Mais que tecnologia: uma filosofia agrícola Mais que uma simples tecnologia preservadora do solo, O plantio direto é uma nova maneira de encarar a atividade agrícola. São mudanças que vão refletir diretamente na produtividade e principalmente na estabilidade da produção. Foi esse conceito que embasou as atividades desenvolvidas por agricultores, pesquisadores e técnicos no 2º Simpósio sobre Plantio Direto no Norte do Paraná.
ma filosofia de vida. É assim que o produtor Klaus Ranke define o plantio direto. E é com experiência que ele faz essa afirmação. Há 22 anos, Ranke utiliza o sistema em sua propriedade, a Fazenda Marta, em Rolândia, no Norte do Paraná. Para ele, quem adota essa técnica precisa ter uma outra forma de pensar, um outro tipo de relacionamento com a terra. Deixar de lado a idéia de que o solo precisa ser revolvido para poder brotar a vida, “Não existe receita única”, ele diz, cada produtor tem que conhecer muito bem a sua terra e estar aberto às novas tecnologias e experiências”.
Justamente por isso, a Fazenda Marta foi escolhida para ser um dos palcos de um evento que movimentou, no mês de setembro, mais de 280 pessoas, entre agricultores, pesquisadores, técnicos da extensão rural e da assistência técnica: o 2º Simpósio sobre Plantio Direto no Norte do Paraná, promovido pela Associação dos Engenheiros Agrônomos de Londrina e organizado pela Embrapa-Soja, pelo Instituto Agronômico do Paraná - IAPAR, pela Universidade Estadual de Londrina, pela Emater, pela Cooperativa Agropecuária de Rolândia - Corol e pela Coo : perativa de Crédito Rural Vale do Tibagi - Valcoop.
Na fazenda, a terra em declive e sem Josiane Schulz curva de nível, mas totalmente coberta com resíduos culturais, mostrava claramente um dos benefícios do sistema. O plantio direto é uma das práticas mais eficazes para conservação de solo. A perda de solo pela erosão em áreas onde se utiliza o plantio direto chega a ser 90% menor comparado aos sistemas convencionais de preparo de solo. Antes de iniciar os trabalhos, o alerta de quem é pioneiro: os resultados da prática são percebidos a médio e longo prazos. É uma mudança drástica na estrutura do solo - diz Ranke, “e para alcançá-la são necessários alguns anos de trabalho .
Os campos experimentais instalados na Fazenda Marta demostravam na prática o que os participantes do Simpósio tinham aprendido nas palestras com pesquisadores da Embrapa-Soja e do lapar. Técnicas de. manejo das coberturas de solo, tecnologias de aplicação de herbicidas, opções de coberturas vegetais para o Norte do Paraná, física do solo, demonstração de perdas de solo através de simulador de chuvas, rotação de culturas e máquinas de plantio direto, foram os principais temas. Em todas as estações, os pesquisadores das duas instituições e os técnicos da extensão rural mostraram os benefícios da técnica e a melhor forma de aplicá-la.
Incentivar a adoção do sistema O pesquisador da Embrapa-Soja e presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Londrina, Dionísio Gazziero, explica que o principal objetivo do 2 Simpósio foi incentivar a adoção do plantio direto pelos agricultores do Norte do Paranã. O evento buscou esclarecer os participantes sobre os problemas de implantação do plantio direto nas condições de solo e ci ma do Norte do Paraná. ão Segundo Gazziero, esse tipo de ativ!- dade mostrava-se necessária, porque, aper sar da região Norte do Paraná ter sido pio” neira na pesquisa e na prática do plantio direto, o sistema evoluiu mais em outras regiões. A proposta de realizar O evento surgiu no 1º Simpósio, que aconteceu em 1994. Na época, pesquisadores e técnicos buscaram conhecer e analisar as dificuldades na adoção do plantio direto pelos agricultores do norte do estado, bem como definir ações de pesquisa e de difusão da tecnologia.
