Avaliação da erosão em sistemas de preparo para o trigo e soja na Região dos Campos Gerais


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Publicado em: 30/04/1996

CAMPOS GERAIS

AVALIAÇÃO DA EROSÃO EM SISTEMAS DE PREPARO PARA O TRIGO E SOJA NA REGIÃO DOS CAMPOS GERAIS

Gustavo Henrique Merten (IAPAR — Ponta Grossa-PR). Colaboradores: Eng. Agrícola Jadir A. Rosa; Eng. Agrônomo Rui M. Biscaia; Téc. Agrícola Francisco A. Silva.

INTRODUÇÃO E REVISÃO DE LITERATURA

O uso conflitivo das terras sem considerar a aptidão agrícola, associado ao manejo inadequado, provocam degradações nas características físicas e químicas do solo, e consequentemente favorecem o processo erosivo. A erosão diminui a capacidade produtiva dos solos, pois reduz a fertilidade natural e o volume efetivo para a exploração das raízes. Também contamina os cursos d'água com sedimentos, nutrientes e agrotóxicos.

O processo erosivo ocorre em 3 etapas: desagregação, transporte e deposição. A primeira fase é também denominada de erosão entre sulcos ou erosão laminar. É provocada pelo impacto das gotas da chuva sobre o solo nú, havendo o rompimento dos agregados da superfície. O escorrimento superficial da água transporta as partículas desprendidas na primeira fase do processo erosivo. É também capaz de provocar sulco ou erosão por cisalhamento. Quando a carga de sedimentos da enxurrada ultrapassa a sua capacidade de transporte, ocorre a deposição desse material.

A cobertura do solo exerce importante influência no processo erosivo, pois protege o solo do impacto das gotas, evitando com isso a ocorrência da primeira fase do processo erosivo. Além deste aspecto, a cobertura do solo reduz o selamento superficial e com isso favorece a infiltração de água no solo e, consequentemente, reduz a enxurrada.

Segundo Lopes et al. (1987), a cobertura do solo de 20% é suficiente para reduzir a erosão entre 40 e 60%, quando comparada a um solo descoberto. Avaliando o efeito da cobertura para a cultura da soja em seus diferentes estádios, Vieira et al. (1977) comenta que 90% das perdas de solo ocorreram num período crítico de 30 dias entre a semeadura até o crescimento. Para a cultura do milho, segundo Levien et al. (1990), o período crítico também ocorre no primeiro mês após sua semeadura. O mesmo autor verificou que o milho, em sistema de preparo convencional, foi o responsável por uma redução da erosão em 57,5% em relação ao solo descoberto.

Trabalhando em condições de chuva simulada e com diferentes resíduos culturais de milho, trigo e soja, Lopes et al. (1987 b) concluiu que o resíduo de trigo não incorporado foi o mais eficiente na redução da erosão. Também trabalhando sob condições de chuva simulada, Carvalho et al. (1990) avaliou o efeito cobertura do solo com resíduos de trigo e concluiu que a eficiência do material é maior quando não há incorporação. Amado et al. (1989) observou que uma quantidade de 700 kg/ha de resteva de soja (20% de cobertura) corresponde a uma redução nas perdas de solo em 50%, em comparação com solo descoberto.

