano. A chamada safra de verão é a de arroz com 80-100 sacos/ha, valor do produto na faixa de US$ 15,00/saca, rendimento industrial de 70%, com 45% de arroz inteiro e com um forte apoio de 5 Cooperativas locais. A segunda safra é a de milho ou soja, plantado em julho, colhendo em outubro e aproveitando a água dos canais, pois a irrigação é feita com bombeamento de rios e varjões.

A dupla safra anual, o capital com tecnologia e uma forte estrutura empresarial de serviços têm dado aos orizicultores locais condições para superar a difícil transição plantio convencional/plantio direto. Algumas alternativas de solução para os problemas restantes de implantação do plantio direto no arroz nestas áreas podem ser assim resumidas:

1. SULCOS NOS TERRENOS — A colheita do arroz, feita no terreno molhado, deixa sulcos das carretas graneleiras e das rodas e esteiras das automotrizes, com prejuízo na semeadura seguinte. Alternativas: 1.1) adoção de cultivo mínimo (grade niveladora para aplainar o solo); 1.2) eliminar carreta graneleira e descarregar diretamente nos caminhões trucados ou carretas estacionadas nos aterros; 1.3) uso de taliscas mais largas nas esteiras das colhedeiras e rodas traseiras tipo balão ou de maior diâmetro; 1.4) colheita do arroz com o terreno mais cheio d'água, pois a plasticidade do solo é maior.

2. DESSECAÇÃO — Terreno úmido, mato alto, ervas difíceis de controlar e estradas internas com atoleiros dificultam a dessecação. Alternativas: 2.1) Uso de avião — já se conseguiu formas de dessecar bem com avião, usando 40 a 60 l/ha e dosagem de 1,5 a 3 l/ha de glifosato, mais 1 l/ha de 2,4-D. Condições: preço igual ou menor que o uso de barras na faixa de US$ 5 a US$ 8/ha; ausência de ventos; voar de 2 a 4 m de altura, com faixa de deposição de 12 a 15 m de largura; temperatura+umidade+horário adequado. 2.2) Levantamento de ervas e seleção do dessecante (capim colchão, fedegoso, milhã, beldroega, junquinho são mais difíceis). 2.3) Excesso de cobertura: usar roçadeira de arrasto em Tandem tracionada por trator de 80/110 HP.

3. ARROZ VERMELHO — É um dos grandes problemas do arroz irrigado e o plantio direto é a tecnologia mais indicada para minimizar este problema, viabilizando o plantio de arroz em áreas infestadas.

4. CUSTO REAL DE IMPLANTAÇÃO DE 1 HA DE ARROZ — Fica na faixa de US$ 800/ha, devendo ter uma produtividade mínima de 70 sacos/ha, a um preço de US$ 11,40/saca. O custeio fica na faixa de US$ 500 a US$ 600/ha. O plantio direto faz este custeio cair para US$ 350 a US$ 450/ha, devido à redução de óleo diesel, mão-de-obra, serviços, hora/máquina e outros fatores conhecidos.

5. DUPLA RECEITA SOJA + ARROZ — Permite uma receita bruta anual de até US$ 1,8 milhões para cada mil ha, que a uma rentabilidade mínima de 8%, dá uma receita líquida anual de US$ 144 mil, incluindo depreciações, riscos, investimentos, custos administrativos, geralmente não computados.

6. TAXAS INADEQUADAS DE JUROS — Levam agricultores a usar mais capital próprio, ter galpão na fazenda para vender arroz na entre safra, reduzir a área plantada e contratar consultores para a redução dos custos, usar o plantio direto ou a conduzir a fazenda como um negócio, onde o objetivo é gerar lucros líquidos.

7. PLANTADEIRAS DE PLANTIO DIRETO — No arroz irrigado, são aquelas de rodado de alta flutuação, de maior e afiado disco, para cortar o mato úmido dessecado, e que tenha fácil regulagem de profundidade, pressão de mola e dosagem constante do arroz. Alguns usam as de 26 linhas de 17,5 cm de espaçamento, apropriadas para a região. Os tratores são com pneus de alta flutuação e garra alta.