Quem está entusiasmado com o plantio direto é o produtor de Rolândia, Nilton Burges da Silva Júnior. Ele adotou o sistema há três anos e, apesar dos principais resultados, quanto à recuperação e à manutenção das condições físicas, químicas e biológicas do solo, virem a médio e longo prazos, ele já está vendo vantagens na prática. A principal delas: economia. “Desde quando comecei a utilizar o plantio direto, percebi que as máquinas e os equipamentos têm menor desgaste que com o plantio convencional”.
Outro ponto positivo é a perceptível mudança de filosofia. Nilton Burges da Silva Junior explica que com a adoção de novas tecnologias, o agricultor tem obrigatoriamente que estar atento a todas as modificações na área científica. Além disso, ele tem que ser um administrador com “visão de futuro, deixando o imediatismo de lado, quando possível”. Ele exemplifica isso com o investimento em adubação verde, técnica essencial para o plantio drireto. Plantar aveia, tremoço ou sorgo não traz retorno econômi!- co, mas reflete na produtividade da soja a ser plantada em seguida.
Adepta do plantio direto há 14 anos, a produtora Inge Rosenthal não hesita em indicar a utilização do sistema a outros agricultores. Ela acredita que a produtividade alcançada na colheita de trigo deste ano, 3.300 kg/ ha, é resultado também da conservação do solo, feita através do plantio direto. A estiagem, que prejudicou a maioria das lavouras de trigo do Norte do Paraná parece não ter causado tantos danos à plantação de Inge Rosenthal. E ela mesmo explica: uma das vantagens do plantio direto está na maior conservação da umidade e da temperatura do solo. Além disso, Inge considera o sistema vantajoso em vários ou- Agricultores assistindo a uma das palestras do evento tros aspectos. O principal deles é o controle da erosão. A forte declividade de sua propriedade poderia representar para ela um grande problema, se utilizasse o plantio convencional. Com a adubação verde, durante o inverno, Inge Rosenthal garante proteção e fertilidade ao solo e estabilidade na produção. Apesar de não ser fonte de lucro imediato, a adubação verde dá retorno econômico, com o aumento da produtividade da lavoura”, explica.
Do Brasil para o mundo Quando o assunto é estratégias para difusão e adoção de tecnologias conservacionistas, como o plantio direto, o Brasil é considerado mundialmente como “expert”. Tanto que uma das mais importantes conferências sobre o tema teve uma palestra do pesquisador e especialista em difusão de tecnologia da Embrapa- Soja, Paulo Roberto Galerani, atualmente chefe adjunto técnico dessa unidade da Empresa. Galerani falou sobre a evolução do plantio direto no Brasil aos mais de 200 participantes da 19º Conferência Anual de Manejo e Conservação de Solos, que aconteceu no mês de julho, em Jackson, Tennesse, nos Estados “A dificuldade na adoção do plantio direto não é um problema exclusivo de algumas regiões brasileiras. Países do Primeiro Mundo enfrentam o mesmo problema”, lembra Galerani. Ele explica que a adoção dessa prática depende muito da mudança na maneira de pensar do produtor. Apesar de ser a técnica mais eficiente para conservação de solos e controle dos processos erosivos, muitos agricultores têm dificuldade na utilização do sistema. As condições de solo e clima são determinantes na adaptação do sistema às diversas regiões produtoras”.
ISso acontece, segundo Galerani, porque o plantio convencional é uma prática que vem sendo utilizada há muitos anos. E todo agricultor que decide implantar a nova técnica tem, necessariamente, que mudar o sistema agrícola, desde o manejo do solo até a colheita, passando pela utilização correta de Insumos e a rotação de culturas. “ O plantio direto é mais que uma simples tecnologia preservadora do solo. É, acima de tudo, uma filosofia agrícola. As mudanças podem ser, muitas vezes, radicais, mas que vão refletir diretamente na produtividade e principalmente na estabilidade da produção”, define Galeran!. E.