Os sistemas de preparo de solo contribuem para o controle da erosão em pelo menos 3 formas diferentes: pela quantidade de resíduos culturais que ficam na superfície; pela rugosidade superficial; e demais fatores que favorecem a infiltração da água (Merten, 1994). Vieira et al. (1977), avaliando a cultura da soja em diferentes tipos de preparo, demonstrou que o sistema sem preparo (plantio direto) e preparo reduzido foram os mais eficientes para o controle de perdas de solo. Avaliando perdas do solo e água em condições de solo descoberto, preparo convencional, preparo mínimo e plantio direto, e com a rotação de culturas de trigo, feijão, pousio, soja e aveia, Bertol (1994) conclui que o sistema de plantio direto foi o mais eficaz na redução da erosão.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi instalado em 1977 na Estação Experimental do pólo Regional do IAPAR, em Ponta Grossa-PR, cujo clima, segundo a classificação de Koeppen, é do tipo Cfb, subtropical, úmido, mesotérmico com verões frescos, geadas severas e sem estação seca definida, situado a latitude de 25° 13' S e longitude 50° 01' W, com altitude 880 metros. A cobertura vegetal da região é constituída por campo subtropical de altitude (Embrapa, 1992/93). O solo do local do experimento é do tipo Latossolo Vermelho Escuro álico (LEa), sobre um relevo suave ondulado com 8,6% de declividade média. O material de origem é da era Paleozóica, do período Devoniano, pertencente ao grupo Paraná (Dp), de formação de Guabirotuba, constituído das rochas arenitos, siltitos, folhelhos e siltitos cinzentos (Paraná, 1986). A precipitação na região de Ponta Grossa, segundo Oliveira (1990), é de 1.472 mm anuais.

O ensaio foi dividido em duas fases. Na primeira, que corresponde ao período de 1977 a 1990, estabeleceu-se quatro tratamentos. Em dois desses tratamentos foi avaliada a sucessão de trigo e soja e os demais foram mantidos descobertos. Na segunda fase, entre 1990 e 1994, passaram a ser trabalhadas seis parcelas. Em quatro dessas avaliou-se a sucessão de aveia — soja — milho — trigo — soja, e as demais foram mantidas descobertas.

Tratamentos avaliados:

1 — Parcela descoberta de 22 metros, preparo convencional (aração + 2 gradagens leves).
2 — Parcela cultivada de 11 metros, preparo convencional (aração + 2 gradagens leves).
3 — Parcela cultivada de 11 metros, com plantio direto.
4 — Parcela cultivada de 11 metros, preparo com escarificação no inverno e plantio direto no verão.
5 — Parcela cultivada de 11 metros, escarificação + 2 gradagens leves.
6 — Parcela descoberta de 11 metros, preparo convencional (aração + 2 gradagens leves).

As características físicas e químicas do solo, de acordo com a metodologia da Embrapa, encontram-se detalhadas nos Quadros 1 e 2 do artigo original (granulometria por horizonte Ap1/Ap2/AB/BA/B com %argila 56-66, densidade real 2,53-2,56 g/cm³, porosidade total 47-56%; pH 4,0-4,7, Ca/Mg/K/Na em valores ppm, C org 0,13-2,47%, N 0,06-0,23%).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na Tabela 1 do artigo original encontram-se as perdas de solo e água e precipitações que ocorreram nas culturas de trigo e soja. As perdas de solo nos tratamentos descobertos chegam a apresentar-se de 12 anos para as culturas de trigo e soja, acompanhando a precipitação. Isso é confirmado pelos dados sobre a energia da chuva. As maiores perdas e perdas no menor número de ciclos, conforme Tabela 1, encontram-se no tratamento 1 (descoberto, conv. 22m). Considerando o tratamento 1, em 6 anos para a cultura da soja simulam a presença de terraços com comprimento de rampa de 22 metros para a cultura da soja para 11 metros. Isso confirmou pelos dados nas Tabelas 1 e 6, em relação à redução nas perdas de solo de 45% e 21,7%, respectivamente. Considerando as culturas do trigo e soja, para o tratamento 2 (preparo convencional), as perdas anuais foram em torno de 4,5 t/ha solo e 35 mm água.

Na Tabela 7 do artigo original encontra-se o fator cobertura (C) da equação universal de perdas de solo, por culturas e tipos de preparo: TRIGO convencional C=0,127, SOJA convencional C=0,1051, TOTAL=0,2321; TRIGO plantio direto C=0,078, SOJA plantio direto C=0,0335, TOTAL=0,1115. Os valores de C são menores para o plantio direto tanto na soja como no trigo. Os valores de C para soja, quando comparados ao trigo, são menores em ambos os preparos — isso se explica por encontrar-se resíduos de trigo durante o ciclo da soja.