8. CULTIVO MÍNIMO — Quando as condições são muito difíceis, recorre-se ao cultivo mínimo, superando o problema de mato alto, sulco profundo, excesso d'água nos quadros ou pragas de difícil controle. O plantio direto irrigado do Tocantins ainda não está totalmente resolvido, pois é uma alta tecnologia ainda não divulgada entre os próprios agricultores.

OITO FATORES GARANTEM O SUCESSO DESTA TECNOLOGIA: 1) Duas receitas anuais; 2) Baixo custo de produção; 3) Colocação da produção na entre safra; 4) Proximidade dos centros consumidores; 5) Forte esquema associativo, empresarial e de bons serviços; 6) Tecnologia em final de domínio; 7) Infraestrutura mínima e eficiente (comercialização, armazenamento, transporte, empresas de serviços); 8) ICMS reduzido à metade.

NOVAS CULTIVARES DE ARROZ IRRIGADO

A Embrapa-CPAO reuniu num Dia de Campo um grupo formado por produtores rurais e técnicos para apresentar duas novas cultivares de arroz irrigado para o Mato Grosso do Sul: a IRGA 417, desenvolvida no Rio Grande do Sul, e a Traíra (CNA 7204), pesquisada há 7 anos em Dourados.

A Traíra (CNA 7204) tem duas importantes características: alta produtividade, 9.412 kg/ha, além da resistência à brusone do pescoço e da folha. É ainda moderadamente resistente à mancha parda e à mancha de grãos, e resistente ao acamamento. Tem a classificação longo/fino, boa qualidade de beneficiamento e 69,5% de rendimento total, 53,8% são de grãos inteiros. A Embrapa-CPAO vai multiplicar 100 kg de sementes genéticas em 1996 para comercializar sementes básicas em 1997 e 1998.

A IRGA 417 obteve média de rendimentos de grãos pela Embrapa-CPAO, em Dourados, Rio Brilhante e Jardim, nas safras 93/94 e 94/95, de 7.741 kg/ha. "Essa cultivar se adaptou muito bem em nossa região e é outra opção para os produtores", disse o pesquisador João C. Heckler, que proferiu palestra no Dia de Campo. A IRGA 417 tem ciclo de maturação de 115 dias, é resistente ao acamamento e médio resistente à brusone e à mancha dos grãos.

A BR/MS-2 será comercializada pela Embrapa-SPSB neste ano com 60 t de sementes básicas, suficientes para o plantio de 500 ha. De acordo com Josué Flores, responsável pela comercialização de sementes básicas, essa cultivar tem rendimento médio de 6.356 kg/ha e é "boa de panela". Tem ciclo de 135 dias da emergência à maturação, resistente ao acamamento e à brusone, do tipo longo/fino, semeadura recomendada de setembro a novembro (preferencialmente outubro), densidade em torno de 120 kg/ha de sementes aptas.

Artigo técnico. Luiz Vicente Gentil (Universidade de Brasília - UnB). Tocantins: 60 mil ha arroz irrigado sistematizado nos rios Pium/Javaés/Formoso/Araguaia, projetos +800ha cada com dupla safra (verão arroz 80-100sc/ha US$15,00/sc 70% industrial 45% inteiro; segunda safra milho/soja jul-out). 5 Cooperativas locais. Custo US$800/ha implantação, custeio US$500-600/ha (conv) vs US$350-450/ha (PD). Dupla receita soja+arroz US$1,8 mi/1000ha (8% rentab = US$144 mil líquido). 8 fatores sucesso. 8 problemas detalhados: sulcos terreno, dessecação aérea 40-60l/ha+glifosato 1,5-3l/ha+2,4-D 1l/ha (US$5-8/ha), arroz vermelho, custo, dupla receita, juros, plantadeiras 26 linhas 17,5cm, cultivo mínimo. + Box NOVAS CULTIVARES ARROZ IRRIGADO Embrapa-CPAO Dia de Campo Dourados: Traíra/CNA 7204 (9.412kg/ha, 69,5% rend total 53,8% inteiros), IRGA 417 (115 dias, 7.741kg/ha) e BR/MS-2 (6.356kg/ha, 135 dias, 60t sementes p/ 500ha, pesquisador João C. Heckler; Josué Flores Embrapa-SPSB).