Aveia ocupa maior área de cultivo no inverno


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Publicado em: 30/04/1996

AVEIA OCUPA MAIOR ÁREA DE CULTIVO NO INVERNO

O uso na alimentação humana e animal, o crescimento da integração da lavoura com a pecuária em diversas regiões do País, e a utilização como cobertura morta para a implantação das culturas de verão em plantio direto, fizeram com que a aveia passasse a ocupar o primeiro lugar, em termos de área plantada, entre as culturas de inverno no Brasil. Embora não exista uma estatística oficial, é muito provável que a área a ser plantada em 1996 ultrapasse 3 milhões de hectares, o que significa o dobro da maior área que se estima para o plantio de trigo.

"O sucesso do plantio direto, no meu modo de ver, depende basicamente de duas culturas: aveia no inverno e, pelo menos, um cultivo de milho a cada três anos, pois as palhadas dessas duas culturas é que dão a cobertura, e todo o processo começa por ela. Depois que se estabelece uma boa cobertura, está controlada a erosão, aumenta um pouco a infiltração de água, inicia o processo da vida microbiana e, então, é possível entrar com um melhor aproveitamento das leguminosas. À medida que o solo tem palha, com esqueleto carbonado, os microrganismos têm mais condições de imobilizar o nitrogênio da palha de soja. Normalmente, a colheita da soja é feita em março-abril, com temperaturas altas, umidade e rápida decomposição da resteva. Se tivermos uma palhada de gramíneas, ocorre a imobilização do nitrogênio no solo."

As afirmações são do engenheiro agrônomo Elmar Floss, da Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo. Elmar é doutor em conservação de solos e nutrição de plantas pela ESALQ, de Piracicaba. Na Faculdade de Passo Fundo, onde se formou em 1975, foi diretor de 1982 a 1986. Ele trabalha com pesquisas na cultura de aveia desde 1977 e, durante esse período, tornou-se uma das principais autoridades no assunto em todo o País. Em março, quando já se iniciava o plantio da cultura em algumas regiões, conversamos com ele sobre a importância da aveia e suas perspectivas.

HISTÓRICO

Revista Plantio Direto — Por que aveia?

Elmar Floss — Começamos o trabalho em 1977. O Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, que acabara de ser criado, recebeu a incumbência institucional de fazer pesquisas em trigo, cevada e, depois, triticale. Para aveia, não existia interesse naquela época. Ela era utilizada apenas para forragem, enquanto o trigo tinha uma área de 2 milhões de hectares. Aceitamos a oferta do germoplasma e iniciamos o trabalho aqui na universidade.

RPD — Isto quer dizer que você acompanhou o desenvolvimento da cultura, tanto para a produção de grãos como para cobertura no plantio direto?

Elmar Floss — Interrompi o trabalho somente quando estive fora, para o doutorado, de 1988 a 1991. Logo que iniciamos as pesquisas, em 1978, fomos procurados pelo pessoal da Cooperativa Batavo, Hans Peeten e Franke Dijkstra, entre outros, porque eles já sabiam que o sucesso do plantio direto estava relacionado à existência de uma boa palhada na lavoura. Em 78, iniciamos nossas pesquisas, direcionando para 3 itens: produção de grãos, pastoreio e forragem, e como cobertura, visando plantio direto. No Paraná, principalmente na região sul, a utilização da aveia como cobertura expandiu rapidamente. No Rio Grande do Sul, houve uma resistência maior, porque o pessoal preferia usá-la para pastoreio, fazendo uma integração entre lavoura e pecuária.

ÁREA PLANTADA

RPD — Você tem uma idéia dos percentuais de áreas plantadas com aveia atualmente, para cobertura, pastagens e produção de grãos?

Elmar Floss — Para produção de grãos, estimamos uma área entre 400 e 500 mil hectares, superior àquela apresentada pelo IBGE. Cerca de 80% dessa área está no Rio Grande do Sul. No nosso estado, onde o uso para pecuária é intenso, e onde ocorrem consórcios com azevém e/ou leguminosas, a área de cobertura e forrageira alcança 1,5 milhão de hectares. Mesmo considerando só o Rio Grande do Sul, isto é apenas 1/3 da área que se planta no verão. Outras áreas importantes na produção de aveia são o Mato Grosso do Sul, tanto para cobertura como pastoreio, e no Paraná, onde existem os polos de Guarapuava e Maringá-Londrina, que estão incentivando a produção de grãos.

RPD — Qual o limite para o cultivo de aveia em termos de trópicos?