Considerando a segunda sucessão de culturas, correspondente aos anos de 1990 a 1994, na Tabela 8 do artigo original encontram-se as perdas totais de solo e água por tratamento. Os tratamentos descobertos tiveram as maiores perdas, seguidos do tratamento 2, que corresponde ao preparo convencional. As menores perdas de solo e água se encontram no plantio direto.

Avaliando o rendimento médio para a cultura de trigo (Tabela 9 do artigo original), percebe-se que as diferenças são mínimas entre os preparos conservacionistas (tratamentos 3, 4 e 5). O maior valor ocorre no tratamento 2, mas para a cultura da soja (Tabela 10 do artigo original), este mesmo tratamento apresenta o menor rendimento. Ainda para cultura da soja, o tratamento 3 superou os demais. O plantio direto mantém a umidade do solo e favorece para menor amplitude térmica. Esses dados concordam com Centurion et al. (1985) e Centurion e Demattê (1985).

Na Tabela 11 do artigo original encontra-se o rendimento para a segunda sucessão de culturas. Percebe-se que o maior rendimento de grãos encontra-se, numa média de seis ciclos culturais, no tratamento 3 e tratamento 4, que correspondem, respectivamente, a plantio direto e escarificação no inverno e plantio direto no verão. Interessante salientar que o tratamento 3 apresentou a menor perda de solo (Tabela 9) para a mesma sucessão de culturas.

CONCLUSÕES

As maiores perdas de solo e água ocorreram nas culturas de verão, devido à maior energia das chuvas neste período. O sistema de plantio direto, quando comparado com o solo descoberto, reduziu as perdas de solo na cultura de trigo em 98,9% e na cultura do trigo em 97%. Comparando o preparo convencional e plantio direto, este reduziu as perdas de solo em 91,5% para a soja e a cultura da soja em 53,7% para o trigo. Nas culturas de trigo e soja a redução do comprimento de rampa de 22 metros para 11 metros, em presença de terraços, ocasionou redução média de 47,2% nas perdas de solo. Nos tratamentos descobertos, as perdas de solo e água acompanharam a precipitação. Nos tratamentos cultivados, o fator cobertura amenizou as perdas. O fator cobertura (C) para a sucessão conv. foi de 0,2321 e para o plantio direto foi de 0,1115. As maiores perdas são no verão, em comparação com o trigo no inverno.

Artigo técnico. Gustavo Henrique Merten (IAPAR Ponta Grossa-PR). Colaboradores: Jadir A. Rosa (eng. agrícola), Rui M. Biscaia (eng. agrônomo), Francisco A. Silva (téc. agrícola). Experimento Estação Experimental IAPAR Ponta Grossa-PR (Latossolo Vermelho Escuro álico, declividade 8,6%, lat.25°13'S long.50°01'W alt.880m, clima Cfb subtropical, prec.1.472mm anuais). 2 fases: 1977-1990 (sucessão trigo+soja, 4 tratamentos) e 1990-1994 (sucessão aveia-soja-milho-trigo-soja, 6 tratamentos). T1=descoberto conv 22m; T2=cult conv 11m; T3=plantio direto 11m; T4=escarif inverno+PD verão; T5=escarif 2 gradagens; T6=descoberto conv 11m. Conclusões: T3 (PD) menor perda solo/água; T3 e T4 maiores rendimentos médios; cobertura 20% reduz erosão 40-60% (Lopes 1987); 90% perdas soja nos 30 dias após semeadura (Vieira 1977); milho conv reduz erosão 47,2% vs descoberto (Levien 1990); 700kg/ha resteva soja (20% cobertura) reduz perdas 50% (Amado 1989). Fator cobertura C: conv 0,2321 vs PD 0,1115.