QUEM FAZ PLANTIO DIRETO NÃO TEM MEDO DO NEMATÓIDE
Entrevista com João Flávio Veloso Silva e Antonio Garcia — pesquisadores da Embrapa-Centro Nacional de Pesquisa de Soja, Londrina-PR.
Revista Plantio Direto — Como o NCS chegou ao Brasil?
João Flávio Veloso Silva — O nematóide chegou ao Brasil em 1992 e a hipótese de ele ser nativo está completamente descartada, pois ele é tipicamente de regiões temperadas. Os nematóides que formam cistos estão associados a locais onde o indivíduo tem que passar por um período adverso, um frio intenso, por exemplo. Nessa situação, ele forma um cisto, para sobreviver durante o período. Na região tropical, nós não temos estas condições, a natureza não desprenderia este esforço para formar cisto. Porém, pelas deficiências do Cerrado, ele acabou se adaptando.
RPD — Como o plantio direto tem auxiliado o trabalho de vocês?
Antonio Garcia — O principal problema é a disseminação rápida da doença. Um colega que trabalha no cerrado mineiro conseguiu provar que o nematóide pode ser transmitido por vento, o que era uma dificuldade para nós. A cultura do milheto, fundamental para o plantio direto no Cerrado, tem sido importante para o controle da erosão eólica e isso facilita o nosso trabalho porque não ocorre a disseminação através do vento.
Outra questão é a atividade biológica do solo. A cobertura proporciona uma maior atividade microbiana no solo, o que proporciona uma maior degradação do cisto, pois existem microorganismos, principalmente fungos, que passam a parasitar esses cistos. Isto acaba regulando a população de nematóides. Nesse sentido, é importante a atenção no manejo da matéria orgânica e de outros fatores químicos, do pH, da saturação de bases, porque se não você vai diminuir a atividade dos microrganismos.
RPD — Quais as expectativas em relação à resistência varietal para o nematóide de cisto da soja?
Antonio Garcia — Todas as variedades hoje nos temos hoje no país são suscetíveis. A Embrapa está fazendo a avaliação de 45 a 50 mil genótipos por ano, trabalhando no Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. No ano que vem já será lançado, em Minas Gerais, uma variedade com resistência à raça 3 do nematóide. Nos outros estados, dentro de 2 anos já começa a sair material com resistência. Sabemos que isso não vai resolver o problema, porque o NCS tem muitas raças. No Brasil nós temos 9 raças. Então, quando se usa uma variedade resistente durante muito tempo, a raça muda e começa a quebrar a resistência. Como a resistência varietal sozinha não resolve, é preciso aliar rotação de cultura e manejo do solo.
Entrevista João Flávio Veloso Silva e Antonio Garcia (Embrapa-CNPSoja Londrina-PR). NCS BR 1992 (não nativo, típico temperado, adaptou-se em Cerrado). PD auxilia: milheto reduz erosão eólica (vento dissemina cisto); cobertura+matéria orgânica favorecem atividade microbiana - fungos parasitas degradam cistos. Importância manejo MO+pH+sat bases. Resistência varietal: Embrapa testa 45-50 mil genótipos/ano, primeira cultivar raça 3 chegando em MG; BR tem 9 raças NCS - resistência sozinha não basta - precisa aliar rotação+manejo solo.