Elmar Floss — O que limita a produção de aveia no inverno é a falta de chuva. Eu diria que esse limite está em torno de 150/200 mm durante o ciclo da cultura. O calor também pode ser uma limitação, principalmente porque a maioria dos materiais foi desenvolvida no sul do país. Entretanto, se olharmos o mundo, praticamente em todos os lugares é possível plantar aveia. Existem as aveias amarelas (aveias bizantinas), adaptadas às regiões mais quentes. Nos trouxeram um cultivar dos Estados Unidos, mas não houve adaptação ao clima do sul.

RPD — Qual a perspectiva desse material para uso como cobertura em função do plantio direto?

Elmar Floss — Provavelmente ela será usada porque existem áreas com interesse em descobrir alternativas para cobrir o solo no inverno, como é o caso dos produtores da Cooperativa Holambra, em São Paulo, que usam bastante irrigação. À medida que caminhamos para o Brasil Central, as aveias brancas se adaptam melhor que as pretas, produzindo maior volume de massa. Na região sul, é difícil termos um cultivar de aveia branca que produza a mesma quantidade de massa que a aveia preta.

RPD — No Mato Grosso do Sul, quais os materiais mais usados?

Elmar Floss — Hoje, a aveia preta tem a maior área naquele estado, com finalidade de forragem e cobertura. Porém, a cultivar branca UPF 7, desenvolvida por nós, é predominante naquele estado. Outros cultivares, como UPF 15, UPF 16 e UFRGS 14, estão sendo introduzidos lá, com bons resultados.

PERSPECTIVAS

RPD — Como está a fronteira de crescimento da cultura de aveia? Ainda temos necessidade de importar grãos?

Elmar Floss — Existe um aumento de demanda por grãos de aveia, por diversas razões. Nós ainda importamos, mas é muito pouco. Existe uma falta de sementes de boa qualidade no mercado. A procura por grãos cresce em vários segmentos, entre eles na criação de cavalos. Nos haras existe a tradição de que cavalo bem alimentado é aquele que come 6 a 12 kg de aveia/dia. De outro lado, está aumentando muito o consumo de aveia por parte das pessoas. Até a década de 80, o consumo era limitado à classe de maior poder aquisitivo. A partir do início dos anos 80, também ganhou impulso a utilização de aveia para as pessoas que têm problema de colesterol, principalmente depois da publicação do livro-depoimento de um jornalista americano denominado "Como curar o colesterol em 8 semanas". No caso, ele usou uma dieta à base de farelo de aveia, ingerindo 120 gramas por dia.

RPD — E o uso na merenda escolar?

Elmar Floss — Nós entendemos que a demanda por grãos de aveia irá crescer muito em função do uso na merenda escolar. O governo descentralizou a compra dos alimentos para essa finalidade. Agora, os municípios terão liberdade de escolha, e a presença da aveia, principalmente nas regiões produtoras, deverá crescer significativamente. A partir disso, as crianças irão desenvolver o hábito do consumo.

CONSERVAÇÃO / COBERTURA

RPD — Qual a importância da aveia na cobertura e na conservação do solo?

Elmar Floss — A aveia é o cereal de inverno que produz a maior quantidade de palha, excetuando o centeio. Trata-se de uma palha de decomposição lenta. É interessante consorciar a aveia com leguminosa, de maneira que se tenha uma palha de gramínea, com decomposição lenta, e a leguminosa com decomposição mais rápida, reciclando nitrogênio. Na medida em que tivermos esqueletos carbonados, fornecidos pela palha da gramínea, seja trigo, cevada, aveia ou milho, os microrganismos vão imobilizar o nitrogênio no solo. Entretanto, é importante notar que, com o aumento de custos e da competição, ao colocar a aveia como cobertura, nós também precisamos tirar uma renda direta dela — leite, carne ou grão — mas que deixe uma resteva, uma boa cobertura que possa sustentar o sistema de semeadura direta.

RPD — Existe uma grande preocupação com doenças na aveia, principalmente ferrugens. Como a pesquisa vê essa parte?

Elmar Floss — A ferrugem é a doença número um da aveia, sendo a mais limitante, aqui no Sul. Em algumas regiões do Brasil Central, a aveia preta está sendo colocada em segundo plano, tal a incidência de ferrugem. As nossas pesquisas e as da UFRGS procuram fazer uma rotação genética, de tal maneira que, se o agricultor usar os últimos cultivares que foram desenvolvidos, terá sempre um material com maior tolerância. Existem materiais que estão aí com 6-7 anos, como a UPF 7, e toleram a ferrugem. De outro lado, materiais com 3-4 anos tiveram que ser suspensos pela alta incidência de ferrugem.

RPD — Quais as condições predisponentes para o ataque da doença?

