TRIGO
PREÇOS NO MERCADO EXTERNO SINALIZAM NOVA ERA PARA PRODUÇÃO NACIONAL
A queda nos estoques mundiais de trigo fizeram com que os preços do cereal subissem vigorosamente nos últimos meses, criando um novo quadro nas perspectivas de plantio para os agricultores do Brasil, que vieram diminuindo a área de forma progressiva, pela falta de uma política definida por parte do governo e, principalmente, pelos preços não compensadores em relação aos nossos altos custos de produção. Agora, a situação evoluiu rapidamente e o quadro mudou em seis meses. O governo brasileiro dobrou a oferta do volume de crédito para a cultura de trigo no presente ano. Naturalmente, entraves maiores não nos permitem plantar em 1996 uma área mais significativa de trigo, porque não temos sementes para mais do que 1,5 milhão de hectares. Sem dúvida, somam-se dois fatores positivos nessa retomada da cultura do trigo: 1) a necessidade de que os produtores façam uma lavoura que resulte em produtividade e qualidade; 2) a certeza de que o governo não tem mais condições de intervir no mercado.
GUILHERME DIAS
"O governo não está mais importando diretamente, como acontecia até pouco tempo. Isso é função da iniciativa privada. Nós estamos interessados numa articulação muito mais intensa entre os setores agroindustrial e o de produção agrícola. Está acontecendo uma transferência de funções." As declarações foram feitas pelo Secretário Nacional de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Reforma Agrária, Guilherme Dias, durante a palestra de abertura da 28ª Reunião da Comissão Sul-Brasileira de Pesquisa de Trigo, na Embrapa, em Passo Fundo-RS, no dia 26 de março. Depois da palestra, a Revista Plantio Direto entrevistou o Secretário.
"A função principal dos estoques baixos foi a questão climática, um acidente de clima que aconteceu nos Estados Unidos. Não vamos cometer nenhum desatino e achar que esses 260 dólares vão vigorar sempre. Por isso, é importante estimular o trigo mais no campo tecnológico, avançar dentro de um critério, com uma regra de seguro agrícola mais ajustada."
RPD — O senhor falou na palestra sobre a necessidade de planejamento a longo prazo e a atividade dos segmentos que compõe o mercado. Como está a participação do setor produtivo?
Guilherme Dias — Depois de um ano que estou no Ministério, e somos obrigados a conversar com todos os agentes envolvidos, vejo que existe uma estratégia mais sólida por parte dos moinhos e seus fornecedores. Eles formam parcerias e investimentos estratégicos importantes. A oferta doméstica é importante para estes grupos, porém, sinto que existe um conflito entre representações de produtores, que dificultam o entendimento.
RPD — Eles cobram muito do governo?
Dias — No passado, havia uma política que colocava o governo no centro, todos vinham negociar com ele e não entre as partes. A negociação com o governo sempre foi uma regra de barganha política que não pode ser transferida para outros agentes de mercado. Eu sinto que há um despreparo por parte das organizações de produtores. Eles têm que negociar com os demais segmentos. O governo pode intervir, mas não é uma questão de demandar do governo, é de negociar diretamente com os demais interessados na questão.
RPD — Quais as recomendações?
Dias — É necessário uma melhor estimativa para o futuro. Você só tem uma estratégia quando possui visão do futuro. No trigo, é preciso ter uma visão fundamentada de como vai se comportar o mercado. No momento, é possível ampliar a lavoura de trigo, existe uma estratégia para a sua recuperação, mas é necessária uma articulação muito mais consciente dos produtores, conhecendo o papel do governo, que não é mais aquele do passado.
RPD — Quais são as perspectivas do mercado mundial?
Dias — O que acontece realmente nessa redução dos estoques no resto do mundo é uma parte acidente e outra política dos principais países produtores. Tanto a Europa como Canadá e Estados Unidos reduziram subsídios. Com isso, têm menos governo para assumir estoques e riscos de lavoura. Nós estamos incentivando a retomada do plantio de trigo, porém, dentro das recomendações técnicas. Precisamos produzir um trigo de qualidade superior. Outro dado que precisamos tomar cuidado é com a visão dos estoques mundiais. A função principal dos estoques baixos foi a questão climática, um acidente de clima que ocorreu nos Estados Unidos. Não vamos cometer nenhum desatino e achar que esses 260 dólares a tonelada vão vigorar sempre.
RPD — Como o governo está pensando em solucionar o ítem "custo Brasil"?
Dias — Eu diria que, depois do ICMS, é o segundo maior problema que tem no Brasil. Ele está ligado à infraestrutura de transporte ferroviário sucateado. Estamos falando de muito dinheiro que precisa ser investido, para recuperar nosso parque ferroviário, que está abandonado há 20-30 anos. No contexto do governo, a saída é a privatização, principalmente no eixo Sul-Sudeste, que será disputado por grandes grupos nacionais e estrangeiros. Na área dos portos, já está sendo encaminhada a privatização da mão de obra, para diminuir a burocracia e o poder de monopólio das organizações sindicais.
PREÇOS DO TRIGO
O preço mínimo básico do trigo (R$ 130,00) está 9,2% mais alto que o da safra passada. O tipo 3 (pH 73) subiu só 3,3%. O governo incentiva o plantio, mas exige qualidade.
O produtor poderá tomar até 150 mil reais em crédito de custeio a 16% ao ano, sendo que até 30 mil poderão ser como EGF COV. Gastos com recuperação do solo podem ser incluídos entre as despesas de custeio, e o pagamento do empréstimo será parcelado (50% após a safra de inverno e o restante na safra de verão 1996/97).
O volume de recursos para o custeio do plantio de inverno, 340 milhões de reais, dobrou em relação ao ano passado. Com isso, o governo concretiza sua intenção de dobrar a área e a produção de trigo. Mas ainda é pouco, comparado com os gastos de 1,4 bilhão de reais previstos com a importação de trigo neste ano. Para as demais lavouras de inverno, os preços por tonelada são: 117 reais para o triticale, 130 para a cevada e 158 para a canola, e o início da operação será em agosto.
Preços mínimos do Trigo — Safra 1996 (em reais/t):
PH¹ComumIntermediárioSuperior 78136,50136,50157,00 75130,00130,00149,50 72110,50110,50110,50
¹ Peso hectolítrico mínimo. Preço mínimo básico: R$ 130,00. Extraído do Informativo Rural da Sociedade Rural Brasileira, 11-17/Março/96.
Entrevista. Guilherme Dias (Secretário Nacional Política Agrícola, Min.Agricultura e Reforma Agrária) na palestra abertura da 28ª Reunião Comissão Sul-Brasileira Pesquisa Trigo, Embrapa Passo Fundo-RS, 26/março/1996. Estoques mundiais trigo caem, preços sobem (US$260/tonelada). Brasil dobrou crédito para trigo, mas só consegue plantar 1,5 mi ha por falta de sementes. Crédito custeio até R$150 mil (16% a.a., até R$30 mil em EGF COV). Volume R$340 mi (dobro do ano passado). Importação de trigo 1996: R$1,4 bilhões. Privatização ferrovias eixo Sul-Sudeste e portos como saída p/ Custo Brasil. Box 'Preços do Trigo Safra 1996' (Informativo Rural Sociedade Rural Brasileira 11-17/mar/96): PH78 R$136,50/130,0/110,50 (comum/interm/superior), PH75 R$130,0/130,0/110,50, PH72 R$157,00/149,50/110,50. Preço mínimo básico R$130,00 (+9,2% vs safra anterior). Triticale R$117, cevada R$130, canola R$158.