Elmar Floss — A ferrugem ataca no final de junho a agosto, quando ocorre aumento de temperatura associado à umidade do ar. Por isso, quando o objetivo é forrageira ou cobertura, a recomendação é que se faça a semeadura o mais cedo possível, pois, quando aparecer ferrugem, o material já terá uma boa biomassa, que nós consideramos 3.500-4.000 kg/ha. Quando a lavoura se destina à produção de grãos, os mesmos fungicidas que são utilizados na cultura do trigo podem ser usados para o controle de ferrugens na aveia. Hoje, no Brasil, esse programa de pesquisas no Sul desenvolve 24 genótipos diferentes de aveia preta.

AVALIAÇÃO DE CULTIVARES DE AVEIA NOS SISTEMAS DE SEMEADURA CONVENCIONAL E DIRETA

MUNDSTOCK, C. M. (Professor FAMV-UFRGS, CP 776, 90001-970, Fax 336 1211, Porto Alegre-RS, Pesquisador CNPq) e RIERA, E. A. (Eng.Agr., Aluno do Curso de Pós-Graduação em Fitotecnia, UFRGS).

A crescente expansão da utilização do plantio direto e a necessidade de sua comparação com métodos convencionais fazem com que se acrescente a importância da geração de informação regional a este respeito. O objetivo do presente trabalho foi o de avaliar o efeito de dois sistemas de semeadura sobre o rendimento de duas cultivares de aveia. O experimento foi realizado na EEA-UFRGS, em Eldorado do Sul, RS. O solo da área experimental é um Podzólico Vermelho Escuro, distrófico, com pH=5.0; P=10 ppm; K=156 ppm e 2% de m.o.

O delineamento experimental utilizado foi blocos casualizados com parcelas subdivididas e 4 repetições. A parcela principal tratada com semeadura convencional (preparo do solo com 1 aração e 2 gradagens) e semeadura direta. As subparcelas foram destinadas à adubação nitrogenada. Metade das parcelas não receberam nitrogênio e as outras foram adubadas com 40 kg/ha de N (na forma de uréia), realizada em cobertura e a lanço, no dia 4/8, repetindo-se a aplicação no dia 6/9. Sobre as subparcelas (5,3m x 3,4m), no dia 14/7, foram semeadas as cultivares UFRGS-10 e UFRGS-15, a uma densidade de 276 sem/m² e 0,17m de distância entre linhas. Simultaneamente com a semeadura, foi aplicada adubação de base na dose de 300 kg/ha da fórmula 5-20-20. Fez-se o controle de pragas e doenças até o final do ciclo.

Valores médios de rendimento (kg/ha) de duas cultivares de aveia sob dois métodos de preparo e dois níveis de adubação nitrogenada — EEA/UFRGS, Eldorado do Sul, 1995:

MétodoCultivarRendimento (kg/ha) NL C/NUFRGS-102.574,20 NL C/NUFRGS-152.782,70 L C/NUFRGS-102.480,70 L C/NUFRGS-152.097,20 NL S/NUFRGS-101.440,00 NL S/NUFRGS-151.833,20 L S/NUFRGS-101.168,50 L S/NUFRGS-151.259,70

NL: não lavrado | L: lavrado | S/N: sem nitrogênio | C/N: com nitrogênio.

Para método, houve diferenças significativas em favor do não lavrado sobre o lavrado. Também houve diferenças significativas em favor do tratamento adubado sobre o não adubado. Não houve diferenças entre cultivares.

Entrevista. Elmar Floss (eng.agr. FAMV-Universidade Passo Fundo, doutor ESALQ conservação solos+nutrição plantas, diretor FAMV 1982-86, pesquisas em aveia desde 1977). Aveia 1996 deve ultrapassar 3 mi ha (dobro do trigo). Para produção grãos: 400-500 mil ha (80% RS); cobertura+forrageira RS: 1,5 mi ha (1/3 verão). Outras regiões: MS+PR (Guarapuava e Maringá-Londrina). Limite tropical: ~150/200mm no ciclo. Cultivares: UPF 7 (branca) MS, UPF 15+UPF 16+UFRGS 14 introduzidas. Doença #1 ferrugem (jun-ago T+umidade); biomassa segura 3.500-4.000 kg/ha. Consumo aveia humano: jornalista USA 'Como curar colesterol em 8 semanas' 120g farelo/dia. Tendência: merenda escolar municipalizada. + Box 'Avaliação cultivares aveia sistemas semeadura convencional e direta' Mundstock/Riera UFRGS (Eldorado do Sul-RS, Podzólico Vermelho Escuro pH=5.0 P=10ppm K=156ppm m.o.2%, blocos casualizados 4 rep, UFRGS-10 vs UFRGS-15, 40 kg/ha N uréia 4/8 e 6/9, 14/7 semeadura 276 sem/m²). Tabela com 8 valores kg/ha (NL/L × C/N × cultivar: 2.574,20 a 1.168,50).